Caverna

 Num canto da festa, encostado na parede vermelha, olhando a massa de corpos, que se move junta ao ritmo da música, através da fumaça, uma garrafa de cerveja na mão, eu penso: as coisas conosco são sempre um pouco mais complicadas, há sempre meandros, volteios, há mudanças bruscas na direção e a gente que se aprume para não virar uma cambalhota desajeitada bem no meio da vida e cair no solo como um boneco jogado do alto. Ficar ali, esparramado no chão, com todos os olhos pousados sobre nós, sem saber direito se achamos graça e abrimos um sorriso, ou marejamos os olhos d’água e fazemos uma careta de dor. É essa a sensação, não é? A de não saber direito se vai doer, quando finalmente levantarmos. A expectativa das pernas sobre o solo, como aqueles herbívoros recém-nascidos nas savanas africanas. Aprenda a ficar de pé, aprenda a correr rapidamente, aprenda a escamotear a dor e seguir em frente – esse é o recado soprado em nossos ouvidos e só nos resta a obediência, enquanto aguardamos outras evoluções da espécie.
 Eu fico ali por algum tempo, usufruindo desta filosofia cotidiana de que são feitos os nossos caminhos, até que Sarita aparece do outro lado do bar e caminha em minha direção, esquivando-se dos corpos suados que resvalam nela, a blusa exibindo uma grande faixa de pele clara, como uma praia inesperada na curva da estrada. Ela pára na minha frente, toma um gole da minha cerveja e, depois, num movimento rápido, joga as costas de encontro à parede, suspirando.
 - Mulheres da minha idade, ou estão em busca de um homem, ou estão questionando se devem ou não separar-se dos seus. – ela diz se encolhendo, para evitar o contato com a pele suada de alguém que passa.
 Eu afundo o nariz em seu pescoço, como um cumprimento afetuoso e ela diz um nome em francês no meu ouvido, mas o perfume me traz a lembrança de talco e de manhãs chuvosas. Alguma manhã chuvosa em que estive apaixonado, olhando para o mundo lá fora, incapaz de entender tanta desarmonia, quando o meu mundo parecia perfeito, dentro das paredes do apartamento. É isso que me chega pelo perfume dela, despertando um sentimento de muitos anos, um amor que andava escondido lá por dentro e que volta com uma velocidade ímpar. Tão forte é a coisa, que resolvo marejar os olhos e acelerar o coração, o rosto mergulhado na seda dos cabelos.
 Sarita fecha os olhos, assim que encosta a cabeça na parede, e eu a imito. E penso: as coisas conosco são bem mais complicadas do que simplesmente levar a cabo a existência. Há outras urgências além da fome, há um mundo por detrás de cada rosto pousado nas janelas que vão ficando para trás. Atravessamos os dias com perguntas sem respostas, caminhamos apressados, corremos atrás do vento, e vamos armazenando aquelas perguntas que roubam o ar, que incomodam o funcionamento do todo, como quem junta estampas numa caixa.
 E, ainda que a fé nos aponte a absoluta especialidade de cada ser vivente, ainda que os nossos corações urbanos dancem nas águas místicas, ainda assim não conseguimos encontrar o porquê das infâncias abandonadas, das injustiças cada vez maiores, da velhice solitária pelas ruas da cidade. Para essas perguntas sem respostas, para o silêncio que há nos olhos das crianças jogadas à própria sorte, não há remédio, eu penso, encostado na parede vermelha do fundo da caverna.
 E mergulho tão profundamente nos pensamentos que quando me dou conta, Sarita não está mais a meu lado, desapareceu tragada pela massa de braços, pernas, cabelos e suor que ondula a minha frente. Bebo a minha cerveja e penso seriamente em ir para casa, amanhã dou uma desculpa qualquer, quando ela reaparece, afastando uma mecha de cabelo da frente do rosto. Suas unhas parecem lascas de chocolate ao leite.
 - Vamos embora daqui. – ela rosna, apertando os olhos, e adivinhando meu desejo.
 Saímos juntos, acenando para um ou outro conhecido, margeando a pista, onde louras e aspirantes ao estrelato se exibem para os fotógrafos no eterno circo da mídia. Há dezenas de entrevistadores, dezenas de câmeras e postes de iluminação, olhares febris e gargalhadas histéricas. Tudo muito cansativo. Tudo muito previsível.
 - As pessoas perderam a vergonha na cara. – Sarita quase grita perto do meu ouvido, puxando meu braço na direção da saída, onde bailam as luzes das televisões. – Vamos para casa, que é bem melhor.
 Na saída, puxo o ar com força, tentando livrar meus pulmões da fumaça, mas nada acontece. A caverna transferiu-se para o lado de fora - não há espaços abertos, quando o coração anda trancado. Há uma grande e nebulosa caverna, onde voam os morcegos do passado, afunilada na direção da luz que se chama futuro.
 Paro o carro na porta da casa dela e beijo seu rosto, roubando um pouco mais daquele perfume de manhãs chuvosas, a lembrança do amor guardado no passado.
 - Sabe, às vezes eu sinto falta da vida que eu não tive. – Sarita me beija de volta e seus lábios estão frios e escuros. - - Às vezes, eu penso que poderia começar outra vez. Mas, depois, desisto.
 Ela quase corre para a entrada do prédio e desaparece no retângulo de luz do elevador. Eu volto dirigindo devagar e, antes de dormir, penso com certa melancolia que talvez seja hora de fazer um testamento, assim como quem escreve uma carta ao mundo.
 Depois, é mata, é noite e é silêncio. E a caverna abre seu teto de rocha para o manto de estrelas acima.


A volta enluarada

 Por onde é que eu começo? Deixe-me ver… Talvez pela lua que era uma lâmina amarela nos céus, uma lua árabe na noite abafada, um cheiro de chuva à distância - talvez porque a visão daquela lua, refletida no pára-brisa do carro tenha aquietado um pouco o meu coração, que andava aos pulos, corcoveando na noite, caçador solitário. É, acho que foi a lua, a princípio e, depois, a melodia derramada com orquestração suntuosa que brotava do rádio, no painel do carro. Começo então pela lua – apenas um risco claro, como o respingo de gema na toalha escura que era aquela madrugada.
 Depois dela, depois daquele astro enamorado, de tudo aquilo que a lua poderia ter sido e não foi, depois chegam, é claro, os íntimos tumultuados dos passageiros do carro, todos cansados, todos com sono, todos reclamando daquele fim de noite. A volta para casa, quando a manhã se avizinha, os olhos das moças com um risco de maquiagem adormecida.
 Nada demais. Apenas as indagações comuns a uma geração. Junto comigo, toda uma multidão de homens e mulheres solitários, de corações urbanos em busca de entendimento, de olhares e de promessas. Junto comigo, as garotas de Ipanema de um verão nem tão distante, mas já desaparecido, sem outro vestígio que não as memórias comuns de uma fatia de vida, um grupo qualquer reunido sobre uma grande toalha, a praia ensolarada e uma ou outra gargalhada cortando o verão.
 Estranhamente, nossas lembranças são todas de verões, os invernos ficaram esquecidos para sempre, a sebe verde brilhante das férias na serra repousam no passado, junto com as montanhas de creme e doces de maçã. Não. Não andam sendo visitadas aquelas manhãs geladas, aquele ar de prata. Mas o azul daquelas tardes de verão! A paixão daquelas noites! Essas mantêm as cores aprumadas e renovam o corante dos dias sempre e sempre.
 Aquela lua nos céus nos trouxe também a lembrança de outras noites, outras madrugadas e o entendimento cruel de que, num país sem nenhuma memória, sem nenhum respeito pela própria história, a sensação de finitude é muito violenta. A idéia de simplesmente apagar a luz não nos agradou nem um pouco. Daí que desandamos a contar nossos caminhos, desatamos os nós dos passados comuns, jingles, canções das juventudes inflamadas, quando um violão em volta de uma fogueira era a estampa da felicidade. E as imagens começaram a entrar em cena, como se aquela lua que brilhava muito fina no céu, aquela mesma lua árabe saísse visitando outros céus.
 Aquela mesma lua que brilhava cheia, grávida de amarelos e azulados, ostentando no centro, como um broche, a mancha escura do balão subindo aos céus. Era São Cristóvâo e tio Edmundo soltava uns fogos coloridos para alegria daquela criançada. Nós sentados na escada de pedra assistindo ao espetáculo dos fogos nas mãos de tio Edmundo. Que coisa engraçada lembrar dele assim, nesta madrugada, por causa de uma lua que era um talho no veludo da noite. Que coisa preciosa poder recuperar este momento!
 Um café derradeiro antes das cobertas, os olhos embaçados, uma esperança renovada no amanhã. Mas antes do sono, percebemos que uma grande parte do nosso mundo já foi destruída, desapareceu sem deixar vestígio, talvez uma ou outra fotografia em sépia, a memória de um verão dourado nos cinemas do Rio de Janeiro que só existem agora na saudade daqueles que amanheceram em flor. E, convenhamos, não é agradável esta sensação de se estar assistindo de camarote à destruição da civilização que você conheceu.
 Por isso, Tio Edmundo e o subúrbio incendiado. O vento quente e a imobilidade daquela paisagem. Por causa daquela lua, a mesma que brilhou outras tantas vezes, na festa de quinze anos da prima mais velha, o teto da sala todo trançado de serpentina e as moças de família dançando o hully gully. Por tudo isso, pelo imenso quebra-cabeça que é essa nossa jornada (e a busca pela peça que falta, é claro!). Para recuperar uma parte importante do arquivo é que a lua nos apontou o caminho de volta. De modo que voltamos para casa, após o café, pisando nos astros distraidos, imitando a canção.
 E penso, já em casa, adivinhando o dia que nasce através da fresta da cortina, sob as cobertas, as palavras brotando da mente enevoada, os olhos teimando em se fechar: não vivo para outra coisa, não busco outra coisa que não esse garimpo cotidiano de lembranças e imagens. Algumas minhas, outras alheias, a sucata de tantas vidas, o bloco de emoções que preciso olhar, tocar e tentar entender. Para que a jornada fique suportável e para que o amor, enfim, encontre seu destino.
 E, quando a manhã chegou, antes dos olhos se fecharem, trouxe junto a lembrança de uma estátua monumental de Calder, mirando a água em algum lugar da Dinamarca. Placas coloridas que brilham ao tímido sol escandinavo e que são os cabelos de alguma donzela que mira o horizonte na eterna esperança do retorno.
 E sempre o caminho de volta a desabrochar na frente.


Oceania

 A semana foi fria, em todos os sentidos. Músculos entorpecidos e manhãs de sábado aprisionadas no hálito do inverno. São Paulo foi varrida por uma onda de gelo e, no palco, no meio do segundo ato, na segunda sessão, perto da uma da manhã, o frio beira o insuportável. Eu e Tuca nos cobrimos com os cobertores que fazem parte do cenário da cela e ficamos ali, com aquelas indumentárias inventadas, dando vida às personagens de Manuel. Ás vezes fica difícil um dia após o outro, às vezes fica difícil improvisar, eu penso, enquanto um outro alguém, pousado sobre mim vai dizendo as falas da peça, vivendo as emoções que deveriam ser minhas. Às vezes é tudo muito esquisito.
 Depois, veio a notícia daquela moça perdida no mar e aquilo não me saiu da cabeça, fiquei com aquele aperto no peito, achando que a vida, às vezes é estranha demais, extrapola, exagera, fica atirando absurdos na nossa cara, todo o tempo, toda a hora, todo o instante. Com uma dureza que desconhece a poesia, que não soma. E é à poesia, à capacidade de percepção dela que se refere o sapíens que ostentamos na definição da espécie. Ou não é? Não é definitivamente o aprendizado para entender questões de sobrevivência, além das matemáticas. Estou falando é dessa capacidade de se emocionar que alguns humanos ainda cultivam, nas sombras de seus subterrâneos. A confraria dos corações emocionados – esses somos nós, tentando nos localizar, para ver se em bando as chances de sobrevivência aumentam.
 Acho que já tivemos perdas demais. Ando com vontade de cobrar aos céus uma olhada mais generosa para essas terras do sul, de pampas e horizontes, de barro e esperança. Ando mesmo é que com vontade de gritar para o cosmo, como se mais nada houvesse no planeta - de novo o solitário príncipe e as misses na televisão em preto e branco, no sofá de plástico azul. Papai com os cabelos escuros elogia a candidata de Mato Grosso, os braços abertos sobre o encosto largo - eu quase sorrio, encostado na grade fria da cela em que meu personagem habita.
 Havia um projeto de país, naquela época, havia uma esperança de nação nos olhos daqueles homens e um seio de bravura naquelas mulheres. Havia um olhar brasileiro e um pensamento que buscava seus caminhos, eu adivinho um pouco de tudo isso nas fotografias amareladas, que moram nos álbuns de capa dura. Aqueles pesados, que dormiam nas estantes do escritório de meu avô paterno, cheio de datas e nomes. Registros de toda uma vida, como pinturas na caverna. Assim, ele ia enchendo seus álbuns, de pijamas, na tarde abafada de então.
 Há tantas perguntas que eu tenho medo de fazer. Há tanto coração que eu ainda gostaria de visitar, eu penso, enquanto o espetáculo se encaminha para o final. Agora, a penúltima canção de amor desesperado e daqui a pouco tudo estará terminado. Vou cantando com o olhar perdido no refletor amarelo do balcão e curiosamente lembro de algo que ouvi na televisão sobre os aborígenes australianos. Para eles, a palavra usada para designar sua terra é a mesma que para sonho. Passei o dia inteiro tentando ver que parcela da minha terra preenche meu sonho, ou que sonho é esse que eu entendo por minha terra, como queiram. E assim se foi a tarde, cheia de imagens e homenzinhos da Oceania correndo pela região desértica que eles, ainda assim, chamam de sonho. Poesia. Era disso que estávamos falando, não era?
 Agora, estamos perto do desfecho. Estou ajoelhado e Carlos Capelleti me aponta a arma que vai apagar a chama da vida daquela personagem que escolhi viver. Ele olha no fundo dos meus olhos e eu adivinho o sorriso do colega que está desenhado por detrás da personagem cruel. Por esse tipo de vivência é que ainda vale à pena estar com tanto frio a esta hora da manhâ. Olho ainda uma vez para seu rosto, tentando ver o homem por detrás do ator, mas ele aperta o gatilho, selando o destino de Molina. Eu projeto meu corpo para trás, sentindo o impacto da bala e, no chão, à espera da mudança de luz, vem uma lembrança de Puig, com Vivien Leigh vivendo a fabulosa Lady Hamilton, indagada sobre sua vida amorosa com o admirável Almirante Nelson.
 - E entâo? Depois da vitória de Trafalgar? O que aconteceu então?
 - O que aconteceu entâo?
 - Sim, o que aconteceu depois?
 - Não há então. Não há depois.
 Por um instante, o rosto de Vivien Leigh paira, suspenso no ar gelado da noite e,depois, o mundo vem abaixo quando Cláudia Raia entra para receber seus aplausos.
 Na graça em com que ela se curva agradecendo às palmas, ainda uma vez, pano rápido.


Cisnes de papel

 Dando continuidade ao exercício de viver em voz alta: surge uma tarde de sábado, um amarelo brilhante que sempre surpreende em São Paulo, passeando pela Liberdade, o reduto da colônia japonesa, que mantém acesa a chama de sua história, as lanternas voando ao vento da tarde, no viaduto banhado de sol.
 Ando à cata de um artesâo que faz caixas de vidro recheadas de origamis, aquelas dobraduras de papel que imitam tigres congelados no salto, patos selvagens de asas abertas, esquilos, macacos e peixes prateados, figuras da fantasia do artista, as mãos hábeis transformando o papel, como um mágico, enquanto a tarde avança e as lanternas brancas rodopiam ao vento. O homem prende suas figuras em caixas de vidro e você pode comprar um bando de cisnes voando em formação - essa é a idéia, eu penso. Com aquelas figuras, vem junto um bando daqueles outros cisnes que voam sobre o mar do norte em direção à Islândia, as asas abertas, o ar frio cortando as narinas e o mar revolto abaixo. Junto com a delicadeza das dobraduras chega a fantasia e sabemos que ela basta, quando a abelha se afasta.
 Passeio com Vera do Canto e Mello, que faz minha mãe na peça e que, toda noite, emociona a platéia com sua voz privilegiada, cantando para o filho na prisão. Vamos descobrindo chás, geléias, porcelanas e balas, os olhos mergulhando em outra cultura com a avidez de crianças. Mas não conseguimos encontrar o artista, não conseguimos encontrar seus ataúdes de cristal brilhando ao sol, ainda que perguntemos aqui e ali. Por isso, vamos esquadrinhando prateleiras e vitrines, descobrindo vapores e perfumes, sobre a brancura do arroz.
 De repente, o rosto de um homem me traz alguma saudade, os olhos escuros e rasgados cruzam com os meus e a tarde da Liberdade se transfere para a televisâo em preto e branco, a grande tela do passado. O peito sujo de chicabon, o rosto afogueado e o seriado japonês de monstros abissais e incas venusianos, eu lembro, enquanto examino a pinturas no bule de porcelana esmeralda. Um universo de sensações, uma delicadeza de formas, o mundo que é visto por olhos diferentes.
 De volta ao Rio, na quarta-feira, fui ver o Dussek, no Teatro de Arena e, antes do show começar, fiquei no saguão, vendo umas fotos minhas que estão por ali, com Bia Nunnes, na Batalha de Arroz e com Maria Padilha, Denise Bandeira e Caíque Ferreira, em Apenas Bons Amigos. A sensação é a mesma que todo mundo tem, ao flagrar a própria imagem num espelho, ao ver o próprio reflexo numa vitrine, antes de montar a pose. Um susto e uma saudade. Talvez pelos sobressaltos, talvez pela incapacidade de agarrar o tempo eu não guarde fotos, nem recortes, nada. Mas não acho isso bonito. Fico com saudade de algum contato visual, alguma lembrança mais viva e, por isso, escrevo sobre os dias que vivi (e que vivemos todos, porque nossos sentimentos se plagiam descaradamente). Essa minha corrida de volta ao passado e aos vestidos estampados das tias é falta de arquivo – não é outra coisa.
 Dussek contando e cantando Carmen Miranda é um show. Além de cantar muito bem e de contar as histórias com um perfeito tempo de comédia, ele costura seu show com fina ironia e ritmo delicioso. Fiquei feliz, ao lado de Soraya Ravenle, cantando as músicas e lembrando do sorriso da baiana. Gostei tanto de apertar o botão da pausa e simplesmente me encantar com todo aquele repertório, sem as aflições da responsabilidade. Foi uma noite feliz. Obrigado, Dussek.
 Mas, antes de Dussek, ainda na Liberdade, ainda rodeado das luzes do oriente, houve um pensamento e uma reflexão sobre aquela frase do pequeno príncipe, que ficou esquecida junto com as misses, nas páginas de uma revista de época: tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Não fosse o repúdio ao intelecto das senhoritas em trajes de banho e sapatos de salto alto, ela seria olhada com mais respeito (eu, em minha defesa, devo declarar que sempre gostei dos maiôs catalina e que adoro Maria Augusta e sua bengala mítica). Mas é uma verdade e uma necessidade entender aquela frase, favorita das beldades de então. Foi esse o pensamento que me veio, ainda na Liberdade – a responsabilidade por aqueles que vamos cativando vida afora. Acho que se não somos capazes de entender isto, não somos capazes de muita coisa.
 Às vezes, quando sinto saudade, quando dói meu peito, eu imagino que nossas existências são como bandos de cisnes de papel, dobrados pelas mãos de alguma inteligência superior. Frágeis e belos na revoada, assim vamos nós pelos caminhos, entrelaçando as asas, buscando sabe lá Deus o quê! Cisnes de papel em sua rota migratória, despedaçando as asas no vôo, em busca de um verâo ameno nas terras da felicidade.
 É por aí. Como disse a Paula, em sua mensagem, no final tudo sempre dá certo, se ainda não deu é porque não chegou o final.


Nas asas da Panair

 O ano, não sei precisar. Mas foi, com certeza, antes de sessenta e quatro, em plena guerra fria, quando as potências exibiam seus avanços, conquistas e riquezas, orgulhosas que só! Era a feira russa no Pavilhão de São Cristóvão, palco de tantas visitas, tantos eventos – luz, cor e conhecimento jogados nas vidas suburbanas – era assim - de modo que as famílias se arrumavam, caprichavam nos topetes e partiam em revoada, em busca de um mundo diferente daquele que conheciam - a cada nova atração anunciada, a sensação de que acompanhavam a evolução da espécie. A cada novo desenho, a esperança de felicidade. Foi nesse mundo que crescemos, foi nessa civilização - de tardes ensolaradas, fitas de helanca e casacos de banlon - que vislumbramos a possibilidade do amor.
 Uma ida ao Pavilhão de São Cristóvão era uma festa para os sentidos, uma mudança brusca de direção, uma lufada de novidade, naquela existência de muros caiados de branco e tardes batidas pelo vento. A profusão de ambulantes, a gente que ia chegando com os rostos gordos de alegria e o olhar dos adultos para aquele mundo que abria seus tesouros e exibia seu poder – tudo isso eu vejo, agora, olhando a foto de um menino que chora nos braços da mãe, nas páginas do jornal, vítima de mais uma guerra, mais uma ferida no coração da gente, mais agressão ao planeta e às coisas vivas da terra.
 E a lembrança da feira russa, nos olhos do menino afegão, trouxe junto o aroma das eternas maçãs do amor, fincadas nas varetas que as moças empunhavam, passeando pelas galerias iluminadas - as bolas vermelhas e brilhantes que iam roubando a luz por onde passavam. Muita gente conheceu o amor numa das feiras do Pavilhâo, passeando depois pelo campo, o coreto de renda de ferro, o passado imperial logo ali na frente.
  (E abre-se o parêntese para homenagear a memória dos pintos. Pintos e mais pintos trazidos para casa depois daquelas visitas, amontoados, atordoados e infelizes - pintos encharcados de anilina, alaranjados, azuis e verdes, nostálgicos do campinho vagabundo e do galinheiro, que não tiveram a chance de conhecer. Os pintos todos falecidos em suas caixas de sapato, esquecidos num canto da cozinha, com uma lâmpada a lhes aquecer o fim, voltaram a me assombrar os sonhos, e eu tento escutar o débil piado que vem do passado, na esperança de entender sua mensagem.)
 A segurança da mão de meu pai, que ia me conduzindo pelo emaranhado de pernas, cansado de carregar o menino já crescido, é uma lembrança que aquece a alma, seguida pela lembrança do medo – uma onda de cabeças mergulhando em minha direção - meu pai, sem que eu soubesse como, tinha desaparecido. Eu estava perdido, naquele mar de gente. Nunca vou me esquecer daquela sensação, o pavor que me tirou o ar, aquela sensação gelada, que eu desconhecia e que invadiu meu corpo, roubando qualquer vontade. Em questão de minutos, tão frágil e abandonado quanto àquele patético pinto pintado de azul, jogado no fundo de um saco de papel. As primeiras noções de medo são devastadoras, sempre, não são?
 O terror nos olhos daquele menino acordou uma tristeza em mim. E eu secretamente desejei saber seu nome, porque estamos sempre olhando para as diferenças como um todo, um bloco sem sonhos ou vontades, uma massa sem esperança. E, de repente, com a vista tâo endurecida pelas catástrofes da nossa civilização, súbito, você começa a perceber o particular e adivinha a solidâo por trás de um par de olhos, sobre as areias vermelhas. Aí, aquela gente comum ganha uma dimensão desconcertante, tornam-se indivíduos, subitamente próximos - as donas de casa atrás dos véus, seus sonhos, seus desejos, seus filhos e a tragédia de uma infância na guerra. Cada vez mais próximos, cada vez maiores nas telas imensas das televisões. E desandamos a correr atrás do indivíduo, a descobrir o encanto do peculiar de cada um - entendendo que a poesia do mundo é plural, que há um nome, um rosto, um sonho por detrás dos véus das mulheres massacradas e um grito doloroso nas bocas abertas das crianças das nações esquecidas.
 Às vezes, volto a ser aquele menino perdido, naquela exata noite, na feira russa, não lembro o ano. São experiências que não se apagam e vão rasgando os sulcos por onde vão correr as lágrimas das nossas vidas – vistos do alto, nossos peitos marcados como um campo arado, as bocas escancaradas – todas! – gritando perguntas sem resposta. Às vezes, somos todos meninos perdidos no Pavilhão de São Cristóvão.
 O final da minha história, no Pavilhão, foi feliz - anunciaram pelos alto-falantes que havia um menino assim, assado, perdido, e meu pai me resgatou. Saí de lá exausto e adormeci no caminho de volta á Ilha, ouvindo a conversa dos adultos, no aconchego do bando. Sonhava com os meninos do mundo. Os meninos que sonham em crescer e ser homens. Os meninos que sonham coisas cada vez maiores, cada vez mais fortes, cada vez mais ricos, cada vez mais. Cada vez mais. Mais.
 A sorte é que ainda há gente no mundo que acredita na vida antes da morte. E isso, é claro, faz toda a diferença.


Um beijo de adeus

 Terminamos a temporada de “O Beijo da Mulher Aranha” no domingo – lágrimas, abraços, cada frase dita, uma sentença – o fim logo ali na frente, ao som das palmas, que vem chegando em ondas sobre as mortes das nossas personagens. Foi uma linda temporada e um elenco de harmonia tão merecida, tão desejada – um momento da existência para se lembrar com carinho, para se contar nas rodas ao redor do fogo, como nas culturas mais primitivas do planeta.
 Há um momento no teatro, que o publico nunca vê, mas que me agrada sobremaneira – é quando a cortina se fecha sobre os aplausos e o elenco e caminha para as coxias, mexendo o corpo, alongando a musculatura e mandando as personagens embora. Toda noite a cena se repete. Toda noite, caminhamos depressa para os camarins, ansiosos pela vida real que nos aguarda lá fora, na urgência de felicidade.
 No último dia, entretanto, ninguém saiu do palco, o pano não desceu, não fecharam a cortina sobre nossas despedidas. Porque é sempre assim, na derradeira hora – é nesse momento que a coisa se complica um pouco. As personagens ainda ficam por ali, alguma voz ainda vibra no urdimento e um silêncio confuso cobre os corações. O teatro vai nos ensinando a morrer, eu penso, enquanto sinto meu coração doer pela saudade anunciada. Essa vida de mentira, que tem data e hora para terminar, cujo brilho se apaga na hora certa, vai nos tornando mestres na arte do adeus.
 No fim de tudo, antes de partir para o aeroporto, parei um segundo no palco e olhei para a caixa escura, pensando nos atores que já teriam pisado naquele tablado, nos dramas encenados noite após noite, as gargalhadas e os olhos brilhando na penumbra da platéia. Como a reafirmar a minha espécie, legitimando o bando – esses nossos rituais de cheiros e lambidas, nossas cerimônias seculares.
 E foi assim que, secretamente, no caminho do aeroporto, cruzando São Paulo bordada de luzes vermelhas, eu fui dizendo adeus a Walter Avancini, que se foi, a semana passada. Não sem um aviso prévio, sabíamos que ele vinha lutando contra a doença, mas as partidas são sempre surpreendentes, como se a imortalidade estivesse à porta. Fui lembrando de seu olhar agudo, seu entendimento muito particular do universo a ser contado, a chama que ardia sob o gelo - lembranças e mais lembranças, uma bafagem soprando na cidade e nós às margens da Lagoa, pra lá do Cantagalo, eu lembro – era uma noite fresca, dessas que prometem algum olvido, alguma palavra inesperada.
 Eu suava e tentava não parecer nervoso, mas meu coração andava aos pulos, a boca seca, os olhos correndo em todas as direções. Era meu primeiro dia de gravação e, sem dúvida alguma, minha primeira grande chance. Uma cena com Tony Ramos –um dos melhores colegas e uma das melhores pessoas que conheci nesta minha passagem pelo planeta, quero registrar – mas estávamos lá, esperando os ajustes da luz, etc e tal, quando Avancini parou a meu lado, em silêncio, com um braço pousado sobre meus ombros. Depois, disse que buscava um anjo – que eu deveria iluminar aquele vilão do folhetim de Janete Clair com a graça de um anjo. Antes de voltar para seu lugar, apertou meu ombro, como a desejar felicidades e sorriu, quase encabulado do gesto.
 - Um anjo. Não se esqueça! Busque um anjo!
 Eu não esqueci. Continuo no firme propósito de buscá-lo. Ainda hoje, tantos e tantos anos após aquela noite.
 Havia um momento, na peça, que me agradava especialmente. Molina, desesperado porque Valentim está sofrendo na cela, machucado após uma sessão de tortura, invoca Aurora, a mítica estrela de seus filmes de infância, e ela aparece para aliviar a dor daquele momento. Toda noite, a silhueta de Cláudia Raia desenhava-se no fundo e eu caminhava até ela, até que nossas sombras ficassem ambas projetadas na cortina da cela, como uma estampa de teatro japonês.
 No domingo, inocentes de que aquela era a despedida, as personagens, mais uma vez, reuniram-se na solidão e na fantasia.
 - Aurora! Eu não sei até quando ele vai agüentar! O que é que torna um homem tão corajoso? – perguntei.
 Ela sorriu - pela última vez a boca cor de cereja se abrindo num sorriso e os braços estendidos para mim, um carinho se desfazendo no ar.
 - O amor, Luiz. Só o amor – respondeu, os olhos brilhando à luz dos refletores.
 E querem saber de uma coisa? Aurora sempre teve razão.
 Ali, na tela prateada dos sonhos comuns, a diva do melodrama cantava a mágica do amor e as gelatinas coloridas filtrando a luz me encheram de um agradecido conforto. Por isso, só me detive o tempo necessário para prestar minhas homenagens, dar uma rápida olhada no passado, sem sequer tentar adivinhar o futuro. Abandonei o fraque branco com que Molina mergulha em seu delírio final, entrei no chuveiro e deixei a água lavar o resto de lágrima que ainda vazava pelo ladrão.
 Pano rápido.


O salvador de estrelas

 Zilka Salaberry inclina o corpo para frente, apanha uma de minhas mãos e começa a dizer seu texto, olhando para as linhas da palma clara que eu lhe ofereço, numa cena de Bilac vê estrelas, uma adaptação do livro de Ruy Castro, para a televisão. Ela interpreta uma vidente francesa e o cenário recende a sândalo, aroma dos incensos que ardem por toda a parte. Eu escuto e vou pensando, enquanto interpreto o estrábico poeta parnasiano,que gosto muito dos velhos atores, muito mesmo - olho para eles com o amor de quem folheia o primeiro livro e a fantasia de quem descobre que dentro de um universo existe outro.
 Passei uma tarde muito agradável a seu lado, ouvindo suas histórias sobre o teatro brasileiro, as lendas do nosso palco ganhando vida em seu relato, a saudade brilhando no fundo do olho, ainda uma vez a ingênua das comédias importadas, ainda uma vez a garota que copiava os modelos de Joan Crawford nas estréias da sessão das dez. Depois, a noite estava caindo, quando ela se foi e eu troquei de roupa na solidão do camarim, pensando nas inúmeras vidas daquela mulher, ouvindo-a acariciar as palavras, ao dizer com sua voz profunda: je suis belle - e era de uma beleza notável o seu rosto marcado por tantas vidas roubadas! Saí do estúdio já noite fechada, caminhando sob as estrelas de Bilac, pensando na necessidade do registro, desejoso de que Zilka escrevesse um livro de memórias.
 Voltei para casa com essa janela aberta na alma, lembrando de atores e atrizes, essa gente curiosa e peculiar que preenche a minha existência com momentos de pura emoção. No pára-brisa do carro, desenhou-se a figura de Eva Wilma, caminhando feliz numa rua molhada, vivendo uma personagem de novela, após um encontro de amor, eu lembro. Foi a primeira vez que dirigi uma cena na televisão e eu fiquei feliz com o resultado. Uma cena à toa, perdida no meio de tantas, mas foi a primeira, foi o batismo e entendi que ali estava mais uma possibilidade, mais um caminho - olhando para Eva Wilma que pisava no asfalto molhado, suas pernas refletidas nas poças, seu cabelo louro voando à brisa da noite. É assim que me lembrarei dela, sempre.
 Fui revê-la, esta semana, na peça de Flávio Marinho Um dia das Mães e, enquanto ela caminhava pelo palco, vivendo uma mãe cheia de dificuldades com o próprio afeto, eu ia lembrando daquele momento cheio de mágica, porque é sempre um grande prazer assistir a uma atriz como ela, jogando as palavras para o alto e nos roubando o coração, como o mágico do circo de então.Vendo Eva no palco, eu quis bem a outros tantos atores e atrizes que vem cruzando a estrada, estendendo a mão e a palavra, para que a jornada seja mais alegre e para que o coração descubra sua música.
 Renovado o orgulho pela profissão, à noite, antes de dormir, raspei um pouco do Olavo Bilac que ainda andava por perto, uma postura ereta, o frágil equilíbrio do pince nez e uma prosódia de elegância e correção.
 Sentei-me para ler minhas mensagens e, ali, encontrei a história que dá título à crônica de hoje. Não sou chegado a livros de auto-ajuda, não gosto de tótens e mantras e correntes. Mas depois que li a fábula sobre o salvador de estrelas, senti vontade de dividí-la com vocês, portanto escolhi as minhas melhores palavras para a narrativa, já que o autor preferiu o anonimato na rede:
 Segundo a lenda, um menino apanhava estrelas-do- mar na areia da praia e as atirava de volta à água, o mais longe que a força de seu pequeno braço lhe permitia. Uma após a outra, ele avançava pela faixa amarelada, o sol da manhã dourando tudo, devolvendo ao mar, as estrelas de direito.
 Um homem que passava indagou-lhe sobre o propósito de seu gesto.
 -Elas vieram com a maré alta e não foram rápidas o bastante para voltar. Quando o sol esquentar, vão morrer presas na areia. - o menino disse, apanhando mais uma estrela.
  O homem, então, argumentou que havia centenas de estrelas do mar presas naquela praia e milhares de outras que terminavam seus dias assim, na esperança do suspiro de qualquer onda afoita, que as arrastasse de volta ao mundo submarino. O trabalho do menino não seria capaz de mudar aquele quadro.
 - Eu não quero desapontá-lo, mas não vai fazer nenhuma diferença. – o homem disse, enquanto o menino soprava a areia do corpo da estrela que tinha nas mãos.
 O menino então devolveu-a ao mar, olhou para o homem e sorriu:
 - Para essa, eu fiz a diferença - ele respondeu, enquanto a estrela afundava no mar brilhante da manhã.
 - Para essa, eu fiz a diferença.