A media luz

 Minha avó costumava escrever nas portas, nos momentos de grande aflição. Rabiscava com lápis, a oração do anjo, esperando a manifestação emplumada da graça, mantendo à distância o olhar daquilo que pudesse perturbar a paz que ela demorara tanto a encontrar. Com a mão ainda firme, ela empunhava o toco de lápis e iniciava a obra, na madeira pintada de tinta clara: santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se Deus a ti me confiou, sempre me rege, guarde, governe e ilumine. Assim fazia, nas portas que davam para a rua, nas portas que se abriam para acolher o bando, as mesmas portas que um dia se abririam para a partida da gente daquele sobrado. Por um curto período de tempo, manteve assim a ilusão de que aprisionara o tempo em sua redoma familiar - as crianças ainda pequenas, ao alcance da mão.
  Lembro, particularmente, quando começaram a interrogar os professores da Faculdade de Filosofia, porque tinham sido acusados de manter uma célula comunista, na universidade, ali na Presidente Antônio Carlos. Minha mãe foi chamada para interrogatório e, na ditadura militar, isso era o pior que poderia acontecer. A lembrança da noite quente e assustada, o tio coronel consultado no meio da madrugada: mamãe corria perigo, era bom não ter nenhum tipo de literatura comprometedora em casa, podiam revistar a casa dos suspeitos e ela tinha escrito sua tese sobre Sartre que, como todo mundo sabia, era vermelho. Aquilo foi um pandemônio - livros queimados no quintal da casa, meu pai com ar de perplexidade, meio desesperado e vovó escrevendo pelas portas, enquanto os gatos lambiam-se ao sol pálido daquele inverno que ficou para trás, mas que deixou marcas muito profundas no menino e na nação que desmoronava sob seus pés.
  Em Berlim, na loja da Gucci: os dois casais falam russo. Riem alto, exibem correntes e correntes de ouro e as mulheres, ambas muito bonitas, com a ossatura eslava e olhos transparentes, usam casacos de peles até os pés. Os homens são morenos e tiram maços e mais maços de dinheiro dos bolsos dos casacos, como mágicos que nos enganam com as mãos. Os vendedores olham para o alto, resignados. Eles compram muito, com uma rapidez surpreendente e vão-se embora, enquanto a alemã magra, encosta a porta de vidro.
 - Russos - ela diz para mim, com um ar de desprezo. – Agora, eles estão por toda parte.
 Santo anjo do Senhor, meu zeloso guardador, eu me flagro orando tão baixo, que as palavras escapolem da minha boca e, por causa do frio que começou a chegar, transformam-se em fumaça, mal pronunciadas. Na penumbra em que o apartamento está mergulhado, um ou outro raio de luz encontra a sua janela e vem pousar no chão, iluminando minha memória, como um filme imaginado. A superfície clara do piso de madeira imita a lua e é por ali, por entre as ilhas de luz azul, que minha avó caminha, liberta das amarras da memória, empunhando o seu toco de lápis, rabiscando suas orações nas portas trancadas.
  E russos por toda parte, nos Champs de Mars, em Paris. O rapaz do restaurante faz questão de não entender o pedido e a mesa toda gesticula irritada. O chefe do grupo, um homem grande, com vários dentes de ouro brilhando na boca, faz cara feia e enfrenta o mau humor do garçom parisiense, exigindo que ele anote tudo outra vez.
 - Esses russos… – o garçom diz, quando vem me servir, pousando o copo d’água sobre a mesa. – Estão por toda parte, agora.
 Minha mãe sobreviveu ao interrogatório sem grandes danos, voltou para casa e minha avó apagou a oração com uma borracha escolar, apanhada no estojo de algum dos meninos. A vida continuou seu curso, naquele sobrado e, de certa forma, continua numa dimensão paralela - segue o seu destino imutável de lembrança, uma fotografia encharcada de um sol eterno. As cinzas da literatura violentada adubaram aquele quintal de goiabas e sapotis, os filhos foram mandados para a escola e o tempo roeu o início da história, mas sabe-se que, desde sempre, a avó escrevia suas orações nas portas.
 De repente, começa a fazer muito frio no apartamento, que é todo de concreto e vira um bloco gelado, no inverno paulista. Minha empregada comprou um aquecedor de resistência, mas um amigo me disse que aquilo gasta mais energia do que ferro de passar roupa e desisto, temeroso das trevas. Fico encolhido na cama, esperando o sono chegar, afugentando a imagem de minha avó, arrastando as chinelas pela madeira enluarada. Antes de dormir, como num livro:
 …naquela região desconhecida, antes do sono profundo, ele caminhou até a grande fogueira, no centro do quintal, e olhou para as páginas que ardiam. Dramas de imaginação fértil, paixões desesperadas e um amor de ilusão subiam com a fumaça, ao som das cordas russas.
 Olhando para o fogo e para o rosto anuviado do pai, o mundo lhe pareceu uma ficção científica, um daqueles filmes em que a ameaça paira no ar todo o tempo. Por isso saiu correndo dali, o mais rápido possível, até que sob seus pés só houvesse gelo e um céu de estrelas na noite branca. Uma fantasia de trenós e neves eternas. Além de por toda parte.
 Essa foi a lembrança, logo antes de dormir.


Paisagem romântica

  John lavava os cavalos, com o resto da família, numa pequena fazenda no interior da Inglaterra, não muito distante de Londres. Essa era a idéia de um domingo feliz, como um esboço: escovas e baldes, cerveja e piadas familiares. Eu lembro: sentei-me numa cerca e me sentia entediado. Pensei mesmo em ir-me embora, seguir a estrada que serpenteava logo lá na frente, até encontrar uma condução para a cidade, mas acabei ficando por causa do verde - que era de tons e brilhos impressionantes, como se aprisonados na alma de uma esmeralda perfeita. Foi por isso que acabei ficando. Por causa do verde. Como numa viagem lisérgica, a natureza do campo inglês me engoliu naquela manhã de domingo e, junto com todo aquele verde, enquanto os cavalos eram lavados e escovados, vieram sonetos, poetas românticos e narcisos balançando suas cabeças amarelas à brisa do passado.
  Essa fotografia voltou de repente, na saída do teatro, correndo para apanhar a última ponte aérea, de volta ao Rio. No carro, eu contei para Tuca Andrada que John lavava os cavalos etc e tal e lembrei, com indisfarçável tristeza, de que não tinha guardado nenhum registro daquela manhã - não há sequer uma foto desse rapaz sentado numa cerca. Nenhum documento de todo aquele verde, só porque não sou de guardar papéis, não tenho arquivos pessoais de fotografias, não é assim que revisito os meus passados – volto a eles pela palavra e pela imaginação e saio pintando outros quadros, se possível.
  Mas como desejei recuperar essa imagem do verde daquele dia, sentado na cerca, enquanto John lavava os cavalos! O movimento da escova afundando no balde fumegante, as gargalhadas felizes do reencontro, amigos e cerveja. Uma única manhã no meio de tantas. Uma fotografia que eu desejaria ter tirado.
  Muita gente me escreveu corrigindo a prece do anjo: se a ti me confiou a piedade divina é um lindo verso, que eu não deveria ter esquecido, mas acabei esquecendo. E , a respeito da última crônica, sobre a prece rabiscada na madeira por minha avó, perguntam-me que costume é esse de escrever nas portas? Sei lá, nunca me dei ao trabalho de pesquisar. Vai ver era um costume que ela mesma inventou, depois de tantos anos de uma vida conquistada passo a passo. Uma luta constante pela sobrevivência, a piedade divina por vezes olhou para o outro lado. Discretamente, fingiu não ter percebido o sofrimento tão vizinho, como nós aprendemos a fazer nos sinais, nas ruas, nas esquinas. Mas, enfim, acho que talvez ela mesma tenha inventado o sortilégio, porque de quando em vez a gente inventa uns costumes. Vai ver foi isso.
  De qualquer maneira, as fotografias que minha avó reservou em sua caixa de guardados foram todas bem diferentes daquela minha foto de John lavando os cavalos. Ah! sim, houve alguma névoa num determinado momento, alguma nuvem errante, com certeza, descendo dos céus e vagando bêbada pela terra. Quero pintar o retrato com a maior fidelidade possível, com detalhes e minúcias.
  Eu deveria ter guardado mais fotografias daquilo tudo o que já vivi! Deveria ter guardado as cartas de amor, deveria ter copiado, num grosso caderno, os pensamentos e emoções de cada dia!
  - Mas não fiz nada disso. – eu dizia para Tuca, enquanto ele avançava rumo ao aeroporto, com os olhos escuros olhando para o amanhã.
  Não guardei um sorriso aprisonado em papel brilhante. Um sorriso recebido há já algum tempo, agora, deve ser recriado com as melhores palavras, porque outro documento não há. Talvez por isso essa angústia em preservar a imagem de John lavando os cavalos, naquela manhã de domingo: o cabelo lhe caía pela testa e ele afastava a mecha com um gesto aborrecido. A irmã, muito loura, usava botas até os joelhos e ria enquanto se espichava para esfregar o dorso avermelhado do animal.
  Eu sentei na cerca e, subitamente, tive uma lembrança do futuro. De alguma forma, eu soube, naquele instante, que olharia de volta para essa cena, que lembraria da cor, do verde que era uma esmeralda e que, então, o ciclo se fecharia e a imagem seria gravada para sempre. Acho que todos nós, em algum momento da existência, tivemos uma lembrança do futuro. A gente esquece, mas é uma experiência que todo mundo tem, uma vez que seja.
  John continua um de meus melhores amigos, abandonou os cavalos do campo inglês e vive numa praia no litoral de Alagoas. Espero que rodeado de fotografias. Uma, em especial, eu gostaria de ver: dali, de onde ele estava, John, antes de tirar a foto, deve ter enquadrado um rapaz magro, louro, sentado na cerca, olhar entediado e um peito estufado de esperança, recortado sobre um fundo verde, brilhante. Uma suéter de gola alta, lembro até da sensação da lã sobre o corpo. Espero que ele tenha esse instantâneo.
  Às vezes um álbum de fotografia pode nos reconciliar com algum momento, eu pensava, quando Tuca sorriu e fez a curva do aeroporto. Sorriu porque lembrou de uma fotografia amável de sua existência, com certeza. E eu sorri de volta, porque soube, então, que a crônica ia ser sobre aquela minha idéia de paisagem romântica: John lavando os cavalos, naquela manhã de domingo, em algum lugar do campo inglês.


Um postal do Iêmem

 Quando anoitece - tum tum tum batem os pés dos dançarinos da catira, no tablado de madeira, no ensaio geral do show de Leonardo. A fila de homens magros ondula e as botinas surram sem piedade o soalho, acompanhando o ritmo das palmas, as mãos duras de trabalho e sofrimento vibrando um som primeiro. Essa é uma celebração, eu penso, e assisto com a reverência e felicidade dos que encontram a verdade nos rituais. Nesse momento, há uma fila de pés, uma profusão de mãos e um soalho de madeira – é o bastante para se fazer ouvir e o suficiente para alegrar os deuses, desde sempre.
 Sentado no fundo da casa de espetáculos, mergulhado na penumbra, eu observo as luzes que piscam, os rostos que ora se iluminam, ora afundam na escuridão e tum tum tum se alinham os corações para a hora mágica da abertura das cortinas - o momento em que se está suspenso no ar, à espera da terra sob seus pés, seu domínio, seu planeta.
 A catira evolui e, junto com ela, vem um universo de casas soltas no meio do nada, aquelas que sempre ficam para trás, na janela do carro em disparada. Os bailarinos da catira são aqueles meninos que brotam da terra, na tal visão do retrovisor, quando você passa voando pela estrada. Aquele rosto machucado, aquelas pernas finas, vermelhas de barro e poeira que ainda ensaiam uma corrida, mas desistem, engolidas pela nuvem de pó. Na batida dos pés, nas palmas das mãos, nos campos de Minas e Goiás, nos céus do Mato-Grosso e no horizonte profundo de São Paulo, os homens dançam, celebrando esse encontro ancestral de pés e solos.
 é nesse compasso, nesses rostos devastados pelos sóis de tanta enxada, que uma outra história vai-se desenhando – uma nação desconhecida vai surgindo na frente dos meus olhos, como sempre acontece num país de contrastes tão violentos. Estamos constantemente nos surpreendendo com nossa própria história, sempre investindo em alguma ilusão passageira, que certamente vai-se desfazer em neblina - eu penso - e tento bater os pés com a mesma elegância e ritmo mas não consigo e acabo pulando frenético, atabalhoado, como quem deseja acordar o coração da terra, fazendo um estardalhaço.
 Gringo Cardia corre lá na frente, perto do palco, um chapéu enfiado na cabeça, aqueles olhos que estão sempre sorrindo, olhando de um jeito muito próprio para esse vasto mundo de Deus. Gosto dele. Gosto daquele ar de menino que está sempre inventando, gosto da humanidade com que ele é moderno e de sua capacidade de criar um belo campo de flores a partir da toalha de mesa do restaurante da esquina - flores inusitadas e surpreendentes. Flores do mundo.
 Agora, de onde estou, sentado no fundo do salão principal, eu o vejo subir no palco e comandar a descida de enormes varetas prateadas que se cruzam desordenadamente, como naquele jogo da infância - as varetas retiradas uma a uma, com perícia. No palco imenso, Gringo tem aquele olhar que vai além, uma vontade de abraçar o mundo todo e não permitir que ele corra por entre os dedos, areia de ampulheta, tempo, minuto e tum tum tum batem os pés na fila da catira, enquanto as meninas coreanas pulam no vídeo, cabelos coloridos e piercings nas sombrancelhas. Retalhos de civilizações, arqueologia urbana, alguma coisa por aí. É nisso que estamos interessados, não é verdade? Todos nós. Não fazemos outra coisa, neste curto período de existência, a não ser desenterrar corações, vítimas das avalanches cotidianas. Arqueólogos dos próprios domínios, aparvalhados com as descobertas, emocionados com a força daquele amor que sobreviveu à catástrofe, soterrado por tanto tempo.
 Tum tum tum continuo a ouvir, mesmo depois da catira ter saído de cena e os lenços vermelhos nos pescoços dos catireros ser uma imagem que pintarei com palavras. Gringo me acena do palco e, como um mágico que me engana com as mãos, faz um gesto e as meninas voam içadas pelos cabos de aço e seus vestidos de cauda longa, vermelhos e laranjas, sobem aos céus, como velas enfunadas de vento.
 E bem mais tarde, quando me sento para escrever, quando volto a marcar o tempo dos pés na catira, o sorriso dele aparece voando no quarto e vou lembrando de outros trabalhos que fizemos juntos – daí a crônica ter dado esta guinada na direção dele – aquele Gringo tão cheio de Brasil no seu universo, tão pleno das coisas deste mundo, ele o arqueólogo chefe da nossa jornada.
 Uma vez, já faz algum tempo, ele tirou férias e foi para o Iêmen, atrás de uma cidade muito antiga, perdida no meio do deserto, moldada a partir da terra vermelha, toda ela só quase um relevo. Havia um postal deste lugar, lembro da imagem. O fato é que hoje, vendo ele ali, no palco, senti uma ternura tão grande pelo seu talento e pela sua busca, que resolvi dizê-lo em voz alta, imaginando que a seu redor, naquela cidade ancestral, bailavam todos os meninos da terra, de pernas compridas, vermelhas de barro e poeira, batendo os pés no solo, como numa celebração.
 Ele, sem dúvida, discretamente agradeceria.


Primeiras lições

 Em resposta à leitora que me pergunta quando foi que descobri que gostava de escrever, digo não sei, não lembro, não consigo precisar em que momento comecei a atirar palavras para o alto, na esperança de que elas caíssem no lugar certo, invejoso da precisão de Truman Capote que se autodenominava, com toda razão, um Paganini semântico. Não sei quando, não sei o porquê, mas um dia entendi que as minhas férias da redação escolar podiam ser mais coloridas, mais engraçadas, que o olhar para o monte podia ir além e subir, subir, até que não houvesse mais terra sob os pés e alçasse alturas, olhando para o mundo lá embaixo - enfim o pássaro que povoava os sonhos das nossas adolescências tristes, à margem de tudo, numa garagem escura, bebendo cuba-libre - a garrafa de rum tinha sido contrabandeada para a festa, sem o consentimento dos pais. Adamo cantava F…Comme Femme, as espinhas brotavam no rosto e magoavam a pele e magoavam os jovens corações e algumas mães zelosas, à beira da histeria suburbana, quebravam os compactos simples de Jane Birkin gemendo em Je t’aime…moi non plus. Era assim que acontecia e o mundo caminhava lá fora, para além do nosso cercado.
 Talvez eu tenha aprendido a gostar de escrever para fugir daquilo tudo, para aliviar o medo que eu sentia, a solidão que era imensa e que parecia aumentar com o correr do tempo. Talvez por isso, não sei. Talvez para não abandonar meus sonhos, já que eu via sonhos atirados pelos cantos, em toda a parte, na minha infância. Mas eu tenho a impressão de que comecei a escrever para aprisionar a idéia de reinventar a vida, porque no fundo é isso que fazemos, escrevendo ou não. Reinventamos as próprias histórias com um despudor inacreditável. Metodicamente, cada um de nós.
 Portanto, não posso responder a sua pergunta, mas curiosamente, lembro de outras lições, por exemplo o dia em que tive a consciência de que era capaz de inflingir dor. Muito pequeno ainda, brincando na areia da praia que ficava logo ali na frente, naquele universo de manhãs brilhantes que foi a Ilha do meu início. Um pequeno caranguejo que eu atormentei com uma vareta, até que arranquei uma de suas patas. O bicho espumava, na posição de ataque, sem a garra, entretanto, como um soldado ferido. Eu me senti muito mal, naquele instante. Tão forte foi o sentimento que nunca esqueci aquela manhã, quando os meus olhos se abriram para o mundo que me rodeava. Lembro disso e não consigo atinar com o momento em que resolvi escrever, para você ver como são as coisas, minha cara leitora.
 Pois essa foi uma de minhas primeiras lições. E, uma vez aberta a janela, uma vez repetido o convite, outras vieram, voando em bando pela mata. De meu primeiro encantamento, logo lembrei, já que volto a ele, vez ou outra: no lago que havia no fundo do quintal, numa outra manhã solitária, eu vi um inseto, uma lavadeira de asas transparentes emergir das profundezas. Ninfa – pousada na superfície, recebendo as graças do dia. Lembro do cheiro daquela manhã, das minhas pernas magras e machucadas. Depois, ela levantou vôo e desapareceu, misturando-se ao ar. E eu fiquei ali, no alumbramento do instante, uma coisa tão banal que eu transformei em mágica e guardei como estampa no fundo dos meus olhos. Lembro perfeitamente desse dia, mas não consigo lembrar quando foi que começou a festa das palavras. Disso, não me lembro.
 Lembro das primeiras lições de perda, de tanto amor que foi-se embora sem aviso prévio, das noites com o coração sufocado, apertado no torniquete. Lembro que era verão e eu dormia com a porta aberta para o terraço e acordava com a chegada da aurora, a de dedos róseos, sobre a cidade. Acordava e o coração não se mexia, magoado. E eu pedia secretamente para que aquilo fosse embora, eu rezava para acordar e descobrir que tinha passado, mas não passava. Até que um dia eu esqueci e consegui olhar através. Talvez por isso, para lembrar da dor e não mais me assustar com ela, eu escreva cada um dos sentimentos. Para não permitir mais que a vida me escape sem registro. Talvez. O fato é que lembro de cada dia daquele período, mas não consigo precisar o dia em que os sentimentos se transformaram em palavras. Não consigo descobrir quando foi que resolvi contar outra vez a história.
 E lembro da chegada do teatro, como um desfile do circo pela rua principal. Um soldado numa peça escolar. Entrava mudo e saía calado, mas que alegria em respirar o ar do auditório, que beleza na luz que buscava espiar o ensaio pelas persianas fechadas naqueles fins de tarde. É claro que me lembro disso. Não poderia esquecer nem que eu quisesse, porque depois que reconhecemos o amor e o chamamos pelo nome, ele se torna parte de nós. Lembro do coração batendo acelerado, dos figurinos improvisados, da gritaria no dia do espetáculo. De tudo, eu lembro, mas não me pergunte quando foi que resolvi contar esses segredos, lembrar dessas primeiras lições que a vida vai nos oferecendo. Desse assunto, eu nada sei.
 Talvez eu tenha rabiscado algum sentimento, no final das contas, porque pertenço àquele bando de nostálgicos, os que já nasceram com a saudade na alma. Talvez por isso. Não sei ao certo.
 Mas lembro da luz. Lembro do clarão. E agradeço por conhecer o caminho de volta.


Atrás da cortina

 Há um determinado momento do segundo ato de O Beijo da Mulher Aranha em que fico atrás de uma cortina, sentado num banquinho, à espera do fim da canção principal do revolucionário que Tuca Andrada interpreta com paixão. Fico ali, noite após noite, com o mesmo campo de visão, a mesma sonoridade invadindo os ouvidos, as mesmas luzes e sombras. Os olhos tentam alcançar outros horizontes, mas é sempre o mesmo sinal luminoso, o mesmo alerta vermelho de emergência que tinge a escuridão da coxia, as mesmas silhuetas nos bastidores, as mesmas velas brilhando nas mãos dos atores/personagens que lutam por um futuro melhor, na cena e fora dela. Todos se movimentam, enquanto eu aguardo, imóvel, atrás da cortina, como o menino que busca o esconderijo embaixo da escada ou como qualquer animal que busca sua toca. É a hora em que entendo a fala de meu personagem, aconselhando o outro a pensar na mulher que ama, para aplacar o desespero da clausura indesejada: tente pensar nela! Ajuda! – eu digo com alguma piedade por aquela jovem alma de fogo, incitando à fantasia e ao delírio. Mas penso, também, ali, atrás daquela cortina, que não ajuda não. Que o pensamento constantemente voltado para alguém que está longe, só faz aumentar a ferida, como um machucado que nunca sara.
 Atrás da cortina pintada com um cartão postal carioca, estou sempre colocando as coisas em ordem, pensando nos rumos que quero dar a minha vida, nos meus descaminhos, nos meus acertos, nos meus erros, na minha voracidade e no meu medo de parar e perceber que a ilusão é ainda maior do que suponho. Aguardo o fim da canção de Tuca com a respiração fraca, um animal numa posição extremamente frágil, eu penso, sempre com a cabeça mergulhada em pensamentos, o alerta abandonado na parede, incendiando o ar com a luz vermelha.
 Esta noite, em especial, estou sentindo frio. A camiseta decotada do Molina que represento não combina com a chegada do inverno paulista e eu mexo as pernas, para que o sangue circule mais rapidamente. Cláudia Raia segura uma piteira, sobre minha cabeça, no cartaz de cena, travestida de Aurora e meus músculos endurecem com o frio que invade as coxias. Quando o maxilar se contrai, quando a pele do braço enruga com o sopro do inverno, chegam as lembranças do gelo, aquela sucessão de imagens claras e noites brancas, como fotografias:
  “il neige, il neige!” – o menino grita na saída do metrô, em Paris. Uma época em que eu tinha crises de pânico e não sabia o que era. Achava que estava com alguma doença terrível e secretamente amava meu destino trágico de romântico. O futuro era de uma incerteza apavorante, a Europa não era meu lar e eu andava pelas ruas engolindo mais ar do que o necessário. O coração descompassado parecia que ia pular do peito e Paris se apresentava sempre tão bela, cheirando a lavanda e manteiga, nas manhãs de outono. Eu engolia ar demais e nunca parecia ser o bastante. Engraçado as coisas que a gente é capaz de pensar, atrás da cortina.
 Um dia fui levado por uma amiga até um velho vietnamita que me disse algumas coisas bem interessantes, lá para as bandas de Alésia. E este homem de cabelos brancos teve a sensibilidade de entender que eu não seria feliz em nenhum outro lugar e disse que eu deveria voltar logo, até antes do que o previsto. Aproveitei a deixa, enchi meu coração de esperança e obedeci. E acabei curado por Doris Day, lendo seu livro. Ela tinha os mesmos sintomas e quando ameaçava ter uma crise respirava dentro de um saco de papel para repor gás carbônico. Já faz muito tempo. Acho que foi o frio que me trouxe essa imagem esmaecida do passado.
 Outras imagens: imagino os meninos nos sinais, jogando suas bolas para o alto e o pensamento altera minha respiração. Uma nuvem gelada passa por ele, doendo o peito. Os meninos com frio na noite de São Paulo, cada vez está mais frio - a madrugada chega a ser transparente. Os meninos que atiram suas bolas para o alto, os malabaristas de braços finos e azulados no começo do inverno. Mais cedo ou mais tarde, vamos sentindo raiva deles, porque sua magreza, sua tristeza, seu desasmparo nos incomodam e é tão mais fácil simplesmente não olhar para o lado, não é? Lembro das crianças, imóvel, atrás da cortina, contraindo o corpo, os braços e o coração.
 Tuca está terminando a canção, junto com o resto do elenco. Todos entoam as notas finais e a platéia aplaude calorosamente. O dever me chama. Respiro fundo e afasto, contrariado, a lembrança de Evandro Carlos de Andrade que veio pousar em meu coração, na hora de voltar à cena. Partiu dele o convite para que eu escrevesse aqui n’ O Globo. Ele foi cúmplice deste nosso coração urbano e eu gostaria muito de que vocês enviassem um pensamento de carinho. Atirem para o alto, não se preocupem – o afeto vai encontrar o destinatário.
 Depois, como já não há mais tempo para pensar em nada, estendo a mão e abro a cortina de um só golpe, sentindo a vibração dos aplausos que morrem na platéia.
 O resto é personagem.


Paixões tropicais

 Eu começo com Carmens, entre elas a Miranda e, entre as Mirandas, a Stella que é minha amiga e que tem me feito feliz brilhando no palco, luminosa por inteiro. Essa Carmen revisitada é quem anda rondando o meu tempo, meu coração e meu sonho. Às vezes, as coisas vão naturalmente para o lugar certo. Às vezes. Como os camaleões que corriam para ouvir a música de um piano, naquele livro do Truman Capote. Se não me engano era isso – eles amavam a música e vinham de todos os lados prestigiar o concerto. Encarapitados nas pedras do jardim, No Caribe, se não me falha a memória, espichando os pescoços, deliciados com a música, naturalmente no lugar certo. Sempre adorei esta imagem e a visito com frequência nos momentos de alegria.
 Enfim uma semana de grandes emoções, uma fileira de dias cheios de uma vida apaixonada, uma comunhão de almas e talentos e uma alegria tão nossa, tão compartida e tão generosa que fui para São Paulo com o sorriso de Carmen na bagagem, o olhar largado atrás, o olhar de quem vai querendo ficar. Levei-a comigo, aconchegada lá dentro, no fim de uma tarde luminosa, que era um desses preciosos momentos de placidez – e fui pelo caminho, na direção do Santos Dumont, a comer umas geléias de frutas inglesas que Soraya Ravenle me deu de presente. Lá fui eu com os confeitos, secretamente agradecendo a ela pelo talento e pela guloseima, como um amigo de Camila de Fleurville, comendo rebuçados pelo atalho. Cada uma que rebentava no céu da boca trazia junto um pomar, uma fragância, uma evocação de turbantes e frutas, como um imenso desenho no azul da enseada de Botafogo.
 Carmens e frutas. As pitangas pisadas murchando no solo, as que brilhavam no pé, salpicando de vermelho uma fatia do céu. Quando vinha uma febre muito alta, o chá era da folha da pitangueira, uma bebida perfumada, fervendo goela abaixo, a mão ainda firme da avó, empunhando a xícara de louça branca. Essa é uma lembrança que dividimos quase todos nós: os olhos amorosos e profundos das avós pousados sobre nossas frontes, nas inúmeras convalescenças.
 Mas eu falava das pitangas, vizinhas da goiabeira, que estendia seus galhos até as ramas da sapota. E que festa faziam os morcegos, inebriados pelo mel dos frutos! As geléias de Soraya vão me afetando o estilo, inclusive, eu penso, aprumando o corpo e tentando interpretar um personagem de Edith Wharton, sentado à mesa do chá, sanduíches de pepino, Oscar Wilde, Bernard Shaw e as tardes no prédio da avenida Chile, na Faculdade de Letras. As geléias de Soraya operam a mágica no caminho do aeroporto e novamente lembro daquele verde do campo inglês de que falei outro dia, ainda que a minha sociedade tenha sido tão diferente, vizinha do mar, a pele sempre salgada, uma mancha amarela em cada manhã.
 Às frutas deste turbante que eu vou pintando nas nuvens, quando o avião decola, juntam-se as carambolas do quintal de minha avó, e o mundo escuro e misterioso da carne roxa do jamelão que nós comíamos encarapitados na árvore, lá no fundo do terreno, as línguas encharcadas de corante violeta. E pipas no céu pintado do subúrbio, sempre. Rabiolas congeladas no ar, os braços dos meninos parados no meio do gesto, a linha retesada na manobra e as rabiolas ondulando - serpentes emplumadas no horizonte da Leopoldina.
 Lembranças felizes, instântaneos que o coração exalta. Os últimos ensaios e a estréia do musical produziram tanta adrenalina e tanto arranco de choro e tanta felicidade multiplicada, que os dias se encheram de lembranças escolhidas. Quando a gente está feliz, pleno de realizações, é hora de abrir as gavetas todas do cérebro, escancarar as janelas e deixar que a festa dos sentidos cuide do resto. Pois logo me chegou o aroma da água de colônia que as tias passavam no regaço, nas tardes varridas pelo vento soprado do mar, as mulheres tentando aprisionar os cabelos nas mãos. E era um sal perfumado o gosto delas, uma pele que rescendia a iodo e lavanda, vozes um pouco estridentes e vestidos estampados, saídas de alguma película em technicolor. Flores e flores nos tecidos, verdes e azuis nas paredes, laranjas e violetas nos céus do crepúsculo. Essa paleta de cores de que fui formado voltou nítida com o sorriso de Carmen, aquele que levei comigo para a terra da garoa, eternizado numa tatuagem que fiz nas profundezas do peito, lá pros lados da morada do coração, essas marcas que fazemos para lembrar do caminho de volta, quem sabe.
 Foi, portanto, uma semana feliz, uma semana vivida em plenitude, soprados todos nós pelo gênio da pequena notável e pelo carinho mútuo dos companheiros de empreitada. E, se alguma mágoa houve, acabou dissolvida nos abraços e afetos e desapareceu abafada pelas vozes de respeito que se fizeram ouvir para botar ordem na baderna e mostrar que ainda existe um pensamento crítico digno nestas bandas, que transcende as vaidades pessoais.
 Porque de qualquer forma vamos seguir em frente, não vamos? Descobrindo qualquer outra esperança, qualquer sonho que venha bater a nossa porta. É mais forte do que nós. É a razão de tudo. Trabalho e paixão. Perpetuação. Genes e palavras. Porque talento, eu ando convencido, é filho do instinto com o trabalho e irmão dileto do desejo. E por hoje é só.


Madalenas

 Estamos sempre tecendo tramas com vidas e palavras. É isto o que nos faz ir em frente. Os enredos de existências que vamos inventando para nós mesmos e para os outros que, por sua vez, desandam a tecer outras tramas e descobrem outros padrões. Assim temos caminhado e assim continuaremos a caminhar, até que o sol mostre sinais de cansaço e as geleiras invadam tudo. Então, vai ser uma noite azulada. E uma poeira cósmica formada das bilhões e bilhões de lembranças do amor. Em todas as suas formas, em todas as suas verdades e mentiras - jatos de energia azulando o infinito.
 As coisas não são do jeito que são e sim como as recordamos. Isso é de Valle Inclan e é uma verdade universal. E só por isso, estamos sempre abandonando a realidade e buscando refúgio no passado - para que as coisas possam ainda ser do jeito como são lembradas, para que um sorriso que se foi ilumine outra vez a noite do Baixo Leblon, eu penso, enquanto um cão de olhos amarelos resmunga perto de meus pés, na calçada amarelada pelo sol tímido de inverno.
 E para isso exercitam-se as mentes e aguçam-se os cérebros, para que percebam e capturem qualquer brilho, qualquer aroma, qualquer sabor que nos remeta para lá – para o quintal enluarado da nossa felicidade de então. Porque tristeza é esquecer o som do riso de alguém que amamos um dia e não se dar conta disso. O resto a gente vai driblando.
 A minha madalena da semana, aquela memória que se desenrola na frente de meus olhos, como uma serpentina desabrochando em câmera lenta, que infla e transforma e surpreende, apesar de tudo, é uma reincidência de carambolas, desta vez cortadas como estrelas sobre o fundo escuro de chocolate - estrelas douradas como um ornato do bolo de queijo, que só foi pedido porque um sol tímido de inverno banhava a calçada no domingo frio de São Paulo e um raio mais afoito varou a taça de vinho e jorrou uma luz intensa e, de repente, havia uma jóia sobre a mesa. Nós admiramos aquele encontro de luz e matéria e ficamos felizes e alegres e acabamos pedindo a sobremesa e, junto com ela, boiando na calda adocicada, vieram as estrelas do meu céu particular, as estrelas pintadas sobre o céu imóvel e incendiado da minha lembrança, sobre a porcelana branca.
 O açúcar raspando o céu da boca e as carambolas douradas do quintal de minha avó sobrevivendo através de seus descendentes no restaurante paulistano, já no fim da refeição. A minha madalena da semana, esses astros cortados à faca, com a habilidade de um chefe de cozinha. Elas bastaram para me afastar dali, como nos roteiros que vem me acompanhando vida afora e que dizem, ao fim de cada cena - corta para/
 …há um homem, parado na frente do terreno, as grades verdes e o portão de ferro mantidos intactos, um sinal de que houve uma casa ali. O homem sou eu, olhando para uma paisagem desolada, onde outrora houve parte de minha infância, na casa da avó, em São Cristóvão. Um vestígio de fundação é tudo o que o sobrou da imponente casa dos avós paternos, onde aquele bando se reunia. Uma casa esparramada pelo chão, o soalho fazendo barulho sob os pés de menino. Eu aperto a face de encontro à grade, a mera repetição de um gesto, como se tentasse passar a cabeça pelo vão. Aperto até sentir uma dormência nos lados da cabeça, o sangue nas têmporas. E tento redesenhar a estrutura no ar, fico ali arquitetando a minha história, no alto da ladeira.
 Não pretendi dar de cara com aquele quadro. Fui dar uma entrevista ali perto, pedi ao motorista que parasse um instantinho só, para eu olhar ainda uma vez a casa de minha avó e, quando abri os olhos, ela tinha desaparecido. Mais acima, no morro do Tuiuti, não havia sequer uma pipa no céu, para coroar essa minha despedida. Silêncio no fim da tarde. Eu olhei por entre as grades para aquele pedaço de chão que abrigou tanto afeto e tanto sonho e pude ouvir, muito ao longe, o alarido daquela gente se amontoando para a tradicional fotografia – tantos e tantos nos degraus da varanda, um retrato amarelado que eu já não tenho mais. Perdeu-se numa das mudanças, esquecido em alguma gaveta. Eu deveria ter guardado aquele instantâneo com mais cuidado. Depois, entrei no carro e respirei aliviado quando o motorista acelerou ladeira abaixo, afastando-se dali. Corta para/
 Volto a São Paulo e à mesa da calçada e ao vinho que já não brilha, mergulhado numa sombra que avança pouco a pouco. Volto e aperto os solhos buscando o foco, afastando outras imagens, tentando entender o que dizem a minha volta.
 - Estava pensando no que vou escrever na crônica. – eu digo. – Madalenas.  - Todo mundo já escreveu sobre elas. – a mulher de cabelos lisos e olhos claros avança o corpo e uma fragância perfeita me envolve. Ela pára o gesto no ar e me olha nos olhos, inquieta. – Estamos falando da mesma coisa?
 Estamos, estamos sim, minha amiga - um quadrado de cor, um meneio de cabeça, um odor que invade suas narinas com violência insuspeitada. Os dedos que apertam os gatilhos e os caminhos de volta que estamos sempre dispostos a trilhar.
 Estamos falando da mesma coisa, sim.