Nunca mais nessa vida

 De vez em quando, alguém diz o teu nome ao pé do meu ouvido. Escuto com claridade o teu nome e ele vai vibrando em ondas até o centro da minha cabeça. Acho que acontece com todo mundo, não sei. Um nome que se faz ouvir no silêncio, trazendo com ele uma melodia outra, facilmente reconhecível e cheia de saudade.
 Aconteceu ainda agora. Eu deitado na cama, assistindo ao vídeo daquele filme do Tom Hanks, The Green Mile. Estava muito entretido com a história, quando o teu nome se fez ouvir. Cheguei até a virar a cabeça, achando que alguém tinha entrado no quarto, mas foi impressão. O quarto estava vazio, até meio abafado com esses ares quentes que sopram entre as chuvas. Tom Hanks na televisão e mais ninguém. Mas tenho certeza de que alguém sussurrou teu nome, como quem suspira.
 Algum espírito desocupado, com certeza. Disse o teu nome, sabendo que iria me desassossegar e de quebra acordou a lembrança das cigarras que abandonavam a pele nos troncos das árvores, na infância de São Cristóvão. Costumávamos usar a casca das cigarras no peito, como uma medalha. Depois, elas eram esmigalhadas sob o pés velozes das crianças. Umas cascas avermelhadas, castanhas, agarradas ao tronco com garras serrilhadas. Tenho andado com esse odor nas narinas, o cheiro forte de São Cristóvão no começo do estio. A fumaça perfumada do sabão e do açúcar encharcando os primeiros anos.
 E sempre as pipas no céu do subúrbio. Sempre esse azul imóvel, brilhante. A nitidez das cores da lembrança é impressionante. Acho que, ao contrário do que dizem, a lembrança vai ganhando cores cada vez mais vibrantes, com o passar dos anos. Os amarelos e vermelhos dos nossos verões inesquecíveis brilham na frente dos olhos, em contraste com as cores do cotidiano. As pipas de todas as cores pintadas no céu da memória.
 Hoje, estou desatando essas imagens de amor. As minhas, as nossas imagens de amor, porque as coisas são como são: no momento em que escrevo e no momento em você lê, abrimos esses arquivos de imagens geradas a partir do amor que são, vamos admiti-lo antes que seja tarde, os nossos arquivos prediletos. Tudo o que realmente nos interessa está arquivado ali. Na câmara escura das nossas recordações. Imagens que vamos recolhendo vida afora. Elas têm nome e uma história para contar, cada uma delas. E nostalgia, meu amigo, nada mais é do que a saudade da emoção vivida, num determinado momento que passou veloz. Emoções e emoções e ainda tanta emoção a ser vivida! Muito além dos indivíduos, além das particularidades. E todas essas químicas se processando no nosso corpo, pois há quem diga que amor nada mais é do que uma sensação provocada, para evitar a loucura da espécie e perpetuar o predador. Uma ilusão passageira, uma descarga de substâncias certas no sistema. Lubrificação. Cuidados com a máquina.
 Seja lá o que for, andei tomando resoluções práticas para a existência, por isso o título da crônica. Porque nunca mais nesta vida quero ter saudade de beijo. Nunca mais a nostalgia daquele mundo de línguas dançando balé no céu das nossas bocas. Nunca mais! E juro que nunca mais nesta vida quero tentar entender o amor. Quero deixar que ele passe por mim, como um pé de vento que sopra folhas e poeira num arranjo aprumado. Eu fico ali, no meio do redemoinho, só achando tudo muito bom. Depois, o amor se vai e a gente continua a tocar a existência. Assim é que deve ser.
 Nunca mais nesta vida quero gente se indo. Já está de bom tamanho. Coração da gente vai absorvendo os golpes (que são muitos e de todos os lados, sempre. Com quase todo mundo é assim.) De repente, as pessoas começam a ir embora, por morte matada e morrida, por desamor, por tristeza, por ansiedade, por medos diversos, seu coração vai recebendo as pancadas e uma hora dá vontade de dar um berro, sair vomitando as mágoas todas que a gente foi engolindo. Nunca mais gente partindo sem motivo aparente, sem dar nome aos bois ou uma denúncia vazia. Nesta vida, nunca mais!
 E nunca mais, nesta breve passagem, a palavra não dita, o gesto parado no ar, dissolvido antes do afago. Nunca mais a dose nossa de orgulho besta, a solidão das noites perdidas por amor desenganado, o coração parado, à espreita. Isso, não. Quanto mais o tempo passa, mais a urgência da felicidade ilusória e a química do bem estar, essas coisas todas que se operam em nossos íntimos.
 Nunca mais. Nunca mais um dia atirado ao nada, nunca mais o verbo que não se completa, todas as palavras que não foram ditas, todas elas, uma após a outra, formando frases, pensamentos, sentimentos, amor costurando o texto, que é linha que não se refuga de jeito nenhum. Nunca mais. O coração se magoando todo o dia, a gente engolindo sapos e lagartos e se esquecendo de que é capaz de mudar cada uma das histórias, reescrever o livro das nossas vidas. Uma hora mais cedo e a cena teria sido outra ou o que teria acontecido se você não tivesse ido àquele lugar, àquela noite, quando o universo conspirava contra nós? Quem é que vai nos explicar? Certamente não esse espírito brincalhão que passou por aqui e sussurrou o teu nome.
 Por isso, repito: nesta vida, nunca mais!


Algumas imagens

  Uma orquídea rebentou em flor esta semana e, quando cheguei de São Paulo, ela estava lá, toda prosa, agarrada ao galho da árvore, ostentando um exagero de enfeite. Seis flores de uma vez, brancas, imaculadas, com uma mancha de paixão no centro de cada uma, como pequenos corações selvagens. Uma beleza. Nasceu sozinha, agarrada àquele caule, uma parasita com grande poder de sedução. Sem a perícia nesta arte, a espécie não sobreviveria. Pensando bem, nenhum parasita sobreviveria sem sedução, aí está um pré-requisito para o sucesso deles.
 Considerações sobre quem vive do esforço do alheio à parte, era inegável a beleza das formas que ela apresentava, de modo que almocei de olho nela, que balançava no galho, recebendo os aplausos da brisa. Fiquei imprimindo a imagem na retina, arquivando o encanto do momento, porque nos dias que correm é sempre bom ter uma ou outra imagem dessas nos arquivos. A gente nunca sabe quando é que vai precisar delas.
 No túnel do elevado, uma cena insólita: um mendigo dorme, envolto em seus panos sobre o leito de concreto. Ao fundo, a parede de rocha molhada pela chuva, brilha à luz fria da tarde, que se derrama pedra abaixo, como água. O corpo envolto pelos andrajos recebe, ele também, um jorro de luz, recortando a figura de encontro à rocha escura e brilhante. Uma visão urbana dos martírios. Um quadro sacro, perfeito, de cor e luz - apenas o tempo exato para os olhos compreenderem e desfaz-se a imagem na passagem veloz do carro.
 O trânsito ralenta na saída do túnel. Muita gente nas ruas, muita gente por toda a parte, bandeiras e folhetos voando. A cidade movimenta-se para eleger um novo alcaide, sob um céu enjoado, indeciso, sem nenhuma proposta aparente Mas ainda assim ele resolve desmanchar-se em chuva, uma pancada súbita, inesperada e a água despenca de uma só vez.
 Mais mendigos no sinal. Crianças correm sob a cortina de água e vão estendendo as mãos, colando os rostos nos vidros, olhos pedintes por todo lado. Tivéssemos lenços de cambraia à mão, certamente os levaríamos aos narizes, como a dama inglesa na Índia. Peggy Aschcroft, David Lean, Foster e todo aquele jazz. Colonizadores de mãos férreas. Escravos por toda a parte, abrigados sob as marquises, olhos tristes e sonhos despedaçados. Nunca houve nada de novo na história da humanidade. Nunca. Mas, hoje, algo está acontecendo, pois mesmo durante a chuva a luz era rara. Um céu de anjos, eu tenho certeza, e outra vez a iluminação é generosa e é impressionante aquele grupo de pessoas, amontoadas na calçada da esquina, aguardando o sinal. A luz desta tarde está transformando a cidade numa pinacoteca maravilhosa.
 Já no meio da Lagoa, pára de chover. O cartão-postal é um clássico e refrescar a imagem é sempre uma necessidade bem vinda. Quantas vezes já bebi da beleza desta cidade, quantas vezes as suas extravagâncias já me encheram o espírito e abrandaram a vida! Uma transparência púrpura paira sobre a lagoa, uma lembrança da panela de permaganato de potássio. Ametistas derretidas no alto verão. Um calor alaranjado e uma descoberta nova a cada dia. Depois veio sexo, sexo e mais sexo. E todos os aromas da adolescência, o corpo rebentando em flor ele também. A história de todos nós.
 Mendigos por toda parte. A gente assimila a miséria, passa a olhar através. Ou melhor, olha e deixa de ver. Inventa histórias para a sobrevivência. E, de certa forma, continuamos todos com os lenços de cambraia nos narizes, na nossa passagem para a Índia. Salvo as honrosas excessões daqueles que conseguem sair da roda e verdadeiramente tentar mudar alguma realidade. No Humaitá, a cena se repete, sem chuva. O carro é cercado por olhos e bocas e fome e nenhuma possibilidade de amanhã. Essas nossas vidas nas savanas de concreto.
 E, depois, Copacabana, que sempre ferve nos dias de eleição, bermudas de lycra, mãos nos cabelos pintados de acaju e um ar de resignação no rosto cansado, lá pelo meio da fila. Copacabana vai mostrando suas cores sem estudo, sem espaço, sem esboço, mas há uma beleza na tentativa. Há um sonho de esplendor na bermuda de lycra que a faz imaginar-se a mais desejável das mulheres. Há uma poesia na tentativa de se alcançar o que quer que seja. Gentes de todas as partes e todas as cores e todos os traços. O bairro está nas ruas, nas janelas, nas sacadas, na solidão de um rosto que se debruça num segundo andar da Nossa Senhora de Copacabana. Eu gosto muito de Copacabana. O avesso do avesso do avesso.
 À noite, acendi as luzes e fiquei na varanda um tempo, admirando o céu sem brilho e sem estrelas. Vinha música de algum lugar e eu fiquei feliz por estar em casa, outra vez. A orquídea roubava a luz que vazava da varanda e brilhava no manto escuro da noite, como uma jóia no vestido de uma atriz. As imagens foram se embaralhando na minha cabeça e Maria gritou que César Maia tinha vencido e Martha Suplicy também, em São Paulo. Novos sonhos, novas esperanças. Isso é bom.
 Isso é sempre bom.


A vida secreta das epífitas

 Devo desculpas aos leitores e, principalmente, às orquídeas a quem, inadvertidamente, chamei de parasitas na última crônica. Obrigado a todos os que me corrigiram. Aprendi que são epífitas, etc e tal. Houve quem me admoestasse com carinho, houve quem soltasse cães ao meu encalço mas, segundo o Aurélio, o erro é usualmente cometido e eu não sou melhor do que ninguém e nem me proponho a tal. Sarita aprendeu comigo, pois tinha vindo me visitar e acabou participando da história.
 - E qual é a diferença? – ela pergunta, olhando para a ponta da unha que está pintada de vermelho muito escuro.
 - Parasitas são mais violentos, roubam sua nutrição da seiva do hospedeiro e podem matar. As epífitas apenas se apoiam sobre outros vegetais, em busca de uma melhor incidência de luz, acredito eu. Não machucam o hospedeiro, só se encostam.
 - Então, fui casada anos com um epífito, sem o saber. - Sarita reprime um bocejo. - E também costumava chamá-lo de parasita.
 Ela caminhou comigo até a varanda, onde ficamos observando as formas do cacho de flores em questão. O crepúsculo estava uma perfeição de cores, aromas e aragens e nós ficamos ali, aproveitando aquele momento, quando a poesia das coisas se insinuou lenta e amorosa em nossos corações.
 Minha orquídea continua linda, generosa, roubando a luz da lua nas pétalas claras. Não deve ter tido notícia do meu comentário, pois me olhou com uma graça especial, depois de agitada pelo vento.
 Mas ela ficou para trás e mergulhei novamente no concreto luxuoso de São Paulo. A cidade me recebe desenfreada, uma serpente interminável de lanternas vermelhas brilhando no engarrafamento sem fim. Corro para o ensaio, primeiro dia no teatro, o cenário terminando de ser montado, aquela gente toda trabalhando, cada um concentrado na tarefa de criar sua parte de ilusão.
 Divido um camarim com Tuca Andrada e a gente começa a trazer uma coisa ou outra, vamos chegando aos poucos, como quem respira o primeiro ar de uma nova morada. Uma escova de dentes, um pacote de algodão, um pó compacto, uma cera para fixar cabelos são os primeiros habitantes da nossa bancada comum. E um pé de pimenta todo cheio de fruto, todo cheio de um verde que mergulha na vertigem do vermelho, presente da bela Raia. Dizem que não há quebranto que resista à pimenteira. Bom, camarins e coxias combinam perfeitamente com sussurros e sortilégios, de modo que ela parece muito à vontade onde está.
 Começam também a brotar em mim as inseguranças ancestrais. A proximidade da estréia aflora os medos e, às vezes, eu me sinto naquele carrinho da montanha russa, no exato momento em que você se arrepende por ter-se deixado arrastar. É claro que a descida sempre foi prazerosa, ou eu já teria tomado outro rumo. Mas a verdade é que a relação com a personagem e com o projeto nunca pode ser a de uma epífita com sua árvore. Ou a personagem crava os dentes e começa a nutrir-se da sua seiva, ou a mágica não acontece.
 Escrevi ainda outro dia sobre o Tablado e volto a ele, porque preciso lembrar das minhas esperanças primeiras, preciso levar o coração à fonte, vez ou outra. De modo que mergulho numa lembrança de veludo púrpura, o manto da minha primeira personagem, o mestre dos violinos. Lá vou eu em busca desses sonhos. Novamente transparências púrpuras. E insônias. A cabeça produzindo imagens e mais imagens. O camarim do teatro João Caetano, ainda antes da reforma, caindo aos pedaços, a chuva escorrendo pelas paredes, invadindo os corredores, uma indigência apavorante e a pergunta bailando no ar, nos olhos de tanta gente a minha volta: é essa a sua escolha de vida?
 Era essa a minha escolha. Nunca me arrependi. Ainda que eu sonhe com aquele repousar sobre o caule alheio, recebendo o afago do sol da manhã nas minhas folhas agitadas. Deve ser muito bom deixar-se ficar na contemplação do dia que passa. Apenas reclinar-se sobre o outro, tocar-lhe a carne e ficar ali, parado, imóvel, tentando entender o que não tem resposta. Tantas e tantas vezes esboçamos viver assim, não é verdade? Nossos desejos secretos de sermos epífitos ao longo da existência.
 Eu nunca consegui. A grande maioria de nós não consegue. A voracidade da vida acaba nos atirando ao solo, que é o lugar de nossas raízes. A grande maioria de nós dá corpo às matas e às florestas, enquanto sonha em ser apenas um adorno plácido sobre o tronco da vida.
 Não vale à pena ficar pensando nisso. Deixemos as epífitas de lado e cuidemos dos nossos cotidianos. Antes de terminar a crônica, peço àqueles que tão gentilmente me informaram sobre a existência das epífitas, que me respondam mais essa pergunta, uma dúvida que nasceu ainda agora na minha cabeça: elas já nascem ali ou chegam nas alturas de um caule por meios que desconheço?
 Aguardo a vossa resposta. Por ora, eu me despeço.
 Post-scriptum, como pensamento:a poesia das coisas se insinua lenta e amorosa em nossos corações. Se não me engano é Antero de Quental. Poeta.


Corações selvagens

 Um par de olhos me espreita no caos da tarde paulistana, uma tarde inexplicavelmente azul. A sinfonia desenfreada das buzinas não é a trilha sonora ideal para o encontro, mas fazer o quê! Eu a vejo por detrás do vidro, muito empertigada para tão pouca idade, um ar digno, muito à vontade na sua condição. Imaculadamente branca, como um pedaço de nuvem que viesse dar cá embaixo, depois de perdido o rumo. É uma cadela Akita de quase três meses e todos ficamos apaixonados pela sua graça e elegância. É um bebê, com toda certeza, absorvendo vida por todos os poros, mas um bebê elegante, cheio de uma alegria sólida. E, como o vidro atrás do qual ela estava era a vitrine de uma loja, o final da história fica previsível: acabou cruzando os céus num avião, rumo ao Rio de Janeiro e, agora, dorme aos meus pés, enquanto escrevo a crônica.
 Cães e gatos cruzando a nossa existência, companheiros inseparáveis dos nossos dias. Olho para a nova habitante desse nosso lar e vou lembrando de outros companheiros de viagem. Salta no parapeito da janela o gato Faraó, todo cinza, de olhos alaranjados. Vivemos juntos por um longo período, até que um dia ele resolveu partir e eu achei que ele seria mais feliz no interior - gatos combinam com troncos de árvores. Gatos combinam com os quintais das nossas histórias comuns.
 Os gatos dormindo ao sol na casa de Fernanda Gianetti, professora de canto de toda uma geração. Seu estúdio era coberto de fotografias de seus alunos, ilustres ou não, e eu lembro que a gente ia cantando os exercícios do Vaccai e sonhando acordado. Jovens vozes na pequena rua do Jardim Botânico. Gatos por toda parte. Sempre houve muitos na minha vida. As paredes todas cobertas por sorrisos de celebridades e os sonhos todos voando por ali. Porque creio que concordamos todos com o fato de serem aladas, essas emoções que brotam na alma. Sonhos e gatos. Faz muito tempo. Ou foi ainda ontem mesmo. Que sabemos do tempo, afinal?
 Olhos azuis de uma outra cadela, olhos amarelados das gatas que foram testemunhas silenciosas das minhas conquistas, das minhas tristezas, das noites em claro e dos dias no escuro. Os gatos todos têm nomes secretos e o coração selvagem. Madrugadas sobre os telhados, voando sobre a cidade, miando nossas canções de amor. Todos os nossos gritos de amor e esperança. Todos os nossos uivos de solidão, nossos medos, nossas gargalhadas e a cesta básica de ilusão. A mágica nossa de cada dia nos dai hoje, porque antes do pão vem a esperança do pão. Uma idéia de pão, vaga e imprecisa que cutuca o estômago mais tarde.
 coelho nos braços do menino que chorava. Comprou-se o animal na feira, para ver se assim o pranto cessava. Não era um macho, como se pensava. Era uma fêmea grávida e, dois anos depois, os coelhos eram muitos, inúmeros. Coelhos por toda a parte, abrigados nas grandes gaiolas que meu avô construía. Um dia, um mestre de obras que trabalhava com meu pai matou um dos mais gordos e preparou o assado. A choradeira foi geral e a náusea dominou a família suburbana. Foram-se os coelhos, foram-se os hamsters, o mico roubado de sua mata, aquele que cravou os dentes na minha mão que lhe estendia uma manga. Todos são fotografias amareladas pelo tempo. E, depois dos coelhos, chegam os macacos. Macacos por todo lado nos dias que correm. Gosto de olhá-los, gosto de alimentá-los e gosto, sobretudo, de seu olhar atencioso com tudo o que a vida lhes proporciona. Aceitar o que lhes toca, correndo pelas copas ensolaradas, abrigados sobre as folhas dos coqueiros nos dias de chuva. Corações selvagens a minha volta, sempre.
 Minha caixa postal mais uma vez foi inundada de ternura e palavras em noite de gala. Nem sei de que modo isso pode soar, mas meus leitores são muito talentosos, graças a Deus. Leio as mensagens com um prazer redobrado, além dos tótens, correntes e lendas urbanas que chegam aos punhados. Uma mensagem em especial me chama a atenção. Provavelmente é mais uma lenda, mas seja lá o que for, gostei de correr meus olhos sobre ela. Segundo o remetente, as águias vivem em torno de setenta anos mas, para que sua existência se prolongue, é necessário que, por volta dos quarenta anos, elas passem por um processo de renovação total. Precisam trocar seus bicos, suas garras e suas penas, no isolamento de um ninho em alguma montanha solitária. Não sei se é verdade, há tanta palavra jogada ao vento, correndo pela rede. Mas gostei de imaginar a realeza da águia na solidão das alturas, ouvindo a cantiga dos ventos e o bater de seu coração selvagem.
 A jovem cadela dorme, uma mancha branca sobre a madeira do soalho. Um pedaço de língua cai sobre a boca, de um rosa perfeito. Depois, ela se espreguiça e me lança um olhar apaixonado. Ela é mais um coração selvagem a cruzar a minha existência. Como aquele quati que um dia viveu comigo e que se foi sem dizer adeus. Eu descobri depois que minha avó o tinha dado para o zoológico. Foram-se os guinchos pelos galhos da goiabeira. Nunca se deve amar algo selvagem. Lições que vamos aprendendo na dureza da selva de cimento.
 Nossos corações urbanos. Nossos corações selvagens. E sempre, sempre, caçadores solitários em busca de nem sei o quê.


Gurizinho

 O rapaz surgiu, por detrás da cortina d’água que despencava dos céus, numa esquina de São Paulo, início de tarde luminosa, mesmo com a chuvarada. Nem bem o carro parou a marcha, no sinal vermelho e ele materializou-se na janela, trazendo flores nas mãos. Um arranjo de rosas com outra flor branca que-não-sei-o-nome, numa delas. Na outra, um punhado de girassóis molhados que pareciam imensos olhos de gato chorando. O que fazia ele ali, embaixo do temporal, foi a primeira pergunta que chegou à mente e imediatamente o estado de tensão das coisas se fez presente. Porque há sempre a possibilidade de uma arma, por detrás das flores, por detrás da chuva. Há sempre a doença das grandes cidades nos provocando esses medos e essa adrenalina que nos amarga a boca, de quando em vez. No fim das contas, o rapaz aparentemente só vendia flores e ficou para trás emoldurado na janela posterior do carro, como um quadro de luz impressionista. Passou. Mas não a lembrança das armas que, ás vezes, se escondem no meio das flores.
 Finda a tempestade, veio a bonança e saímos para almoçar, caminhando pelos Jardins, lavados pela chuva, brilhando ao sol tímido que vinha chegando. Os meninos de rua da periferia miserável começavam a sair dos seus abrigos, pedindo a sua esmola para as gentes que vinham desfilando suas riquezas. Ainda outro dia mesmo era Leandro, o menino que chorou na madrugada e, neste domingo já é Deivide (ele soletrou seu nome, com indisfarçável orgulho). Deivide tem fome. Eles sempre têm fome. Pede um sanduíche de filé, mas antes de atacar abre o sanduíche, levanta uma fatia do pão e olha para o naco de carne, com olhos de namorado. Deivide ama aquele pedaço de carne que está prestes a comer. Depois, devora metade e pede para levar o resto. Ele só tem sete anos. Quando chega a encomenda, ele apanha o pequeno embrulho, agradece e sai correndo com as sandálias velhas chapinhando no asfalto selvagem, o refrigerante em lata abandonado sobre a mesa.
 Mais uma imagem para o arquivo. O menino magro correndo pela rua molhada, a metade do sanduíche de filé, levada como um troféu, num embrulho de papel rosa. Deivide tinha uma camiseta branca com uma estampa linda na frente – um anjo-da-guarda conduzindo duas crianças, no meio da natureza. Fiquei admirado com a camiseta do pequeno e tentei fazer algum barulho interno que acordasse aquele anjo. Que ele tomasse o menino sob suas asas e acabasse com aquela infância interrompida. Depois, corri para o teatro e as luzes da noite me fizeram esquecer o encontro. Só mais tarde, antes de dormir, é que a lembrança dele me voltou.
 Como é que nós conseguimos ir em frente é uma pergunta que volta e meia me atravessa a mente. Cruza o espaço aéreo da minha cabeça e, uma vez lá, desdobra-se em outras perguntas, como uma fileira de lanternas, brilhando no fundo do cenário. Como é que levantamos das nossas camas e encaramos o dia que se estende à frente? Não conheço a resposta, mas de alguma forma prosseguimos. De alguma maneira vamos compensando um tanto de perdas com alguma alegria e satisfação. Vivemos tentando equilibrar os ingredientes desta complicada receita:
 1 desenho em lápis de cera, na toalha de papel do restaurante, 1 sorriso, 1 eu te amo bem maduro, ou 1 dúzia de rosas, compradas no sinal, sob a chuva. Que sei eu da receita alheia, quando mal sei da minha!
 De volta ao Rio, lendo as mensagens, deliciado com o tanto de palavra boa na minha caixa postal. Uma leitora diz que estou triste demais e que gostaria que eu fosse mais feliz. Tranquilize-se, minha cara, eu lhe peço. Felicidade é também saber olhar para o mundo que nos cerca. Níveis de entendimento. Um passo, outro passo. Desenhando um quadrado – um lado e outro e mais outro e o traçado é concluído. Lá vamos nós desenhando nossos quadrados com os passos do entendimento. E tristeza e alegria são primas-irmãs muito apegadas. Portanto, não se assuste com melancolia, porque ela é um grande combustível desses nossos corações urbanos. Confessada ou não. Melancolia sobe junto com o concreto. Vem no pó de cimento, no asfalto, nos saltos e solas que correm de lá para cá. Faz parte dessa coisa toda. É melhor aprender a viver com ela e não perdê-la de vista, porque sabe Deus o que ela é capaz de aprontar.
 Acho curioso quando as pessoas dizem se surpreender com as crônicas, porque faço da comédia o meu ganha pão. Como se o riso invalidasse qualquer outro tipo de sentimento. Quão longe da realidade está este pensamento! Longe. Cada vez bem mais longe.
 Lembrei também de minha mãe, nessa crônica sem pé nem cabeça, só com um coração que anda meio atordoado com a rapidez da cidade grande. Lembrei dela, porque já faz tempo que ela se foi e eu tinha tanta vontade de ouvir outra vez a sua voz. Tinha outra vez vontade de conversar com ela e ouvir as coisas que ela me dizia. Uma mulher cheia de palavras era a minha mãe. Vou escrevendo e vou lembrando. Vou desenhando seu rosto outra vez no fundo do cenário, ao lado das lanternas. Outra vez um menino. Guri. Guris e gurias. Deivide. E sua metade de sanduíche de filé.
 E, afinal, será que é tarde demais para esquecer ou para se lembrar


Sobre a neve do parque

  Diga o que disserem, atirem as palavras que escolherem, não consigo viver sem poesia. Simplesmente, não funciono, sem aquela dose diária de encanto. Algum, a vida oferece. Alguma poesia cruza o seu dia, como Omara Portuondo cantando…ya transito los caminos del recuerdo (comprei todos os discos dela que eu encontrei) - mas o resto a tem gente mesmo é de inventar - agarrar os cornos do dia e torcer, para que ele nos dê o caldo da mágica. Sem isso, não há qualquer possibilidade de continuar. E quanto mais o tempo vai passando, quanto mais vão surgindo linhas no meu rosto, mais difícil se torna a existência sem mistério. Acho que era nisso que eu pensava, quando a neve começou a engrossar e os transeuntes desapareceram das ruas.
  Em questão de minutos, a cidade caiou-se, vestiu-se de um branco imaculado e eu virei o rosto, para me esquivar da rajada de vento gelado. Zezinho Santos apertou o casaco de encontro ao corpo e me contou como é que imaginava o mundo, quando menino. A perna de uma cadeira. Uma parte. Universos paralelos. Outros mundos, outras possibilidades. Era uma idéia de mundo que vinha dentro de uma outra idéia, como aquelas bonecas russas que se escondem umas dentro das outras. Um universo dentro do outro. Partes de uma única coisa. A gente quase não pára e aprecia a importância da parte. Mas há uma beleza surpreendente nos encaixes, há uma sensação única de prazer no encontro de duas partes, desenhadas para se encontrar. Era sobre isso que falávamos, em tese, galgando montes inesperados de gelo.
  Nova Iorque estava fria - mais do que o costume. Uma nevasca no sábado e um ano novo de invenção, olhando a rua silenciosa lá embaixo. Pensando nas coisas que vem dentro das outras. Como as bonecas russas, como os sentimentos que vão se transformando e revelando outras faces, outras arestas. É quando quedamos incapazes de fazer a coisa certa, invejosos daquele urso polar que dorme feliz, jogado sobre a neve que cobriu o pequeno zoológico do Central Park. Aquele majestoso assassino de focas, aquele boneco de pelúcia gigante dorme de lado, a nostalgia da geleira no sorriso frouxo do sono.
  E eu, parado, com o vento que varre a ilha fustigando o rosto, invejo o sonho de focas e vastas extensões geladas. Invejo, sobretudo, a solidão do urso polar, ou melhor, a capacidade de estar sozinho, satisfeito com a parte que lhe coube neste latifúndio. Acho que é isso o que sempre nos fascina no mundo animal, de qualquer forma: a aceitação silenciosa de seu destino. Os focinhos que se abaixam em direção à relva, mal o companheiro caiu nas garras do predador. Nem bem a morte foi consumada e a paz já retornou ao bando. Porque assim estava escrito, porque era assim que tinha de ser.
  Na esquina da rua 56 com a Quinta Avenida, uma mulher negra, abandonada na calçada gelada, tenta se proteger do frio de vários graus negativos, com um cobertor ordinário. Nada de novo para nós, habitantes da miséria institucionalizada. Mas o gelo é novo, a paisagem é nova e aquela mulher não combina com as vitrines das marcas milionárias e as peles das elegantes. Paramos, sem saber o que fazer. Aquela mulher certamente vai morrer de frio, eu ia pensando, mas logo uma outra mulher se ajoelhou a seu lado, deixando que a pele do casaco caro varresse a neve na calçada. Outras pessoas se mobilizaram e continuamos nosso caminho, acostumados que estamos à violência da vida nas savanas, geladas de inverno, ou no auge do verão.
  Há momentos em que a vida da gente foge do controle, escapa das rédeas e sai corcoveando, tentando nos atirar da sela. Há momentos em que nenhum trajeto parece acertado, nenhum caminho se mostra merecedor de ser trilhado. Momentos em que simplesmente nos deixamos ficar à deriva, os olhos ansiosos, à espera do inesperado, tristes com a velocidade do tempo, amedrontados com a falta dele para realizar alguns dos sonhos mais caros. Era nisso que eu pensava, enquanto invejava o urso adormecido sobre a neve.
  E depois, ainda sobre a neve, veio Sueli, guiando sua caminhonete caramelo. Sueli, de Minas, que fala com o ritmo gostoso das gentes do belo horizonte, como se os esses fossem se emendando numa corda sem fim. Sueli que corre atrás, como ela mesma diz, que trouxe os dois filhos para essa Nova Iorque branca de gelo, que se agarra com um Deus tão mineiro, tão cheio de barrocos e púrpuras, Sueli tão cheia de saudades de um Brasil que ela ama e que não lhe soube amar. Ela vai contando sua história, enquanto nos leva para o aeroporto. Há inúmeros imigrantes brasileiros por toda parte. Há sempre um sonho de partida nos nossos corações, ainda que sonhos, ainda que remotos, ainda que fantásticos. Há sempre um retrato, uma polaroide, uma imagem presa com durex na parede fria, sobre o colchão da cama ainda por fazer. Em Paris, por um tempo, havia um postal de Copacabana sobre a cama de Holy. Fita banana machucando a tinta cor de rosa. Imagino se Sueli terá uma imagem de suas minas gerais, como o poeta tinha Itabira na parede. Imagino muitas coisas, acenando, enquanto ela acelera e o carro se perde na multidão de luzes vermelhas na volta a Manhattan. Vou imaginando coisas que ganham alturas e transformam-se em outras coisas, outros pensamentos, como aquelas bonecas russas, umas dentro das outras, parte de alguma coisa. O pé da cadeira, o encaixe há tanto buscado, cada um dos nossos corações floridos – até voltar ao sonho de mundo que imaginava, por sua vez, Zezinho Santos quando menino.


Mudando a alma de endereço

 Ando com mania de correr. Ando correndo sempre que possível - as esteiras aguardam, espalhadas por todos os lugares, um pé depois do outro, a respiração acelerada e as idéias que vão se agrupando depois de algum tempo, os arquivos que vão se organizando durante o esforço. Com a secreta esperança de que serei mais veloz do que a vida, antecipando a rapidez do meu dia, acreditando de verdade naquilo que já sei perdido. E, também, porque o cérebro sempre responde de maneira curiosa ao esforço - depois que a respiração aprende seu curso, depois que todos os movimentos estão sincronizados, aí começa a festa dos sentidos, a música que se ouviu e o gosto da boca que se beijou e que jamais se esqueceu. Ando correndo pela vida e, paradoxalmente, é correndo que tenho conseguido recuperar parte dela. Mais ou menos assim –
 Duto encontrou um pequeno armário abandonado, numa rua de Botafogo, cismou que seríamos capazes de recuperá-lo, que era bonito, etc e tal e lá fomos nós carregando o móvel rejeitado que, depois de lixado e pintado, acabou morando conosco, na travessa Pepe. Era vermelho sangue e, como morava perto da janela, vivia banhado de sol. Sempre que eu entrava em casa, numa tarde de verâo, vindo da praia, ele me recebia imitando um coração incendiado, porque guardava o sol que vinha lhe beijar durante o dia. Um rubi no canto da sala e, sobre ele, o poster desbotado de uma retrospectiva de Modigliani, com uma daquelas mulheres de longos pescoços e olhos tristes. Os olhos daquela mulher me seguiram por algum tempo, em Botafogo, especialmente acompanhados do perfume da dama da noite que, nas noites quentes, derramava seu mel na freguesia.
 Não sei onde foi parar o armário. Ficou para trás junto com outros parcos pertences da época – um guarda-roupa que tinha sido de meu avô, com um fundo falso, para guardar berloques de ouro e uma geladeira azul, de idade avançada, que tinha um taco travestido de pé. O que mais poderíamos ter? Sonhos, é claro, todos - de todos os modos, todos os feitios, todas as maneiras. Sonhos criados ao alcance da vista, que chamávamos pelo nome, afeiçoados que só!
 Eu pensava em sonhos, quando aumentei a velocidade e comecei a subir a ladeira, pensava em sonhos e a perna doía- eu lembro - imaginava que fim teriam levado alguns dos meus sonhos mais caros, tentava descobrir em que momento de voracidade eles teriam sucumbido, porque, na verdade, nós quase nunca perdemos nossos sonhos. Esse é um eufemismo para a verdade nua e crua: mais cedo ou mais tarde, a grande maioria de nós acaba devorando cada um deles. Um a um, mastigados, triturados e engolidos. Ao longo da vida, o longo banquete - louças, cristais e pratas reluzentes, travessas carregadas por mãos enluvadas e, no cardápio, sonhos, desejos e esperanças – caçados ainda ontem, no crepúsculo do bosque.
 Então, o que temos é o homem que corre e que pensa no amigo que se foi cedo demais e no armário vermelho do passado, como num sonho – saídas da névoa, uma série de sensações e imagens em preto e branco – aqui e ali uma explosão de cor! – pois esse homem está refletido nos olhos do menino que olha para o palco na penumbra da platéia.
 Explico: volta e meia, ao longo desta temporada, Enzo, filho de Cláudia Raia e Edson Cellulari, tem ido assistir à mãe e aos amigos no espetáculo e, na graça e beleza de seus quatro anos, senta-se compenetrado na primeira fila, os olhos fixos, na direção do palco. Há um encantamento, há uma explosão de idéias e imagens naquela mente há uma concentração que vem do aprendizado básico. Enzo não faz barulho nas coxias, assiste ao nosso desempenho com uma seriedade comovente e faz comentários surpreendentes. Canta nossas canções e todos nós agradecemos por participar dessa doação de mágica para tão jovem mente - cada um de nós abençoa o menino como faziam as fadas dos contos imortais.
 Nos olhos de Enzo, portanto, além das pupilas escuras e infinitas, eu vejo o homem que sou eu, que corre ainda uma vez no palco, fugindo do beijo da mulher aranha, a morte em sua teia. E que lembra de um verão, uma manhã de domingo ensolarada, na solidão das travessas de Botafogo, quando Duto descobriu aquele armário abandonado. Nos olhos de Enzo, acompanhando a história ainda outra vez com emoção, os sonhos de todos os meninos que nós fomos um dia. Nas mãos que ele acena no aplauso final há também a nossa infância de céus despudorados, de crepúsculos tropicais e sonhos por toda parte.
 O passado é onde moram os sonhos - a gente está se enganando achando que a morada é lá na frente e ela ficou para trás, numa curva do caminho. Há que se ter atenção ao curso – olhe para trás, olhe para trás! Não se avança muito sem a mirada no ontem, o debruçado sobre todos aqueles sonhos, ainda vivos e fortes, ganhando alturas, brigando com as pipas pela supremacia do azul.
 Para tentar fechar esta crônica, faço rapidamente o caminho de volta: o menino que está sentado e que sonha, o homem que se reflete em seus olhos, o armário vermelho, Duto rindo de se acabar naquela manhã de Botafogo, os pés sobre a esteira, cada vez mais velozes – eu corro para auxiliar e buscar auxílio – corremos todos! E corremos para empacotar a existência, vez ou outra e amar e amar, porque como disse o mestre Quintana, amar é mudar a alma de endereço.
 E é por isso que vivemos de malas prontas.