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"artigos"

sobre Miguel Falabella

Luís Francisco Wasilewski
Correio do Povo


O Príncipe dos palcos está em Porto Alegre

“Príncipe”. Era com esse vocativo que o dramaturgo Vicente Pereira e a atriz Duse Naccarati saudavam Miguel Falabella, que está em cartaz em Porto Alegre com “God”. Difícil conseguir sintetizar em um artigo a importância de Falabella para a cultura brasileira a partir da década de 1980. Artista múltiplo, em seus 60 anos de vida, conseguiu respeitabilidade como ator, diretor, tradutor, dramaturgo, cronista, carnavalesco, cineasta, apresentador de televisão, escritor de telenovelas e roteirista de séries.

Sua aparição como ator de destaque aconteceu no grupo Pessoal do Despertar, um dos mais importantes da cena teatral carioca do começo dos anos 1980, que se destacou com montagens como “Happy End”, de Bertolt Brecht e Kurt Weill, e uma versão do clássico shakespeariano “A Tempestade”, que foi encenada no Parque Lage. Este, em especial, foi um espetáculo histórico por ter sido realizado em um espaço cênico inovador, em uma época na qual o teatro brasileiro era representando, na maioria das vezes, em espaços teatrais, seja com palco italiano ou no formato arena.

A estreia como dramaturgo aconteceu em 1983 com a peça “Apenas Bons Amigos”, para a qual escreveu esquetes em uma coletânea que reunia textos de Geraldo Carneiro e outros autores. No entanto, é no ano seguinte que Falabella se destaca na cena teatral carioca. Sua paixão por Emily Dickinson, que começou durante o período no qual fez a graduação em Letras na UFRJ, chegou ao palco no espetáculo Emily, uma direção sua a partir do texto sobre a vida da poeta inglesa, escrito por William Luce. Miguel chamou a filha de Carlos Drummond de Andrade, Maria Julieta, para auxiliá-lo na tradução dos poemas que estavam no texto. Coube a Beatriz Segall interpretá-la no monólogo. Em 1993, ele assinou a direção de outro texto de Luce, “A Filha de Lucifer”, onde Cleyde Yáconis representava a escritora dinamarquesa Karen Blixen. Dickinson e Blixen são autoras fundamentais em sua formação literária. O lirismo na construção imagética de suas crônicas e textos teatrais carregam traços do estilo da escritura de ambas.

Após o período em que, ao lado de Mauro Rasi e Vicente Pereira, formou “A Santíssima Zé Trindade do Teatro Besteirol”, expressão criada por ele, Miguel cria grandes textos da dramaturgia brasileira da década de 1990, como “A Partilha” e “Como Encher um Biquíni selvagem”. O supracitado foi adaptado para o cinema sob sua direção, em 2008, com o título de “Polaroides Urbanas”. Resultou em um sensível retrato a respeito da solidão e incomunicabilidade das relações no universo urbano.

Com “Querido Mundo”, escrito em 1993, começou uma fértil parceria com Maria Carmem Barbosa. Joias como os textos dramático Louro, Alto, Solteiro Procura... e Todo Mundo Sabe que Todo Mundo Sabe, além das telenovelas Salsa e Merengue e “A Lua me Disse”, foram criadas pela dupla Miguel/Maria Carmem. Em “Louro, Alto, Solteiro Procura...”, havia, além de uma dramaturgia genial, um trabalho minucioso de interpretação em que Miguel representava 17 personagens. Sobre essa montagem, Barbara Heliodora escreveu em sua crítica no Jornal O Globo: “Nada marca tanto o espetáculo quanto o óbvio prazer de Miguel Falabella em dar prazer ao público, em torná-lo conivente com aquele maravilhoso faz de conta que ele realiza tão bem”.

A partir de 2001, com a formação do que foi batizado como “Broadway Brasileira”, passou a criar grandes musicais. Desta época, merecem ser lembrados “South American Way”, que escreveu junto com Maria Carmem Barbosa sobre a vida de Carmem Miranda, e as versões que assinou sozinho de “A Gaiola das Loucas” e Alô Dolly”, derradeiro trabalho teatral da genial Marília Pêra. Aliás, a Miguel o que é de Miguel. Devemos a ele a chance de termos visto a grande Pêra na televisão até sua morte. “Pé na Cova”, além de ser um ótimo seriado, trouxe a atriz representando a maquiadora de defuntos, Darlene, um dos grandes papéis de sua carreira.

Falabella está em Porto Alegre com “God”, espetáculo no qual ele volta a explorar seu talento de one-man show. Trata-se de um privilégio a este importante artista em cena.

Luís Francisco Wasilewski | Doutor em Literatura Brasileira pela USP | Correio do Povo (Porto Alegre)