Pescoço (crônica de Natal)

 Nós nos enchemos de medo, quase pânico, diante daquilo que não controlamos. Dores, por exemplo. Qualquer tipo de dor, seja ela concreta, dor com cep e endereço, ou aquela dor andarilha que pousa nos corações de vez em quando. Além da dor, há o pesar pela absoluta falta de controle. Quando é que ela vai embora? – é só nisso que pensamos. Vivemos à espera dos dias sem dor.
 A fisioterapeuta ia falando, enquanto buscava pontos específicos da minha musculatura machucada. O cansaço de todo um ano de trabalho duro parece ter vindo à tona. Todo meu corpo travou. Pelo menos, a parte superior dele. Simplesmente parou e resolveu pedir uma senha para permitir o acesso. Como esqueci da palavra-chave, estou impedido de tomar posse de uma parte de meu corpo. O pescoço dói muito e a cabeça começa a ficar pesada. A consciência do pescoço é uma coisa muito esquisita. De repente, perceber o pescoço que grita sem parar, equilibrando a cabeça no topo, como uma foca desajeitada equilibra a bola no nariz.. Todos os músculos do pescoço entraram em greve. Não consigo olhar para parte alguma, só para frente - logo eu, que volta e meia estou mirando o passado apaixonadamente. Isso não é mais possível. Pelo menos, não agora.
 Eu repouso a cabeça nas mãos que me aplicam a massagem e ela faz com que eu me dobre até o limite do suportável. A dor se espalha em ondas circulares, chegando ao topo do crânio. Todo o meu corpo parece retesar-se, estátua de pedra, estátua de sal, os olhos cheios de uma lágrima involuntária. Vou respirando conforme ela vai pedindo, tentando anestesiar o momento, tentando fazer com que minha mente alce vôo para longe dali. Longe, cada vez bem mais longe. Afastando o pensamento da dor. Avançando para além da vidraça molhada pela chuva, no meio da cidade caótica, paralisada pelo aguaceiro que despenca dos céus.
 Há um momento curioso, em que a convivência com a dor passa a ser o natural das coisas. Não se compreende mais viver sem ela e, quando ela finalmente resolve partir, a ausência dela é o lugar mais perto do paraíso. Assim falava Karen Blixen, cuja coluna vertebral foi irremediavelmente afetada pela sífilis. A escritora dinamarquesa tinha dores atrozes e entendia como ninguém a alegria de atravessar um dia sem ela. E lembro, de repente, da personagem de Helen Hunt, naquele filme com o Jack Nicholson. Uma cena em que ela, após ter seu filho curado, chora desconsoladamente porque entende que vai ser obrigada a olhar para a própria vida, sem mistérios, sem lenços, sem mentiras. Durante todo o tempo, ela viveu esquecida da própria vida, preocupada com o menino doente. Agora, sem essa preocupação, seria obrigada a olhar para a própria existência.
 Foi disso que lembrei, de repente. E lembrei que, quando a dor física resolvesse ir embora, eu teria que começar a lidar com as outras dores. Aquelas do coração. Agora, ela diz que conseguiu soltar uma parte do músculo. Estou suando, estou largado no tatame, uma trouxa inerte, gemendo baixinho. Estou encostado na parede com as pernas levantadas, buscando o teto, os pés flexionados e os braços abertos em cruz. O simples fato de abrir os braços provoca uma irradiação dolorosa que se alastra pelo meu corpo, como o fogo na vegetação ressecada. E eu não deveria estar falando de dores. Deveria estar tocando os sinos, preparando a alma para a celebração do Natal. Os nossos Natais dos trópicos, sempre abafados, sempre um cheiro de goiaba madura no ar. Os olhos do menino, esbugalhados, mirando a montanha de presentes e papéis coloridos e fitas e fitas, que se desenrolam, contando uma história. Cada uma daquelas rabanadas, cada um daqueles risos, cada rolha espoucada de champanha. Cada um dos nossos desejos, cada uma de nossas conquistas, de nossas saudades, cada uma das palavras de amor que me chegaram este ano. Tudo se junta na celebração do nascimento do Cristo. E tudo é família e encanto e amigos para todo o sempre. Reafirmam-se os laços, odores e códigos. O mundo cabe inteiro na célula familiar, nesta época das festas.
 Foi uma semana dura, esta. Muito trabalho, muita tensão. Agora, deitado no tatame, tento soltar os músculos dos grilhões do nosso estresse cotidiano. O meu pescoço imita o da estátua vista há já algum tempo. Uma rocha, uma pedra ligando o tronco à cabeça. Por isso, a minha crônica de Natal vai se chamar Pescoço. Por esta consciência tardia de sua existência. A crônica fica como homenagem aos pescoços alvos e morenos, cheios de veias e feixes de músculos. Os pescoços beijados, molhados, suados, os pescoços das mordidas, dos chupões, das fungadas profundas. Pescoços torcidos de aves, pescoços alongados das girafas no canal discovery. O meu pescoço latejando sua existência, aqui, neste exato momento. Um cisne. Uma chaminé. Uma coluna.
 Fica esta crônica de Natal, de nome Pescoço, como quem oferece um poema, porque na verdade era o que eu queria poder escrever para vocês, meus caros e fiéis leitores. Queria poder ser gentil com cada uma das pessoas que me acariciaram o coração. Quase nunca conseguimos, mas tentamos bravamente. Por isso, em agradecimento pelas palavras tão derramadas e tão cheias de ventura que vocês me enviam, vai esta crônica dolorosa. Ainda uma vez, mais uma vez, obrigado. A todos nós que ainda olhamos com alguma esperança para esses nossos corações urbanos, um Feliz Natal.


Mil-folhas

 Qual é, em média, a duração de um sonho? Sonho no sentido de desejo, de olhos voltados para o porvir. Quanto tempo somos capazes de mantê-los vivos, até que desistam de viver e comecem a se desfazer em fumaça?
 Eram essas as questões da garota de couro vermelho, uma fatia de barriga morena exibindo um piercing de prata. Eu perguntei o que é que ela gostaria de sonhar, mas ela não soube identificar nenhum dos seus sonhos. Olhou para mim, como se me pedisse tempo e coçou a cabeça. Não, não saberia dar nome aos bois e acabei ficando sem resposta. A garota de calças de couro que não sabia o que sonhar. Como uma heroína de histórias em quadrinhos, saída dos anos sessenta. Uma dessas garotas de hoje, que exibem seus nacos, suas próteses, seus sorrisos, seus olhos aturdidos, nas festas que avançam pela madrugada, naquele desespero à cata de felicidade e de embriaguez. À cata, na verdade, na batata, de alguém que as abrace e as faça esquecer das porradas e dos desfechos de folhetim que a vida vai lhes arranjando. São as tais linhas tortas, eu acho. Às vezes tão absolutamente tortas que, de cara, a gente percebe que não vai ter jeito de endireitar.
 Mas a moça queria discutir a razão do sonho e isso, é claro, me fez sentar a seu lado, enquanto ela atirava o cabelo na minha direção, muito mais um tique nervoso do que um gesto de sedução. Ela ficou falando, falando, e eu a olhava como quem olha para um peixe, num imenso aquário. A boca que se abria e fechava tecendo considerações sobre a eterna capacidade que temos de sonhar. Apenas mais um fim de noite. Nada além disso.
 Guardemos essa imagem, entretanto, a da garota de calças de couro vermelho, na tela de uma televisão, mais ao fundo e, na frente, uma nova cena começa a se desenrolar: Drolka, a pequena faxineira do Butão, sentada na sala azul, no apartamento de John, em Paris, na rua Barbet de Jouy. Drolka trabalhava na França para sustentar a família, naquele pequeno país da Ásia e, naquela tarde de sexta-feira de inverno, ficou lembrando de sua terra e sua gente e me contou que seu filho mais velho tinha escolhido o caminho da espiritualidade e ingressado num mosteiro. Drolka nunca mais iria vê-lo novamente. Fiquei estupefato com a declaração, como se fosse meu o filho que resolvera abraçar a senda do espírito. Como se fosse minha a tristeza de ver partir o mais amado.
 Então, onde é que estamos? A televisão no fundo, onde a garota de couro desvenda a nudez de seus sonhos. Um pouco mais à frente, Drolka, na sala de Paris, uma sala toda azul, lembrando das florestas do Butão e falando dos sinos dos mosteiros, que vibram no ar do fim da tarde. E, quase no proscênio - talvez pela frieza do ar que feria nossas narinas, talvez pelo inverno gelado – está o retrato de um outro inverno. Outras palavras que viraram fumaça no gelo da madugada. Vivendo em camadas, imagens umas por cima das outras. No topo do mil-folhas, estou eu, sentado no cenário de “O Beijo da Mulher Aranha”, no fundo do palco, admirando Cláudia Raia e os bailarinos que evoluem na minha frente.
 Quantas palavras, em média, um homem diz na totalidade de sua vida? Dentro de nossos limites físicos, quantas vezes usamos esse ou aquele vocábulo? Essas são as novas indagações da garota de couro vermelho, fatia de barriga tostada nas lâmpadas ultravioletas.
 - Você às vezes sente saudade dele, não sente? Às vezes, tudo o que você quer na vida é abraçar aquele corpo e sentir o perfume daquilo que você perdeu. Não é assim|? – eu meio que perguntava, meio que afirmava e Drolka sorria de volta, os olhos amendoados perdidos num lugarejo da Ásia.
 Para ela, era uma grande honra a opção do filho. O corpo físico do primogênito, que aquela mãe nunca mais iria abraçar já não tinha importância. A grandeza da escolha era maior do que tudo. A imensa generosidade com que ela aceitava aquilo me deixou atônito. Outros níveis de entendimento. Eu lembro que,enquanto ela me contava a história, eu pensava que a grande iluminação era dela - a pequena faxineira do Butão que cruzou minha vida por alguns meses, há vinte anos.
 E há também aquelas outras palavras que se perderam no ar, que foram esbranquiçando e sugando toda a luz da manhã, até desaparecerem por completo. Essas as palavras que nunca se realizaram por completo, pois todos nós somos mestres em atirar palavras fora, pérolas a porcos e sentimentos na sarjeta. Esse parece ser o grande talento desta humanidade louca. Cada vez mais veloz, cada vez mais para fora, próteses, dentes, uma fatia de barriga bronzeada artificialmente e a ausência de sonhos. A garota de couro vermelho – uma camada do mil-folhas existencial.
 O sonho a que assisto, sentado em meu catre, no cenário da peça, tem exatos oito anos, quando eu e Cláudia Raia assistimos à montagem nova-iorquina do musical. Ali, no saguão do teatro, resolvemos que um dia montaríamos a obra no Brasil e plantamos nossa semente de esperança nos céus do inverno nova-iorquino. O mesmo ar gelado que envolvia Drolka na tarde de Paris, o mesmo gelo que transformou em fumaça as palavras de um outro inverno. As palavras de amor que não foram ditas e que permaneceram intocadas, aprisionadas no meio de tantas camadas. As palavras de amor que se realizaram e alçaram vôo. Todas as palavras de amor do mundo que, juntas, dão forma e cor aos sonhos dos que caminham por esta terra dos homens.


Buganvílias

 Então era isso o novo milênio?, eu perguntei assim que abri os olhos, no dia seguinte. Como a pergunta não foi diretamente endereçada a alguém, ficou perdida no ar, sem resposta. Um dia comum assinalou a chegada do milênio. Os dias, de vez em quando, são assim, impossíveis de se lidar. Quando querem, vestem sua melhor fantasia e desandam a lhe pregar peças, mas quando resolvem empacar, aí é o diabo! Os dias, quando decidem apresentar-se sem nenhum enfeite, são muito difíceis de atravessar, embora dia como qualquer outro, vinte e quatro horas na vida de um habitante deste planeta. Um dia comum, uma manhã, talvez, com a moça penteando os cabelos lavados, sentada na sala. A compreensão de que tudo continuará caminhando sem a sua presença.
 Foi Marília Pêra quem me falou desta sensação, algo que aconteceu com ela. Quando chegou em casa, numa manhã, após ter estado presa, na época de Roda Vida e do Comando de Caça aos Comunistas. Pois Marília entrou em casa e sua irmã Sandra, acho eu, penteava os cabelos na sala, o café na mesa e a vida continuando. Não sei se a cena era exatamente assim, mas lembro dela me falando desta sensação de que poderíamos ser retirados da história, sem grandes transtornos para a trama.
 Amanheci no novo milênio lembrando de muitas histórias. Todas as que ouvi nas coxias, nos intervalos, nos camarins. As histórias contadas pelos atores, sussurradas na coxia, à espera de uma deixa, ou bradadas numa mesa de bar. As histórias cheias da vaidade escancarada dos atores, a vaidade de brilhos e luzes e aplausos, a vaidade que os reconhece e que passam a vida tentando esconder, achando ser uma falta, aquilo que lhes é natural, direto da fábrica. As histórias narradas por quem é do ramo adquirem um sabor especialíssimo. E é delas que vou me lembrando nesse início de milênio.
 Zilka Salaberry me oferecendo uma fatia da história do nosso teatro, nas gravações de uma novela, falando que chegou a ver, menina, a grande Itália Fausta representando. Eva Todor com os olhos perdidos no horizonte me falando de suas viagens a Portugal, na época de sua companhia. Os atores que cruzaram a minha vida e que me fizeram a gentileza de abrir os corações e me contar histórias.
 O novo século trouxe junto a minha bagagem aberta e vistoriada. Saí arrumando as minhas histórias num arquivo novo, tentando contá-las, para que elas não sejam esquecidas. Histórias que ouvi de José Lewgoy, que é muito querido e que me encanta com seu charme e seu talento. Histórias de Ary Fontoura, de Luiz Gustavo, de Araci Balabanian, cada uma delas com o sabor diferente, com o estilo de seu intérprete. As histórias todas nas histórias de meu avô, sentado na cama, falando de príncipes e dragões. As minhas histórias que eu também dedicarei a alguém, um dia, protegendo aquela brasa com as mãos, com medo de que o fogo se apague.
 Vou soprando a brasa, fazendo o caminho de volta, o caminho das buganvílias, que tomavam uma parte do muro, na casa da praia. Todo um lado do muro era morada das buganvílias. E quando rebentavam em flor, aquilo era uma festa de cores. Eu olhava para elas, através das janelas escancaradas, sentado embaixo da escada, na manhã em que completei dezoito anos. Sei disso, porque alguém me ligou para dar os parabéns e eu fiquei rabiscando coisas no caderno de telefones, um que era comprido e imitava a forma de um aparelho de manivela, A capa de plástico colorido, as letras gordas anunciando PHONE BOOK em vermelho. Pois bem, aí, nesta caderneta, eu anotei um sonho, na manhã em que completei dezoito anos. Eu ia falando, olhando para as buganvílias e rabiscando coisas na última página.
 O curioso é dar de cara com a mesma caderneta anos depois. Como é que aquilo foi sobreviver, só Deus sabe. Mas ali está ela, cheia dos números de outrora, números que você sabia de cor, que eram de uso diário e que você já não disca mais. Já não chama mais. Curioso revisitar essa caderneta. Na última página, como uma descoberta arqueológica, um pedaço de meu sonho, rabiscado na manhã em que completei dezoito anos. Imediatamente tudo pára e o carrossel começa a girar muito rápido para trás, as manchas de cor ficando mais nítidas, até que se desenham outra vez as buganvílias. Pinceladas de cor, uma depois da outra, o pontilhismo da Ilha do Governador.
 Devo comungar com o resto da humanidade e trazer bons votos neste início de era. Não sei o que desejar. Mas seja ele qual for, será um bom desejo, prometo. Alguma coisa sobre liberdade, alguma emoção a ser compartida. Alguma esperança sempre presente, algum sorriso e um nível de entendimento mais elevado. Trago votos de entendimento e compreensão. E espero em troca outros votos. Os de perdão são sempre bem-vindos. Porque no final das contas, todos nós trazemos os braços cheios de buganvílias e esperamos que a nossa estação de vida também nos ofereça flores, também nos faça outra vez rebentar em flor. Queremos olhar para a nova temporada com direito a sonho e a esperança, com dias azuis, cheios de histórias fabulosas.
 Agora e sempre.
 Porque merecemos.


Casta Diva

 São Paulo, tarde de domingo, antes de sair para o teatro, sentado no escritório, o olhar perdido na tela do computador. Maria Callas canta Andrea Chénier, na tentativa de sua voz me trazer alguma inspiração, alguma arte. Lembro, de repente, de uma frase que ela disse, quando foi abandonada por Onassis. Ela disse que agradecia quando um dia terminava, porque era um dia de menos. Alguma coisa assim. Lembro que era triste. Muito triste. Um amor tão publicamente confesso deixado sobre o banco, como um embrulho esquecido.
  (É melhor eu começar outra vez.)
 São Paulo, tarde de domingo, antes de ir para o teatro. Os olhos que saem janela afora à cata de um motivo, que voam sobre a tarde quente e ensolarada. Uma tarde que me traz a lembrança de São Cristóvão, o céu do subúrbio incendiado no verão. Imóvel, a paisagem da memória. Imóveis todos aqueles dias, como se cada uma das pipas tivesse sido cuidadosamente pintada nos céus. Os meninos suados, emporcalhados e felizes. Uma boa fatia da infância - porões, sótãos, festas e um bando alegre e ruidoso. Tudo sempre foi motivo de celebração naquela família mediterrânea. Vozes que começavam a cantar e a casa que se enchia de sons e risos. Outro dia passei pela casa de São Cristóvão, ou melhor, pelo terreno que lá está, transformado num estacionamento. A casa foi demolida. Toda a beleza de sua arquitetura esparramada de varandas imperiais desapareceu. Restaram os risos e vozes bailando no céu de pipas pintadas.
 Maria está cantando Verdi, agora, e a trilha sonora me tira do céu da Leopoldina e me joga em outro lugar, o ar tão cristalino quanto à voz que brota do meu gravador. Maria canta com o coração ferido e a tristeza daquelas notas me faz suspirar e pousar as mãos sobre o teclado.
  (É melhor começar outra vez. A voz dela está impedindo o fluxo do meu pensamento. Fragmentos de sua história acabam se infiltrando na minha. Coisas que eu li, instantâneos de sua personalidade, a sua história tantas vezes contada, a diva que se deixou morrer por amor. Como nos fascina a tragédia dos amores desesperançados!, eu vou pensando, misturando tudo no cadinho da mente. Vou começar outra vez.)
 São Paulo, tarde de domingo, uma tarde abafada, o concreto criando corredores cheios de ar quente e, lá no alto, até onde a vista pode alcançar, há porções de um céu azul, sem mácula. Maria Callas canta Madame Butterfly e todo o amor que uma mulher é capaz de oferecer se derrama pela sua voz. Com a tranquilidade da coleta. Com a serenidade da escolha. As mulheres são infinitamente mais intensas na entrega e no amor. Todo o mistério e toda a criação nos seus corpos delicados. Assim é a voz que me embala, nesta tarde de domingo: a delicadeza e fragilidade da soprano acabam em torrentes de fúria e paixão. Eu vi Callas no livro, numa de suas últimas fotos, roubada por uma câmera indiscreta: ela está na janela de seu apartamento, em Paris, olhando para o vazio. O olhar já tinha ficado para trás, ela já tinha partido, eu acredito. Porque partimos, às vezes, antes dos corpos físicos pararem. Partimos e vamos em busca daquela fatia de tempo em que as coisas tinham um colorido mais vivo. E ficamos por lá, corações e almas, mentes cheias de um brilho esperançoso, enquanto nossas carcaças avançam por aqui. Essa é uma das minhas fantasias góticas. Zumbis por toda parte. Corpos abandonados pelas ruas, pelas alcovas, pelas solidões da grande cidade. Corpos de gente que ficou para trás por escolha, por desejo, por saudade. Porque há momentos na vida em que a gente tem de ficar para trás. Simplesmente não se quer mais ir em frente. São decisões que devem ser respeitadas. Em que porto terá descido Maria Callas? Em que porto resolvemos descer e sair em busca daquilo que ficou por realizar?
 Agora acabei de escancarar a janela e a tarde vem me chamar dentro do cômodo, estendendo um braço afoito de luz pro meu lado. Metade da tela do computador ganhou um amarelo brilhante e a voz de Maria Callas ganha uma cor toda especial com o tanto de luz que inunda o aposento. Fico na janela praticando um exercício que alguém me ensinou, um dia: o de olhar além. O exercício de estender o olhar para além das edificações, além das mágoas e além das tristezas. Vou afastando aquele mundo de apartamentos e vidas e concreto, tentando ganhar outras paisagens, embalado pela voz de Callas.
 São Paulo, fim de tarde de domingo, logo chega o crepúsculo e eu emudeço Maria Callas, porque já são horas! Jogo uma água no rosto, olho pra minha imagem no espelho e saio de casa na hora em que a luz começa a cair, pintando o alto dos edifícios de um alaranjado forte. Vou guiando pela dureza da cidade, preguiçosa nesse fim de tarde. O resto de luz do dia se vai de vez, quando mergulho para as coxias, porões e camarins. O mundo subterrâneo dos atores. As suas histórias cotidianas, os seus sonhos loucos, as gargalhadas teatrais, as vozes que se elevam num alarido alegre, para depois irem se aquietando, silenciando, os olhares concentrados no trabalho, no ofício.
 São Paulo, sete e vinte da noite. Estou na coxia, preparando minha entrada em cena, apenas um segundo, antes de voltar à personagem. Aquela tarde quente resolveu se desmanchar em chuva e, no palco, eu posso escutar o aguaceiro que despenca sobre a cidade. Respiro fundo, olho para o fundo escuro do urdimento, penso em Callas e caminho de volta à cena, decidido a viver uma vida que não a minha.


Talvez por causa de Antonioni

 Todo domingo é tudo sempre igual. Uma correria. Ao final do espetáculo, em São Paulo, as respirações vão ficando alteradas, há uma excitação infantil nos olhares, na penumbra das coxias. Daqui a pouco, finda a apresentação, vamos voltar para casa. E corremos, ainda com os aplausos ecoando nos ouvidos, para o aeroporto. Tuca Andrada vai dirigindo o carro pela avenida iluminada, enquanto Caetano canta em homenagem a Antonioni e a paisagem, depois de tantas vezes vista, vai sendo reinventada. São Paulo vai passando pela janela numa velocidade outra – dentro do carro, encerrados na câmera fria do ar condicionado, viajamos numa outra cadência, mais lenta, mais saborosa, ouvindo as palavras musicadas de Caetano, ainda com os ecos do aplauso, ainda com outra música nos ouvidos, que aos poucos vai dando lugar a esta.
 Talvez por causa de Antonioni, começamos a falar da estranheza que é olhar para o mundo, em determinadas épocas da existência. Todos nós atravessamos períodos assim – imensidões desconhecidas. Todos nós perdemos o prumo vez ou outra e, se não perdemos, vivemos com a nostalgia daquilo que não chegamos a conhecer. Mas há períodos que são difíceis para todo mundo. Como era mesmo que a Greta Garbo dizia? Vamos pular a adolescência, não tive nenhuma. Tuca foi falando e o carro cortava o domingo paulistano, em direção ao aeroporto. Por um momento, ficamos todos em silêncio, certamente buscando aquela fatia de vida, remexendo a dor que pode ser a entrada no mundo adulto. Ficamos todos com os olhos perdidos na vinte e três de maio, a avenida que leva ao caminho de casa e eu quase podia sentir o peso dos óculos grandes, uma armação austera demais para um menino daquela idade. A adolescência é quando temos a consciência da crueldade que pode habitar nos corações do mundo. Da noite para o dia, um indivíduo resolve brotar da sua pele, alargando os poros e ganhando a superfície e você nem sempre sabe o que fazer com aquela pessoa em quem você resolveu se transformar. E foi com essas lembranças na ponta da língua que levantamos vôo rumo ao Rio.
 Mais tarde, já em casa, li os jornais da semana, gostei de uma lembrança do Xexéo, o rosto de Paula Prentiss preencheu a noite e, junto com ela, vieram os bailes na casa da Ilha, quando a família veraneava lá e as primas mais velhas reuniam a rapaziada para dançar. Um mundo de baladas românticas e perucas de aplique. Um rastro de delineador plástico na louça branca do banheiro. O perfume do talco no colo de minha avó. O sabonete de pinho de que minha mãe gostava - verde, redondo, uma espuma perfumada coroando as descobertas. Uma festa de memórias me trouxe a memória de Xexéo.
 Todo domingo é tudo sempre igual. Chego ao Rio na última ponte aérea e já é tarde demais para ver alguém, ou sair e encontrar amigos. Então, checo a correspondência, escrevo um pouco e, depois, vou olhar a mata, antes de dormir. Aproveito e faço um pequeno balanço da semana, as coisas que vivi, os rostos que cruzaram meu caminho, os sorrisos que recebi, as pequenas alegrias que a vida me ofereceu e que me servem de combustível.
 Na caixa de correio, uma mensagem de uma leitora que reclama da linha nostálgica da crônica e me aconselha a dançar um axé, para levantar o astral. Devo-lhe uma explicação: não sou uma pessoa triste, muito pelo contrário. Pergunte àqueles que privam de minha intimidade. O riso tem sido meu companheiro há tempos! Não é tristeza, acredite. É um pouco de busca, um pouco de cansaço, um pouco de angústia existencialista, que ninguém é de ferro, um pouco de saudade, um pouco de arrependimento e uma esperança que nem eu sei de onde vem e que eu secretamente chamo de benção.
 Não é tristeza. É um olhar que se estende sobre a mata adormecida e uma pergunta que soa no meu ouvido, enquanto o céu é um tecido das mil e uma noites, cheio de estrelas: que sei eu disso tudo? Um silêncio de morte e, depois, uma estrela despenca no horizonte na direção do Recreio dos Bandeirantes. Não aceito a resposta cifrada.
 Que sei eu das coisas deste mundo? Que sei eu das canções que andam tocando por aí, esses músicos de todo o sempre? Não sei nada de nada - não sou nada além deste bloco escuro que é a mata mergulhada na noite. Que sei eu, afinal, dessa gente que cruza por mim nas ruas? Que sei eu da mulher que me sorri e me pede um nome num pedaço de papel? A raiz escura, os cabelos descolorados, ainda atônitos face a violência da química, e olhos cor de mel embaixo de uma camada de sombra cintilante. Ela bate as sandálias no piso do aeroporto e desaparece na noite, numa carreira de saltos altos. Que sei eu, além da floresta, além da mata adormecida? Os verdes mergulhando em outros verdes, tanta rama se abraçando, a trama se adensando até virar parede e muro. Talvez por causa de Antonioni, não sei. A mata hoje está me parecendo estranha - as tramas de suas ramas apresentam um desenho inusitado. Talvez por causa da canção. Por causa de Caetano cantando para Antonioni.
 Na verdade, os domingos nem sempre são iguais. A gente é que teima em continuar o mesmo.


Choro de verão

 Estamos todos aprisionados na sala de embarque do aeroporto de Congonhas, enquanto chegam as notícias do mundo lá fora: o céu do Rio de Janeiro derrama o seu pranto costumeiro de verão. Esta é a estação em que o céu chora, lamentando os amores perdidos em outros verões. Mas, depois, quando raiar o dia, eu penso, vai nos trazer uma serenidade luminosa. A beleza das manhãs do Rio depois de uma noite de tempestade é sempre digna de nota. Sempre útil para se carregar na lembrança. Pode preencher uma lacuna, como esta, agora, amontoados na sala de embarque, à espera que o céu se abra para nos dar passagem.
 No último vôo de domingo, encontram-se os elencos que voltam para casa, depois da semana em São Paulo. Estamos todos indo bem, graças a Deus, e todos voltamos cansados e saudosos da toca, do canto desta cidade, da luz que se esparrama por aí. Rosamaria Murtinho e Cláudia Raia falam de Chita Rivera, a estrela da Broadway que fez a Mulher Aranha na produção americana. Eu digo que quero fazer “My Fair Lady”, quero fazer o Professor Higgins e Mauro Mendonça lembra de Jayme Costa fazendo o papel do pai de Eliza, na montagem com Bibi Ferreira. Conversas de atores, histórias engraçadas, comentários sobre o público, porque falamos tanto deles quanto eles de nós, com certeza. O interesse, se há, é mútuo. As horas vão passando e nós ali, com o olhar cheio de saudade de casa. Definitivamente, os domingos são bem diferentes uns dos outros.
 Depois, lembramos de nossos amigos argentinos que estiveram aqui, auxiliando na montagem da peça. Fizemos bons amigos. Dedicados, carinhosos e muito profissionais. Foi um prazer. Duas culturas latinas, dois olhares sobre o fazer teatral debruçados sobre um musical americano, por sua vez baseado no romance de um escritor argentino, mas que era um cidadão do mundo e das telas de cinema. Foi um processo muito interessante nas nossas vidas profissionais. Estávamos todos com os dedos abençoados na escolha da companhia. O elenco é uma festa de carinhos e sorrisos.
 E lamentamos, também, que a Argentina estivesse atravessando um período tão difícil, tão cheia de gente querendo fazer o caminho de volta, buscando outras nacionalidades, outra pátria, outro chão para amar. Tudo aquilo que nós conhecemos tão bem. Toda aquela mágoa que a gente carrega um pouco no peito, sim, porque há um certo rancor que vai se infiltrando nos corações, um certo desdém, um olhar de peixe morto para tudo aquilo que poderia ter sido e não foi. Há uma parcimônia de elogios e uma escassez de auto estima por toda a parte. Aqui como lá. A saga das colônias, o sangue derramado, o amargo que a gente traz na boca. Quase que românticos ao sonhar com um herói, um novo libertador, alguém em quem acreditar, alguém em quem confiar sua palavra, seu destino, seu país, seu chão que você precisa amar.A coisa é por aí, eu acho. Aqui como lá. Barcos e horizontes, sonhos e esperanças na busca da terra prometida. E, para coroar a lembrança e matar as saudades, contamos mais histórias de bastidores, enquanto a noite avançava e os céus se recusavam a nos receber.
 A notícia do acidente com Herbert Vianna correu pela sala e houve uma ausência de palavras. As meninas do Leblon ficaram atônitas e tristes, muito tristes, porque os Paralamas sempre foram artistas muito queridos por todos e é sempre uma violência quando coisas ruins acontecem com pessoas boas. Há até best-sellers escritos sobre o assunto, se não me engano. Fica difícil entender, fica dificil acreditar. Definitivamente, os céus não estavam cheios de amor no domingo. Nada acolhedores, um choro de amor perdido, um grito de boca escancarada, igual a um trovão. Porque eu já disse que o estio é a época de saudade, quando os céus choram o tanto de paixão humana jogada no ar, que os ventos acumularam nas alturas.
 Quase meia-noite, veio a notícia de que não poderíamos voltar para casa e fomos saindo para a noite paulistana, um ar seco e desencantado de domingo adormecido. Todos pensando na chuva que desabava sobre o Rio, pensando na beleza de paisagem que íamos encontrar no dia seguinte. Atores e restos de personagens se alojando nos hóteis da vizinhança.
 Estou escrevendo esta crônica às seis horas da tarde de segunda-feira, já resolvendo o início da semana. Durante todo o dia, a paisagem foi exatamente aquela que imaginei, ontem, trancado na sala de embarque do aeroporto de Congonhas. Estou ouvindo uns noturnos de Chopin e está acontecendo uma coisa impressionante aqui fora, para além da varanda: a passarinhada começou a cantar e as cigarras engrossaram o coro. Chopin teria ficado tão feliz, se ouvisse isso! Estão fazendo uma sofisticada improvisação sobre os noturnos dele. Pelo menos é o que parece. É no quero acreditar. Mais um pouco e a paisagem incendiada vai se apagando, a noite vai caindo e é outro o céu que se estende sobre nós. Cheio de estrelas e música. Cheio de uma esperança renovada. De alma lavada e de cara limpa. Quem poderia imaginar, ontem, naqueles silêncios de perda e ansiedade, que hoje o céu estaria sorrindo? Quem? (No silêncio cheio de significados, ao som de Chopin, cai o pano.)


Toda uma vida

 Para muitos de nós, começos são particularmente difíceis. O início, o prólogo de qualquer coisa é uma tarefa árdua. Começar a escrever é uma tarefa difícil para mim. No caso dessas crônicas, principalmente. Talvez porque eu tenha aceitado o conselho do mestre Rubem Braga, para quem escrever sempre foi viver em voz alta. Talvez por isso. Por não conseguir ídentificar o começo de uma nova cena, um novo capítulo, na novela das nossas vidas. Os começos para algum de nós são realmente problemáticos. Para mim, sempre foram.
 Mas, depois da coisa começada, depois que as primeiras palavras buscam seu lugar no texto e os adjetivos começam a agir com elegância, então escrever torna-se um prazer único. Por exemplo, hoje não sabia por onde começar, até que lembrei dos olhos de Dulcina de Moraes, duas contas escuras, na foto que ilustra a capa do belo livro de Sérgio Viotti: Dulcina e o teatro de seu tempo. Uma bela homenagem a uma figura ímpar dos nossos palcos, uma grande estrela, a figura mais importante do teatro brasileiro neste século, segundo Fernanda Montenegro.
 O livro de Sérgio Viotti é um passeio pelas coxias e palcos de décadas atrás, uma narrativa elegante e envolvente. Uma coisa boa de mergulhar, essa fatia de história, esse pedaço de Brasil que Sérgio Viotti resgata e salva para um futuro que se avizinha saudoso de Brasil, saudoso de história, saudoso de espelho. Eu sei é que os olhos dela, aqueles olhos de tantas mulheres, aquela brasa, de tantas paixões teatrais brilhando ao fundo, acabou por me fazer lembrar do único encontro que tive com a grande estrela, ela já no fim da vida, não sei quantos anos teria, mas era ainda uma figura impressionante.
 Foi há coisa de onze ou doze anos atrás, não estou bem certo. Eu e Guilherme Karam, após uma longa temporada carioca, saímos mambembando com Sereias da Zona Sul. Fizemos o Brasil inteiro, colhemos a alegria dessa gente toda que anda por aí, brasileiros de gargalhada generosa. De tudo o que o teatro me deu - e ele tem sido extremamente generoso comigo – talvez a minha maior lembrança, o meu maior tesouro seja o riso que venho colhendo nesses anos de palco. A gargalhada que nasce do fundo, das entranhas, que rouba o chão e desata os nós. Aquele som inteiro que se eleva do escuro da platéia. Mas, voltando à história, depois de uma temporada linda, terminamos em Brasília, com o Teatro Nacional apinhado de gente (e, diga-se de passagem, todos tinham combinado lá fora que iam gostar muito.) O último espetáculo de Sereias da Zona Sul, em Brasília, foi um momento de emoção e riso raros. Quem estava lá, pode confirmar minhas palavras.
 E, mergulhada nas sombras do camarote, estava Dulcina de Moraes. Jacqueline Laurence, nossa diretora, fora sua aluna e a levara para assistir ao nosso último espetáculo. Que, como toda última vez, é sempre emocionante, já que cada frase dita não mais será repetida. Eu sempre me comovo muito ao me despedir de uma personagem. E ela, sabedora de seu final próximo, meio que agarra-se a você, com olhos suplicantes, pedindo para ficar mais um pouco, com medo da escuridão, acostumada ao brilho das luzes. Enfim, eu e Karam tivemos um momento para lembrar naquela sessão mágica. Dedicamos o espetáculo a ela, dizendo que, na Inglaterra, a rainha conferia aos atores ilustres os títulos de sir e dame. Aqui, onde o vento faz a curva e sai bailando com graça, não temos dessas coisas. Pelo menos não oficialmente. Mas nos corações sabemos quem são nossos sirs e nossas dames. De modo que oferecemos o espetáculo a Dame Dulcina de Moraes e o Villa Lobos veio abaixo, literalmente. Já faz uma década e parece que foi ontem, ainda sou capaz de ouvir o estrondo daquele aplauso uníissono.
 Mais tarde, ela veio ao camarim, amparada, já bem idosa, mas com olhos brilhantes e voz inconfundível. Conversamos, reverenciando aquela lenda do teatro brasileiro, que estava ali, ao nosso alcance, nos chamando de colegas, um sorriso de atriz desenhado no rosto, uma dignidade de grandes heroínas, as protagonistas que ela encarnou pela vida afora.
 Saímos caminhando, ela no meio, braços dados comigo e com Guilherme. Passos lentos, devagarinho, atravessamos as coxias monumentais do teatro e, cruzando o palco, com a cortina aberta, a platéia vazia nos olhava com um ar solitário. Ela parou no meio do palco e virou-se para a penumbra. Ficou em silêncio, olhando para as poltronas, depois sacudiu a cabeça e compreendeu:
 - Que alegria vocês devem ter tido esta noite! – ela disse, apertando nossas mãos, como a estrela comungando com parceiros de cena, no agradecimento final. Depois, repetiu: – Que alegria!
 Aquela mulher tinha passado toda uma vida no palco. Eu tive uma vontade imensa de chorar.