Batuque

 No princípio era o verbo, eu sei. Ou sabia. Nesta época do ano, o princípio era o batuque e o ritmo. Não consigo pensar em outra coisa. Vivo a alegria da festa que está por vir com muita antecedência. Gosto de carnaval, gosto da folia, gosto da havaiana bêbada que se apóia nos braços de seu amor, recortados no horizonte da manhã. Gosto do ar carregado de chuva, da eletricidade dos céus se despejando cá na terra e os corpos que se escancaram na lascívia do verão. Gatos ao sol, lembranças que escapolem para atrás da pedra, uma carreira na direção das sombras.
 O sol deste dia como aquele de anos atrás, muitos anos, fotos em preto e branco, amareladas pelo tempo. E um arco-íris que não andava pelos céus. Andava pela mesa da copa, rolos e rolos de papel crepom de todas as cores, preparando os costumes para o banho de mar à fantasia. As crianças iam pulando e achando graça da prima mais velha que carregava um estandarte, igualmente improvisado. O grupo ia pela beira da praia. Depois, mergulhávamos com as roupas de papel e aquilo ia se desmanchando na água, até que tudo era uma tela abstrata de cores e texturas. Que curiosa a lembrança da massa de papel azul brilhante jogada de encontro às cracas das pedras. As coisas que escapolem da lembrança num dia de sol, lagarteando à beira do azul.
 Tudo me trouxe o batuque. O ritmo. Os carnavais da minha infância. Encarapitado no ombro de meu pai, assistindo às Grandes Sociedades, no centro da cidade. Um dia, me colocaram sobre o teto de um carro, perto do Teatro Municipal, e eu vi uma mulher vestida de borboleta, uma fantasia de alto luxo. Era uma borboleta imensa. A multidão se comprimia para tentar um vislumbre daquela riqueza toda, a borboleta do Baile do Municipal. E contavam a história de uma mulher, não sei se uma atriz, ou cantora, que teria morrido queimada, pois seu vestido era de nylon e incendiara-se ao contato com a brasa de um cigarro, ou coisa parecida. Eu ouvia com olhos arregalados, enquanto os clóvis, os morcegos apavorantes e os blocos do subúrbio compunham a paisagem, ao fundo, todos empunhando as bisnagas de plástico colorido para jogar água uns nos outros. Tudo vai surgindo na frente de meus olhos, machucados pela claridade do sol.
 - Corre, Nenem! Corre que a filha de seu Eduardo caiu na frente da loja! É ataque!
 Era ataque. E nós, fantasiados de índios de toalha listrada, vermelha e branca, perfumados com o jato do lança-perfume, assistimos àquilo, até que alguém nos enxotasse dali, arrastando nossos sacos de confete. A filha do dono do armarinho tinha tido um ataque, bem ali, na frente da loja do pai.
 Folião. Sempre engrossando os cordões, sempre aprendendo as marchas e os sambas que arrastavam o povo. Sempre gostei desta festa, sempre admirei os músculos retesados, o suor escorrendo, a alegria que a batucada é capaz de provocar e os narizes do início do século que ainda se torcem de desprezo, escondidos atrás dos lenços de cambraia, perfumados com essências caras. Essa lembrança nem deveria estar mais aqui, no meio dos meus guardados. Antes, a imagem de meu pai, cantando um sucesso do Carnaval daquele ano, com a voz bonita, grave e arredondada.
 Folião nos primeiros bailes de adulto, que terminavam às quatro horas da manhã! Quatro horas da manhã, suado, achando que já era homem. Quanto orgulho em sair do baile às tantas da madrugada e meu pai esperando no carro, de pijama. Com que rapidez a vida é capaz de transformar-se num seriado de televisão! Com que velocidade!
 No meio do batuque, talvez por causa da África, eis que surge Karen Blixen. Pula de um canto da mente, muito magra, olhos expressivos pintados de negro. Ela está olhando para o corpo de um leão morto, admirando sua anatomia. A pele que era quase grudada à musculatura. Uma obcecada pela magreza, aquela dinamarquesa negra - a mulher que deu seu coração à África. Eu a vejo desaparecer atrás da pedra, colando-se a ela e sugando a sombra. O sol explode sobre a Guanabara.
 Eu também me pergunto, já que o sol de hoje pode imitar aquele de um dia perdido no passado, que dia da minha existência seria o escolhido? Que momento, que gosto de beijo na boca eu escolheria revisitar? Que perfume? Que abraço? Não sei porquê fico pensando nessas coisas. Vou fingir que não percebi a indagação e deixar que ele também desapareça nas sombras da mata.
 Mas ele não vai embora. Pousa ao meu lado e fica me atentando o juízo, querendo uma resposta. Que dia seria o escolhido? Taí! Estou lançando aqui o tema: que dia você escolheria revisitar e por quê? Aguardo mensagens na minha caixa postal, o endereço está aí embaixo. Mandem notícias de seus corações urbanos e um carnaval de folia para todos!
 Fui ao som de um batuque.


Nuvens do profeta Gentileza

 Eu vinha dirigindo pela enseada de Botafogo, o dia tinha nascido sobre o desfile da Beija-Flor e a manhã soprou uma brisa fresca, antes do sol inundar tudo. Mas lá vinha eu, cansado, de janela aberta, sorvendo o ar da minha cidade, feliz da vida, quando apertei a tecla errada no aparelho de som e, ao invés de entrar o samba da Grande Rio, Ella Fitzgerald surgiu cantando Cole Porter, com aquela doçura e categoria de sempre. Imediatamente, o mundo mudou lá fora, minha cabeça deu uma guinada violenta e o olhar foi redirecionado Ela mal começou a cantar e o olhar foi redirecionado. Música faz isso com a gente, às vezes.
 Música nos atira para o ar de repente, sem aviso. É isso. Rouba o chão e estende um tapete de nuvens no lugar. Ella Fitzgerald fez isso, esta manhã, quando eu dirigia pela enseada de Botafogo, achando linda a minha cidade, imaginando o que será dela num futuro que eu não verei. Um futuro distante, quando arqueólogos importantes recuperarão parte dos grandes blocos de concreto com as inscrições do profeta Gentileza, aquelas mesmas que me acostumei a ler e reler nas idas e vindas da Ilha. A beleza gráfica das letras e a composição de suas profecias, de suas palavras de amor. E simplesmente apagaram tudo. Não tiveram sequer o bom senso de perguntar a nós, moradores da cidade, para quem as palavras eram dirigidas. Junto com as palavras de Gentileza, afogados na tinta do poder, vão-se pedaços das minhas viagens e dos meus sonhos, sacolejando nos ônibus, o olhar perdido na feia paisagem da Avenida Brasil, os olhos adolescentes projetando seus sonhos no comprido muro do cemitério do Cajú. Tudo apagado. Por um tempo, talvez. Quem sabe, por esses misteriosos descaminhos, aquelas não sejam táboas de uma grande religião do futuro, preservadas sob a tinta que um dia quis destrui-las. Sei lá, pode ser que aconteça. E pode ser também que tudo desapareça num tapete de nuvens. Mas prefiro acreditar nos mistérios que a vida volta e meia oferece.
  Enfim, lembrei da obra de Gentileza e do belo enredo que Joãzinho Trinta e fui colocar o samba da escola para sacodir a manhã, quando deu-se a melódia. Ella começou a cantar e meu corpo cansado parou, enquanto a alma, cheia das alegrias da noite de batuque, virou de cabeça para baixo e, de repente, eu voando nos ares da harmonia, imaginei que nossas existências são desfiles, com grandes carros alegóricos, um para cada evento importante do nosso enredo. E o dia foi passando com mais vagar pela janela, até a brisa segurou a respiração para que alguns dos carros mais delicados passassem pela avenida à beira mar. Congelou-se a imagem daquele momento, a fotografia para sempre guardada nos anais do tempo.
 E, na cabeça, eu ia repassando algumas das mensagens que recebi por causa da tal revisita a um dia escolhido, que eu propus na última crônica. Como de hábito, meus leitores se inspiraram e eu tenho recebido poesia de toda a parte, pedaços de lembrança, retalhos de vidas, que de alguma forma tento costurar para dar sentido a minha. O nosso patchwork particular. As lembranças de vocês iam se desenrolando na minha cabeça, um grande desfile, carros passando em câmera lenta, Ella cantando ao fundo e o Rio de Janeiro abrindo as cortinas do dia e deixando o sol entrar. Foi assim, esta manhã.
 Dormi quase o dia inteiro, um sono picado, besta, de quem parece que tem medo de sonhar. Acordando toda hora, achando que ainda não tinha descansado o bastante, e volta e meia lembrando de um relato, de uma lembrança de alguém, que de longe me ajuda, agora, a escrever esta crônica. Não consegui dormir direito, no final das contas, enquanto o dia corria célere lá fora, ao encontro das luzes do segundo dia. Fiquei zanzando pela casa vazia e acabei sentado no computador, recebendo novas mensagens, mais corações rebentando em flor e gente que fala bonito e pensa bonito e eu vou lendo como quem se ilustra. Acabei marcando todas as mensagens que vocês me enviaram e quero ver se consigo realmente fazer uma crônica que seja uma colcha dos retalhos de todos os nossos corações urbanos (ou, pelo menos, os desses encontros às quintas-feiras). Não sei ainda de que jeito, mas uma hora, assim como quem não quer nada, eu me inspiro.
 E, já que todos confessaram tão despudoramente suas preferências, sinto-me na obrigação de compartilhar igualmente de meus segredos, de modo que, muito aqui entre nós, se me dado fosse este direito, o dia que revisitaria seria aquele mais comum, um dia de semana qualquer. Nada especial. Apenas um brilho verde nos olhos, um meio sorriso no canto da boca e uma promessa de amor no ar. Esse dia seria o revisitado.
 Se me dado fosse este direito.


Chocolate

 O novelo começou a girar por causa dos festejos pela Páscoa, as vozes foram se levantando lá no fundo, saindo daquela névoa sem muito traço, que são os primeiros anos. Havia uma foto guardada em algum lugar, mas ela desapareceu numa das inúmeras mudanças: nela, eu estava sentado, três ou quatro anos, usando o uniforme do maternal, uma formiga bordada no peito da jardineira. O olhar perdido no futuro. Um curioso olhar perdido no futuro. Talvez por isso eu sempre tenha gostado daquela foto. Por causa do olhar misterioso, um olhar antigo no rosto de uma criança tão jovem. Aquela foto sempre provocou comentários e uma estranheza geral. E, é claro, por causa de tanta atenção, passei a gostar cada vez mais dela, até que ela se foi, num descuido da vida. Ou anda por aí, hibernando solitária em alguma gaveta. O fato é que todos nós sempre elegemos algumas fotos existência afora, aquelas que acreditamos ter o maior poder de sedução. Todos nós estamos sempre elegendo nossos melhores momentos, nossos ângulos favoritos, nossas melhores palavras e nossos melhores verbos. É essa a lição primeira. Sedução. A química dos corpos. Instinto. O resto é conseqüência.
 Mas a foto me trouxe o coral infantil, cantando para o coelho mítico e seus ovos da Páscoa. Aquele que comia uma cenoura com casca e tudo. Centenas de coelhos na minha infância. Todos descendentes de uma coelha grávida que meu avô, inadvertidamente, comprou na feira livre, para o neto que chorava. Dela nasceram filhos que se reproduziram com muita velocidade e a coisa saiu do controle. No final, construíam-se imensas gaiolas para abrigá-los. Muitos. Centenas. E desapareceram com a mesma rapidez com que povoaram o quintal suburbano. Coelhos assustados na sombra triste dos galpões.
 Coelhos por toda parte, nos domingos de Páscoa. A professora ensinando a canção e meu avô parado, para além da grade do portão da escola. Vê-lo ali, era felicidade. Eu não gostava da escola, não suportava o barulho das outras crianças no ônibus que corria a Ilha toda, até nos despejar na porta do educandário. Nunca troquei uma palavra com ninguém, naquele lugar. Nunca olhei para o lado. Chorava todo o tempo, sozinho num canto, com saudades do ninho. Eu era uma criança esquisita, penso. “E tornou-se um adulto mais esquisito ainda!” – escuto Sarita rosnar, debruçada sobre meu ombro, lendo o que estou escrevendo, mas não dou importância a ela e volto a contar meus coelhos.
 Onde é mesmo que eu estava? Ah, sim! Meu avô, chapéu na cabeça, parado para além da renda miúda que era o gradil da escola. É impressionante a nitidez da foto. Uma roda de crianças, a professora no meio. Acreditem se quiserem, mas minha primeira professora tinha o nome de Esperança. E sabe lá Deus como, lembro de seu cabelo ruivo brilhando ao sol da tarde, enquanto meu avô, cheio de um amor imenso, aguardava, para além dos limites do colégio. Meu avô era sinônimo de liberdade, de afeto sem limite, de amor exagerado. O amor mediterrâneo de mãos e gritos, de lamúrias e ciúmes e olhares febris. O perfume da cebola e do azeite, seus olhos escuros brilhando na arte de contar histórias. Como contava bem uma história! Com que alegria ele preenchia a imaginação de um menino, com que elegância dava asas às fantasias de seus netos. Meu avô era isso tudo, de modo que avistá-lo ali era a melhor coisa que podia acontecer na jornada do dia. Estava próxima a hora de ir para casa.
 O novelo da Páscoa vai tomando uma coloração púrpura e a música fica pesada, triste, o som de outro coral, cantando para os céus do crepúsculo, enquanto eu e minha avó vamos de passos miúdos na fila que se arrasta junto ao muro úmido da igreja. A parede manchada, o limo verde subindo com força, o ar frio da nave central e o corpo largado dentro do caixão. Ela me suspendeu no colo para beijar os pés frios de gesso. Como é que se ensina tanta tristeza a uma criança? Tanta dor, tanta culpa e tanto medo, quando tudo deveria ser liberdade, música e vozes que se elevam aos anjos. Veio esta lembrança também, dentro de um ovo brilhante, trazido pelo coelho aflito de Alice no País das Maravilhas. Aquele que gritava que é tarde, é tarde, é tarde! O coelho que correu por entre as páginas de um folhetim urbano, a novela de nossas vidas:
 ...é tarde para muita coisa. Mas não para outras, ele pensou, quando entrou no elevador. A temperatura tinha caído e o céu tornara-se sombrio, sem nenhum aviso prévio. A cidade parecia deserta. Imensos blocos de concreto mergulhando nas sombras do crepúsculo. Tanta coisa para fazer, tanta vontade pulando no peito, ele pensou, e desejou saber por onde começar. Desejou poder reconstruir algumas coisas e consertar outras. E foi olhando nos rostos que passavam por ele, tentando adivinhar os pensamentos por detrás dos olhos, dos sorrisos, dos passos apressados. As lojas de doces cobertas por ovos de papel colorido, coelhos e cestas de chocolate.
  E, então, como se um novelo começasse a girar pelo chão encerado, uma parte daquilo que ele fora floriu do nada e ele saiu à cata de mais um pedaço de sua história. E pensou, também, enquanto fazia a sua coleta, que era isso que todos andavam fazendo, na calada das noites e nas profundezas dos olhares perdidos: tentavam reconstruir suas imagens, recuperar a mirada antiga, seus rostos de então e, através deles, seus sonhos que foram se perdendo vida afora.


O salto da borboleta coreana

 Eu gosto mesmo é quando tudo pára. Acontece com menos freqüência do que eu gostaria mas, vez ou outra, há uma ordem superior e a terra pára de girar, por alguns segundos, quase uma pausa na respiração do dia. Um nada. Um piscar de olhos. Às vezes, percebe-se o movimento, mas geralmente ele não causa grandes sobressaltos. A vida fica em suspenso e ninguém se dá conta de que a pálpebra parou no meio do caminho, o menor dos músculos imóvel. Tudo logo se reinicia, a respiração retoma seu passo, os corações voltam a bater e pronto, é como se nada tivesse acontecido. E, entretanto, é neste curto espaço de tempo que o amor opera as mudanças dentro de nós. É nesse momento mágico que abrem-se algumas portas do entendimento. Sobe-se mais um degrau, quando esta graça é alcançada. Pensando melhor, talvez eu devesse ter dito que gosto mesmo é quando tenho a consciência de que tudo deve parar em algum momento e, por causa deste entendimento conquistado, isto deixa de doer. Esta é a afirmação válida, a conclusão do pensamento.  Mas, comecei a escrever por causa de um carinho que me enviou Patrícia Bueno (que está sempre mandando coisas bonitas, usando as fibras óticas com sensibilidade). Um pensamento de Molière sobre o amor que, segundo ele, é um mestre admirável que nos ensina a sermos o que nunca fomos e que, muitas vezes, com suas lições, muda completamente, num instante, os nossos costumes. Eu recebi a mensagem, li o pensamento e o mundo parou. Chega deu um solavanco. E eu tive a consciência do som que saía da aparelhagem e ia colorindo o ar do escritório, cortando a gelatina transparente que era a atmosfera naquele momento: uma cantora de ópera, um soprano coreano cantando canções de amor norte-americanas, num domingo silencioso, em São Paulo. O mundo, às vezes, fica pequeno demais e os laços que nos amarram vão se tornando cada vez mais compridos, avançando até onde a vista já não consegue alcançar. Assim são as visões que inundam as mentes, quando o mundo acha por bem planar no azul do cosmo, em absoluto repouso. Uma outra consciência, um outro olhar sobre as coisas e as pessoas, quando o mundo é apenas um balão de gás voando no infinito, observado pelas estrelas.  Quando o mundo parou, naquela tarde de outono, foi como se todo o concreto tremesse ao som da voz de Sumi Jo, clara e fresca como a brisa nas manhãs de praia. E é assim, parado, que o mundo se estreita nos avanços do homem, nas pontes eternas que vamos construindo, atrás de uma resposta. O certo olhar de Jules Verne para Marte habitado, que eu não chegarei a conhecer, mas que adivinho. As viagens pelo azul que vi nos sonhos de alguém, muito antes de se tornarem realidade. E o tal balão de gás solto no espaço, avançando galáxias afora, deixando um rastro de sentimento em seu vôo veloz.  Todas essas imagens chegaram durante a pausa de existência. Sumi Jo continuava cantando, mas nada se movia. E, então, quando o agudo da voz dela ganhou uma cor de pássaro, de instrumento afinado, eu vi que até a fumaça da xícara de café tinha parado sobre a bebida, como uma pequena nuvem sobre uma lagoa negra. Imediatamente, o cérebro descarregou outras inúmeras imagens: um trem correndo nos trilhos, uma escarpa ensolarada e uma harpa tocou dentro da alma, talvez porque ela estivesse cantando Losing My Mind, aquela beleza do Sondheim que diz que chega a manhã e eu penso em você, uma xícara de café e eu penso em você, falo com amigos e penso em você. Era esta canção de Sondheim que ela cantava quando o mundo parou e eu fiquei ali, como um daqueles adolescentes de uma distante tribo africana, parado sobre uma plataforma construída nas alturas, uma corda de cipó atada aos tornozelos. Vai se atirar e sua cabeça e, se tiver sorte, vai parar a centímetros do solo. De modo que ele fica ali, na solidão de sua plataforma, enquanto lá embaixo a tribo aguarda seu salto no desconhecido.  Sempre me perguntei o que pensam esses jovens rapazes, antes de engolir o ar e mergulhar no vazio a sua frente. Mas, seja lá o que for que lhes passa pela cabeça, sem dúvida alguma, o mundo pára naquele instante. Eu vi no fundo de seus olhos, num documentário sobre ritos de passagem. O que é que nos chega, logo antes da queda? Esta é a pergunta que estou tentando fazer e que me faltava. Que imagem cresce dentro de nós, quando nada mais há a não ser a dúvida a sua frente?  Talvez um pássaro que por ali voasse, acabasse aprisionado na imagem do menino solitário na plataforma que avança para as nuvens. Congelado em pleno vôo, as asas abertas na manhã, clara como a voz da borboleta coreana no domingo paulistano. O pássaro que olha a estranheza daquele menino, logo antes da queda. Os meninos que somos nós, amparando nossos corações machucados, engolindo o ar e enxugando uma furtiva lágrima, nas solidões das nossas plataformas. Assustados e confiantes em algum mistério, preparados para saltar no exato momento em que o mundo parar.  Para sempre presos no salto congelado. Nenhum sentimento, nenhuma lembrança.  Ausência.  E ausência, a gente sabe, é sinônimo de esquecimento.  E ausência, a gente está cansado de saber, é o olho do nada fechando o dia para então dormir.  Ps. O cd chama-se Only Love, a cantora é Sumi Jo, um soprano coreano, é uma beleza de se ouvir, um carinho nos nossos corações urbanos que gostam mesmo de sair bailando por aí, sempre que possível, ainda uma vez românticos, plenos de vida e trêmulos de paixão.


Um dia de menos

 Tenho vivido dias felizes, tendo a música como companheira. De um lado da ponte aérea, as canções de Kander e Ebb, para as personagens de Puig, em “O Beijo da Mulher Aranha”, pensando em cavidades, espaços na ossatura da face e narinas abertas em busca do som, observando os colegas, na concentração do espetáculo, sempre aprendendo, sempre descobrindo, sempre tentando segurar nas mãos um tempo perfeito, esmurrando as limitações, querendo ir adiante. Do outro lado, sob o olhar generoso de São Sebastião, padroeiro da cidade, revisito o repertório da Pequena Notável, dirigindo o nosso “South American Way”, o musical que eu e Maria Carmem escrevemos para as Carmens que povoam os nossos imaginários.  Música por toda a parte, onde quer que eu pouse meus ouvidos, nestes dias que correm mais velozes do que esperávamos. Agradeço a oportunidade. Agradeço pelas notas musicais que andam adornando as palavras e ajudando no desenrolar das tramas. Os enredos de existências que vamos inventando para nós mesmos e para os outros que, por sua vez, desandam a tecer outras tramas e descobrem outros padrões. Assim vamos nós, até que o sol mostre sinais de cansaço e as geleiras invadam tudo. Então, tudo vai ser uma noite azulada. E uma poeira cósmica formada das bilhões de lembranças do amor. Em todas as suas formas, em todas as suas verdades e mentiras, suas dores, seus jatos de energia azulando o infinito. Porque as coisas não são do jeito que são e sim como as recordamos. Isso é de Valle Inclán e é uma verdade universal.   Uma noite dessas, na saída do teatro, já tarde da noite, depois de dar vida à personagem de Puig. Foi logo após eu arrancar com o carro, ainda me livrando da música do vitrinista, que morre por amor a um homem, que morre por amor a uma causa. Maurício Moço, meu amigo da vida e de cena, colocou Kiri Te Kanawa cantando a Doretta de La Rondine. Puccini brotando da noite concreta do centro paulistano. Maurício comentou que o maestro certamente estaria andando pelas vastidões celestes, brincando nos campos do Senhor, porque era coisa de anjo esse dom de levantar bandos de aves nas nossas almas, uma passarada que sai voando coração afora, coração adentro, uma enchente no organismo, as margens todas inundadas, prontas para o semeio – e, curiosamente, à tarde eu tinha assistido a uma reprise daquele filme da Barbra Streisand e a personagem dela, em determinada hora, diz que quando a gente se apaixona, escuta Puccini no ar.  Talvez este bem estar que a boa música é capaz de produzir em nosso íntimo seja isso, no final das contas: a ilusão de que amamos, mesmo quando nossos corações estão solitários. Eu pensei em voz alta e mergulhei ladeira abaixo, na direção dos Jardins, enquanto Puccini enchia o ar e a noite lá fora era como um quadro pintado sobre outro quadro, uma imagem após a outra, as senhoras solitárias na saída do grande baile com fabulosa orquestra, equilibrando-se nos saltos dos sapatos brancos. Um olhar aturdido de quem viu a juventude ainda outro dia, apertando nas mãos as bolsas que parecem conter suas existências. Ah, meu sonho! Ah, minha vida!, canta a personagem apaixonada. Poder amar assim é um sonho dourado! - Kiri espalha o cristal pelo ar a nossa volta e as luzes da noite voando de encontro a ele cria um arco-íris que só nossos olhos podem ver.  Já disse, mas sinto desejo de repetir: tenho vivido dias felizes com a música como companheira. A música que nos invade a alma é uma forma que a fé encontra para se fazer presente nos corações desesperançados, eu acho. A fé dos olhos febris buscando a imagem adorada, a fé que precisamos desesperadamente descobrir dentro de nós para continuar ainda aqui, ainda vivos. A fé no outro. Nada nos machuca mais do que a ausência de fé no outro. São essas as perdas irrecuperáveis de nossos corações, ao resto sobrevive-se com mais facilidade.  E, para coroar a série musical, Maria Callas deu o ar da graça. A televisão ligada, uma grande dificuldade para dormir, um documentário reprisado e lá estava ela derramando seus olhos incendiados. Um oceano de mágoa, quando Onassis anunciou seu casamento com Jacqueline Kennedy. Ela disse, depois, que agradecia secretamente, quando um dia chegava ao fim, porque era um dia de menos. Acho isso muito triste. De verdade. Fiquei rolando na cama, correndo atrás da lembrança de Puccini, na voz de Kiri, mas a tristeza de Callas chegou mais forte e eu fiquei pensando nos dias de menos que me restam, nas coisas que preciso fazer, nas palavras de amor que preciso dizer, na urgência que às vezes me dá em ser feliz. Como se cada um de nós armazenasse a maior quantidade possível de imagens de amor, que é o único passaporte válido para a compreensão de qualquer mistério que possa haver e pintar por aí.


Bananas

 Ando mergulhado na música popular brasileira, por causa dos ensaios da peça, da estrela Carmen Miranda, das bananas e balangandãs. Ando batendo com a mão na perna, marcando o compasso do dia que corre, em busca do ritmo secreto do falar desta gente, à cata desta identidade que nunca chegamos realmente a conhecer e do nome que nunca chegamos a pronunciar. Ando revendo tudo isto, tentando encontrar o coração desta terra, para além do coração urbano, das correrias desenfreadas, da loucura absurda em que transformamos nossas existências. Para além do medo, moram as canções. Para além da solidão, mora o entendimento. Todos vizinhos do amor, com certeza. Pode-se até vislumbrar seu rosto, sentado na varanda.
 Voltando a Carmen, que tem sido a obsessão desses dias: nossa peça parte da explosão cerebral que se iniciou no exato momento em que ela caiu, vítima de um coração cansado demais, o espelho nas mãos, em seu quarto, Beverly Hills, em algum lugar dos anos cinqüenta. Um ano depois de Getúlio Vargas, o mentor da política da Boa Vizinhança. Imagens que se acumulam: turbantes e pulseiras, o sol se pondo na Urca, os amores de alguém que dizia só desejar um bom prato de sopa e liberdade para cantar. E, pensando bem, é do que todos nós precisamos, na verdade. Aprender a amar nossas velhas canções e ensiná-las às gerações que chegam, com a dedicação e o carinho de um mestre apaixonado. É por isso que estamos sempre fazendo o caminho de volta, na tentativa de recuperar as nossas histórias. Para poder narrá-las em volta da fogueira, enquanto os muito jovens escutam de olhos arregalados. A tradição oral das sociedades primitivas que mantemos viva nas nossas vidas tecnológicas.
 Histórias comuns e dramas anônimos. É nisso que estamos interessados, na verdade. Para entender a batida dos corações que vivem a nosso lado e aprender a amá-los. Precisamos estar nos exercitando todos os dias. Porque este tipo de talento, adquire-se com vontade e trabalho. Algumas pessoas recebem esta graça e a trazem do berço, com uma naturalidade espantosa, outras têm de conquistá-la. Mas o caminho percorrido tem um sabor outro, quando sente-se o cansaço no corpo e os olhos se fecham pesados com a sensação de algum dever cumprido e, só por isso, continuamos a garimpar a terra dos homens, em busca de almas irmãs.
 Nesse garimpo de imagens, nesse resgate de sentimento, eu tenho voltado constantemente às sessões da tarde no cinema do bairro, a cadeira de madeira, sem nenhum estofamento, as baianas, sempre elas!, bordadas na cortina que escondia a tela. Havia o cair de luzes, em resistência, e o veludo se arrastava pelo palco, antes da projeção. Um outro tempo, um ritual que preparava o espírito para a mágica das imagens em movimento e do som em sincronia. O céu da boca quase ferido pelo açúcar da bala cor-de-rosa. O technicolor vibrando nas nossas infâncias. E, ainda que eu tenha chegado muito depois de Miss Miranda, há para sempre um sonho de celulóide que acabamos dividindo, de uma forma ou de outra. Há muitas imagens comuns nos arquivos de todos nós. E trechos de canções e olhares apaixonados e a mesma brisa que beijou os cabelos de alguém que amamos um dia, volta a soprar na tarde. A brisa morna de nossas lembranças comuns, um cheiro de mar soprando da foto em sépia, sob o sol do passado. E o mar está tão longe, neste momento! Aquele azul de fotografia parece andar longe de nós, aprisonados na lama da nação loteada, saqueada, ainda outra vez vendida por seus filhos que preferiram esquecer a nobreza de determinados sentimentos.
 Revisitando Carmen, revisitamos nosso eterno ser ou não ser, nosso amor e ódio pelas bananas, nosso exagero, nossas vogais escancaradas, nossos rostos banhados pelo sol dos verões. Revisitando Carmen, vamos costurando retalhos na colcha, tentando entender as manchetes nos jornais, porque estamos cada vez mais envergonhados com o que andam fazendo com o país, porque levamos as mãos à cabeça a cada novo dia, a cada nova decepção. Porque Audrey Hepburn, com certo ar de desprezo naquele rosto lindo e invejado, pergunta para George Peppard, no táxi, em “Bonequinha de Luxo”, ao ver despedaçado o sonho de casar-se com um diplomata brasileiro, cuja carreira política tinha sido comprometida com o escândalo: afinal de contas, quem quer ser Presidente do Brasil? E essa é a pergunta que todos nos fazemos, desde que nos ensinaram a torcer o rosto para aquele rosto no espelho: quem quer ser Presidente do Brasil?
 E, no entanto, há tanta coisa a nos unir, para além da miséria sofrida, para além do grito dessas grandes cidades, para além de tudo o que precisa urgentemente começar a ser mudado. Há um sorriso que vem não sei de onde, um olho safado, uma promessa de amor nos rostos machucados, mas cheios de uma graça infantil. Há uma beleza rara na feiura dessa nossa gente. Há um agarrar-se à vida que me causa espanto. Há uma vontade de rir, ainda que com as mãos em concha sobre a boca, escondendo a falta de dentes, porque até isso lhes foi tirado. Hä muita coisa a nos unir e muitas canções pelos ares. Muitas. E, no prato, o feijão preto soltando fumaça, molhando as rodelas de banana. Sempre elas. As bananas. Amarelas, pálidas e saborosas como o sol que marcou para sempre as nossas almas em flor.


Os Gatos-bonsai de Pindorama

 Num sentido tribal, todos somos fascinados por nossos monstros. A frase não é minha, não lembro de quem é, mas ficou na minha cabeça. Isso acontece, de vez em quando, não é mesmo? Uma frase, uma palavra, um conceito que nos chega e acaba ocupando espaço na cabeça. Uns versos, igualmente, às vezes, agarram-se a nós como sanguessugas: amor, anda o luar todo bondade/ beijando a terra a desfazer-se em luz/ Amor, são os pés brancos de Jesus/ que anda pisando as ruas da cidade. Isso é Florbela Espanca, a bela do Alentejo, aquela triste garota portuguesa que cantou como poucos sua alma de poeta. Andei com esses versos por um longo período, dançando por entre as curvas da minha massa cinzenta.
 Às vezes, quando menos se espera, um pensamento ocupa sua mente e, sem que você o perceba, vai se instalando, abrindo suas histórias e significados, guiando você pela mão, até que deixe de ser um pensamento, vire um punhado de palavras, que se fragmentam e viram sons, bailando pelo ar, num movimento circular, como se desenrola o tempo numa tarde cheia de música árabe. Ou o verso que você leu, impresso no livro, e que resolve fazer o caminho de volta. E deixa de ser verso, por exemplo: eu sou estas casas/ encostadas/cochichando umas com as outras./Eu sou a ramada/dessas árvores,/sem nome e sem valia,/sem flores e sem frutos,/de que gostam/a gente cansada e os pássaros vadios. Ás vezes, os versos de Cora Coralina correm para trás, em busca do passado, fogem do livro, furam mundo e a palavra impressa deixa de ser palavra e vai se transformando em muita coisa, até voltar à origem de ser casca de árvore, rugosa, antiga. Vocês sabem como é a sensação, de certo. Quando tudo é fragmento, querendo se juntar de novo e refazer o todo. Nossa imitação de serpente, esfregando o corpo na pedra para livrar-se da pele.
 Pois o pensamento que me chegou foi o já citado: num sentido tribal, todos somos fascinados por nossos monstros. Eu já tinha pensado em escrever sobre as últimas lendas urbanas que, graças à internet, ganharam uma sofisticação macabra. Os crocodilos cegos que um dia habitaram os esgotos de Manhattan, o rapaz que teve o rim roubado, depois de ter sido drogado numa festa, o mendigo que ataca com uma seringa infectada, a seringa infectada estrategicamente colocada na cadeira do cinema, seringas infectadas no metrô de nova-iorque, à espera da inocente vítima. Nosso pânico dos vírus invisíveis, nossa incapacidade de viver na natureza, nossa ignorância em relação às diferenças, nossos medos criam as histórias mirabolantes e elas ganham força e alçam vôo, repetidas à exaustão. Sabe-se lá que loucura ainda seremos capazes de criar, mas todas elas, agora, podem ter um endereço exclusivo de acesso e ser visitadas pelo mundo inteiro.
 O fascínio dos monstros. O silêncio cinzento da casa do psicopata, onde jaziam dezenas de corpos mutilados. Eu vi num documentário e acabei não dormindo, horrorizado (e fascinado, claro!) com os meandros daquela mente distorcida. Pois a última loucura coletiva é a tal história dos gatos-bonsai que anda levantando o clamor das vozes pela rede - todos os usuários da internet indignados com um suposto monstro (um médico louco, talvez) que cria gatos dentro de vidros, amolecendo os ossos com drogas potentes, mantendo as criaturinhas confinadas nos vidros, como aquela técnica de miniaturizar as árvores, atrofiando o crescimento dos galhos, frutos como grãos. Bonsai, samurais e gueixas, máscaras brancas com pontos vermelhos passeando em jardins de perfeita harmonia. Ah, sim! E carpas sinuosas nadando nos lagos de cristal azul – essa é a lembrança, como um sol nascendo afogueado.
 Os gatos-bonsai. Esmagados de encontro à parede de vidro, olhando o mundo que avança lá fora. Tão parecidos conosco, na verdade, ainda que frutos de uma mente fantasiosa. Porque estamos todos aprisionados nos vidros, alguns até bem luxuosos, não é verdade? Andamos todos batendo as cabeças na superfície fria, buscando uma solução para nossa apatia, nossa incapacidade de gritar e tentar mudar o que quer que seja, enquanto o país navega meio que sem rumo, batendo aqui e ali, uma jangada desgovernada. Um cinismo por toda parte, uma falta de vergonha na cara que vai nos humilhando, nos ofendendo, nos chamando constantemente de cretinos. Somos os gatos-bonsai dessa quadrilha que vem saqueando a nação, como filhos doentes que roubam as bolsas das mães, cospem no chão e nunca recebem limites.
 Os gatos-bonsai da terra de Santa Cruz, Pindorama, olhando para o dia de amanhã que se avizinha escuro. Tão diferentes daqueles gatos que cresciam no quintal da infância. Tão distantes dos sorrisos dos felinos esparramados ao sol, alongando os músculos na esperança de alguma ave desavisada.
 ontem mesmo. E, no entanto, já passou tempo. Tempo bastante para assistir ao todo se fragmentando, perceber que os versos vão se partindo, transformam-se num punhado de palavras, aparentemente sem sentido. Depois, apenas sons esparsos. E a palavra escrita volta a ser casca.
 É preciso recuperar o todo. É preciso saber contar a história. E entender que juntos podemos quebrar os vidros e respirar o ar puro da manhã.
  (Logo depois, a espiã japonesa, cabelos presos no alto, colar de pérolas e vestido reto, de brocado negro, aponta a pistola para a minha cabeça e, antes de atirar, forma um coração com a boca de laca escarlate e me manda um beijo, em close, na tela
 Apagão.)