A Terra vista do alto

  Isabelle Tanugi me deu um dos presentes mais bonitos que já ganhei na vida: o livro de Yann Arthus-Bertrand, La Terre Vue du Ciel, Éditions de la Martinière. O fotógrafo viajou o mundo inteiro, capturando toda luz e encantamento, até criar um grande retrato do planeta - suas gentes, suas formas e suas cores - sempre a visão do alto - o olho de um deus generoso e cruel, olho de pássaro, o olho da águia imperial que voou ao lado de Karen Blixen sobre a savana africana.
  Segundo a autora dinamarquesa, nas suas memórias da fazenda no Quênia, naquele momento, ela viu Deus. Pois foi assim que me senti, madrugada afora, debruçado sobre as imagens de Arthus-Bertrand, descobrindo tons e relevos, numa felicidade intensa. Quando dei por mim, já era hora de repouso e de arrumar toda aquela beleza nos arquivos, para um novo dia. Mas não consegui tirar as imagens da cabeça, de modo que volta e meia lá ia eu buscar uma nova inspiração no livro.
  Depois, na cama, antes de mergulhar no sono, ainda pensei que se esse mundo ainda consegue nos inspirar de alguma forma, é por causa de suas diferenças, pois são elas que acendem todo novo olhar e toda vontade de continuar a jornada. Amor nasce da diferença, eu pensava e folheava o livro e viajava pelo rio Leona, de águas cor de turquesa, na Argentina. As águas adquirem essa coloração, por causa de um fenômeno que ocorre quando os blocos de gelo se derretem nas águas mais quentes e que as gentes de lá chamam de doce de geleira. Tudo isso eu ia vendo e aprendendo nas lentes do homem, enquanto a cidade dormia. Construções, rostos e abandonos, vestes e tapetes, janelas e um mundo de esperanças e abnegações e desencantos, povoando tanta beleza nos continentes e hemisférios. E tanta harmonia nas diferenças vistas do alto. Porque é essa, eu tenho certeza, a visão de qualquer inteligência superior, ou ainda de qualquer tentativa de inteligência.
  Inteligência e diferenças. Ambas me chegaram nas mensagens que voltaram a jorrar, cheias de um entusiasmo precioso. Cada qual com seu estilo, mas meus leitores são muito talentosos e acabei recebendo crônicas tão bonitas que meu dia se encheu de palavras e sentenças e poesia. Cada qual diferente da outra, cada qual em busca de um entendimento próprio, que comungue com os demais. Mas, acima de tudo, diferentes em seu olhar, na escolha dos adjetivos, nos pontos, travessões e vírgulas. Nos ritmos e corações. Diferenças, sempre. Como um novo tom que realça o que já foi muito visto.
  Há que se amar as diferenças! Há que se romper os laços e descobrir a beleza que está para além das nossas fronteiras. Há que se entender outros conceitos de graça, sedução e humor, além dos massacrantes padrões que vão se cristalizando no fundo dos nossos olhos. E vão nos afastando de qualquer outra possibilidade de encanto, enquanto alimentam os cofres daqueles que não conseguem enxergar o planeta.
  A terra vista do alto: nenhuma notícia dos tripulantes do submarino russo, mortes e tiros e ódio e paixões incendiadas e alguma poesia e arte no meio da paisagem. E uma multidão de gente que vai desistindo de lançar um olhar diferente para as coisas, que vai aceitando o que lhes chega, sem um franzir de testa. Gente que vai abrindo mão dos sonhos, que vai empurrando com a barriga, que deixa de achar graça nas imperfeições. E elas podem ser muito interessantes se olhadas pelo ângulo certo. Uma gente que tenta respirar a maior quantidade possível de ar, antes que a onda volte a cobri-los é o que vê o olho da águia imperial, a mesma que voou com Karen Blixen, sobre a savana africana.
  Por falar em diferenças, estive em Pernambuco mais uma vez, colhendo amor naquela minha plantação de amigos. Tanto carinho, tanta gentileza, tanta gargalhada que a gente deu! Voltei para casa carregado de bolos, guloseimas, rendas e uma colcha de fuxico - aquelas do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça, toda colorida, retalhos e retalhos, costurados ao som das vozes baixas, contando casos e estudando a vida do alheio. Foi um final de semana tão divertido! Há tempos eu não ria tanto, com as histórias vividas e outras narradas e todo aquele sabor de vogais abertas e música e fruta. Uma gente muito querida, hospitaleira e amorosa. E, como se não bastasse, foi no Recife que acabei conhecendo Madame, mas sobre ela falarei futuramente, pois ela às vezes se esconde ao lado dos caranguejos do mangue. E, segundo ela, todos os caranguejos são gays. Coisas de Madame.
  Diva Pacheco me contou que, um dia, foi visitar uma amiga que tinha ares de nova-rica e era dada a modismos sociais. A empregada de uniforme imaculado, com direito a renda na cabeça, abriu a porta e perguntou se ela tinha hora marcada.
  - E ela agora é cartomante? – Diva deu uma gargalhada. – Só se for, porque diploma ela não tem nenhum que eu sei.
  E foi porta adentro, carregando a criada num abraço.
  Deus abençoe as diferenças.
  (No episódio da próxima semana, Madame consegue escapar de Singapura com a maleta de jóias, mas o avião em que foge cai na China e ela tem o rosto parcialmente devorado por crocodilos. A última vez em que foi vista, vendia biscoitos da sorte em Pequim, ao lado de um chinês estranhíssimo que soltava bombas nas narinas do dragão. Madame já matou muitos. Pode matar muitos mais. E foi vista do alto. Sempre do alto, como numa foto ampliada. Madame é a diferença.)


Na calada da noite

 Eu ia escrever sobre Madame, uma personagem mítica que povoa meus dias e minha imaginação, mas a vida às vezes nos prega peças e torce nossos caminhos, de modo que Madame vai esperar sentada a sua hora de entrar em cena. O roteiro foi mudado na última hora. Nesse caso específico, na saída da festa de aniversário de Mary Nigri, em São Paulo.
 Lá vínhamos nós, um bando ruidoso pela Oscar Freire, às duas e tanto da manhã, depois de taças e taças de champanhe gelado, fumaça, gargalhadas, música frenética e as intermináveis poses para as revistas que vendem o nosso lixo cotidiano. Lá vínhamos nós, ostentando nossos uniformes de grife, orgulhosos dos Pradas, Armanis e Guccis que deixam claro de qual lado do trilho você está. Tudo estava muito bem. O álcool ingerido nos proporcionava um torpor agradável, íamos até meu apartamento para um último drinque, um derradeiro dedo de prosa, todos excitados com a inauguração de minha boite com Gugu no dia seguinte (para isso a turma carioca tinha se deslocado), até que Jane e Adélia, que vinham mais atrás, gritaram meu nome e eu me virei e elas apressaram o passo junto a um menino alourado, na minha direção.
 - Ele quer um autógrafo de Caco Antibes! – disse Adélia, com o braço passado pelo ombro do menino. – Olha como ele é lindo!
 Realmente, o menino é muito bonito. Tem uns olhos cor de mel arregalados, uma bochecha corada e um cabelo do tom da areia banhada pelo sol. Um sorriso tímido brinca nos lábios e ele se apresenta. Chama-se Leandro, tem treze anos e mora em Carapicuíba (que é muito, muito longe dos Jardins, onde estamos). O menino pede que eu mande um beijo para a avó, no Vídeo Show, porque se não fosse sua generosidade, ele e os irmãos não teriam onde morar. Eu acaricio seu cabelo e olho para ele, cujo rosto brilha à luz fria da rua: ele vende tapioca. Eu me pergunto quem é que compra tapioca às duas e tanto da manhã, em plenos Jardins e me incomoda o sulco que a alça do isopor pesado marca no ombro da criança. Uma camiseta suja, com um número vermelho estampado na frente, bermudas esverdeadas e chinelos de dedo. Eu penso em comprar tudo e mandar o menino para casa, puxo a carteira e não tenho nenhum trocado, de modo que pego uma nota de cinquenta reais e dou a ele, como se o gesto pudesse apagar a culpa e a dor do nosso cotidiano injusto e massacrante.
  (Uma vez, nos intervalos da gravação de uma novela, Victor Fasano ficou me falando do estresse a que os animais eram submetidos constantemente nas savanas africanas. Não sei porquê, mas esse momento me veio à mente, num relance, enquanto eu afagava a cabeça de |Leandro.)
  Ele não apanha o dinheiro. Apenas me olha, sem entender.
 - Toma! É prá você! – eu digo, sem achar um tom que me agrade aos ouvidos.
 Então ele estende a mão e segura a nota. Olha para ela, como se fosse algo muito distante e desconhecido e começa a chorar. É um choro que vem do fundo, um choro de cansaço, um choro de quem não acredita. Um choro de desesperança. Ficamos todos atônitos, assustados com a reação de Leandro. Eu o puxo de encontro a meu corpo e ele diz que o dinheiro vai ajudar nos mantimentos, no meio dos soluços. Eu não sei o que fazer, não sei o que dizer, enquanto o menino chora. E ele chora sentido, como quem puxasse a tampa do rio das lágrimas, aquele caudaloso que vamos singrando nesse descalabro. Eu sento no meio-fio e quero saber dele e de seus sonhos despedaçados. Peço que ele me procure ali, na gravação do Sai de Baixo, toda terça-feira e, depois, vou me embora, seguido pela turma em silêncio.
 - Que país, meu Deus! Que país! – Adélia geme agoniada.
 Estamos todos chorando. Todos envergonhados dos Armanis, Pradas e Guccis e da roupa que vamos usar amanhã e das fotos vaidosas e do blá-blá-blá de sempre. A miséria mata o riso, mata qualquer esperança de sorriso, qualquer esperança de qualquer coisa.
 - Que país de merda! – alguém exclama.
 E assim termina a história de Leandro. Acabou-se o último drinque, acabou-se o derradeiro dedo de prosa. Espero que ele me procure, qualquer dia desses.
 De volta ao Rio, recebo a notícia de que Maurício Sette se foi. Um belo cenógrafo. Um homem que sabia embalar os sonhos no palco. Com ele fiz “Emily”, talvez o primeiro sabor de sucesso, estreando na direção, sob as asas de Beatriz Segall. Maurício desenhou o cenário de minha estréia na direção e era lindo. Transformou o pequeno Cândido Mendes num jardim de poesia, deu vida à arvore do teatro e as flores brotaram, porque era o natural naquele espaço. Depois, veio “Tupã” e, alguns anos mais tarde, voltamos a nos encontrar nas planícies do Algarve, sempre banhadas pela lua, na cenografia de “A Bela do Alentejo”.
 Adeus, Maurício. Até breve. Você deve andar por aí e procurar seus velhos amigos, sua falange de ofício. E beije a todos por mim. Cenógrafos, cenotécnicos, figurinistas, camareiros, iluminadores, diretores, atores e atrizes. Agradeça por tanta beleza e emoção. Receba o meu muito obrigado pelo que aprendi de humanidade através da poesia de seu traço.


Coração dentro, coração fora

 Eu olho e vejo: São Paulo aprisionada no engarrafamento eterno. Não há fuga possível, a não ser abandonar o veículo e sair caminhando na manhã luminosa que já adivinha a primavera. Até que não seria má idéia, penso. Carros e mais carros enfileirados, rostos tensos, a feia fumaça que sobe apagando o dia e, mais tarde, as estrelas. Eu olho para dentro e vejo meu coração com saudades, pois mal acabei de arrumar as coisas na casa nova e já estou longe outra vez. Deixei para trás o silêncio, o verde, os guinchos dos macacos pela manhã, os latidos de alegria dos cachorros.
 Deixei o Rio de Janeiro por um tempo, até que a temporada paulista da peça termine. Vai demorar um pouco, mas eu volto, porque sempre voltamos para o berço, de uma forma ou de outra. Deixei a cidade e um pedaço do meu coração urbano ficou por lá, perdido, em busca de respostas que nunca recebeu, querendo a oportunidade de dançar ao encontro de um outro coração. Mas não devo me queixar. Foi essa a minha escolha, de modo que arrumei a mala, embalei os pandeiros, as fitas e os guizos e cá estou, ensaiando “O “Beijo da Mulher Aranha”, que deve estrear no fim de outubro. É um musical muito grande, muita gente, muito trabalho a ser feito. Como gravo o Sai de Baixo por aqui também, meu lar carioca tem ficado na saudade. Agora, vivo de telefonemas, aprendendo a amar outras geografias, os olhos inundados de memórias do oceano, que vem me contando histórias desde a infância. Mas às segundas-feiras, lá pelo meio da manhã, eu venho dar uma espiada na cidade, no meu canto, gravar o Vídeo Show e voltar correndo para o ensaio do Sai de Baixo. Assim mato as saudades.
 Eu olho e vejo: o suor que desce como um riacho pelos corpos dos bailarinos, o ritmo perfeito, os braços que se estendem, as pernas jogadas no ar. Cláudia Raia surge ondulando no meio deles, como uma vênus de malha azul. Lá fora, a tarde se arrasta sonolenta, as cantinas do Bexiga aguardam fregueses e eu lembro de debruçar na minha varanda da Lagoa numa manhã de domingo, outro dia mesmo! - os leitores que acompanham minhas andanças devem se lembrar. Foi ontem e eu olhava a noite e o vôo dos socós que pareciam fantasmas sobre a água. Lembro bem desse dia, porque eu andava tecendo sonhos que eu acreditava que podiam ser.
 Eu olho e vejo: os dedos do maestro que correm pelo teclado do piano, seu olhar cravado no meu rosto, enquanto eu canto uma das canções do espetáculo. Ele me corrige uma nota e repete e repete e repete, até que aquela nota é o único som que se ouve na sala fechada. Há tanto o que aprender do palco ainda! Há tanto o que aprender da vida! Preciso me concentrar na peça, preciso estudar, não posso aprender a viver agora. Antes, preciso aprender a cantar e a dançar um tango com La Raia. São prioridades, no momento. A investigação da existência fica prá mais tarde. Mais uma vez aquela frase e parece que acertei a nota, finalmente. É hora de ir para casa, eu penso, e começar a transformar aquele apartamento num lar.
 Eu olho e vejo: ambulantes de todas as idades e todos os tipos, oferecendo flores, panos de chão, carregadores de celular, brinquedos, canetas, balas, balões de gás, bichos de pelúcia. O sinal fechado é uma festa de cores e pregões. O sol vai se pondo e o crepúsculo só se adivinha pelos ponteiros do relógio. O trânsito flui inesperadamente. Vou pensando no Shopping da Gávea e na minha gente dos palcos de lá, que daqui a pouco vai estar chegando para a função da noite.
 Eu olho e vejo: mensagens e mais mensagens na tela do computador, por causa da crônica da semana passada. E, mais uma vez, o céu se abriu com tanta palavra bonita e bem arrumada. Um leitor, nosso colega, disse que somos um bando de anjos. Se não somos, seremos. É uma questão de tempo e de evolução. Tenho certeza.
 olho e vejo: correntes, mantras, toténs,apelos contra a violência a que são submetidas as mulheres do Afeganistão, do Paquistão, cueldade com ursos, crianças desaparecidas, crianças precisando desesperadamente de um remédio milagroso, crianças e pornografia. Lendas urbanas: o rapaz que acordou na banheira cheia de gelo e tinha tido o rim extirpado por uma gangue de traficantes de órgãos, o mendigo que ataca com uma agulha infectada, num sinal da Praia do Flamengo. A internet é uma boca escancarada, despejando na tela o delírio do mundo lá fora.
 Eu olho e vejo: Mauro Rasi dando um depoimento sobre mim, num programa do Canal Multishow. Nós temos nos cruzado pela vida e pelos palcos há já algum tempo. É um homem de belas palavras. Mediterrâneo, como ele mesmo diz. Tenho uma grande admiração pelo seu talento notório, aquele dom de jogar um punhado de palavras para o alto e vê-las cair no lugar certo. O dom de ser um Paganini semântico, como dizia Truman Capote. Depois, veio Maria Carmen Barbosa e tantos outros amigos que minha alma ficou aquecida.
 Eu olho e vejo: o teto cheio de sombras. Apaguei a televisão, a luz e olho para o teto. Vou tentando adivinhar desenhos nas sombras, como quem caça imagens nas nuvens. E vou assim, inventando os meus carneiros, lembrando de olhos marejados, até que olho e não vejo mais nada.


Água-marinha

 Uma tarde chuvosa, cinzenta, a única que me restou para matar as saudades do meu canto. Uma tarde só minha, de volta ao lar, aproveitando o silêncio da mata. Uma tarde de vidraças salpicadas de chuva e piscinas azuis na televisão. A Austrália mostra ao mundo sua civilização e a gente tem mais é que aplaudir a beleza do espetáculo.
 Assisto às competições da natação, nas Olimpíadas, e a memória me leva de volta ao Vasco da Gama, meu pai com o cronômetro na mão, no fim da raia, gritando palavras de incentivo. Ele desejava que eu vencesse e externava sua vontade com o olhar febril, à minha espera no fim da faixa azul. Mas não eram essas as minhas vitórias. Não era esse o meu dom. Sempre em segundo lugar. Ou terceiro. Nunca aquele que galgaria o mais alto lugar do pódio. Eu engolia o ar, lutando contra a água que ia se tornando mais e mais pesada, à medida em que a competição avançava. Com o canto do olho, via meu adversário avançar na raia ao lado, em direção à vitória e, embora isso frustrasse as expectativas familiares, não eram essas as vitórias que eu desejava intimamente. A decepção de meu pai pelas derrotas escorregava pelo meu corpo. Nunca me importei de verdade. Nunca fiz nenhum esforço para vencer.
 Na televisão desfilam chineses, australianos e romenos. Americanos, sul africanos e russos. O mundo todo na piscina de São Januário, já faz muito tempo. A penumbra do vestiário e o túnel que conduzia ao parque aquático – no ar o cheiro de café torrado, talvez. O aroma do açúcar na refinaria, o sabão português, o cloro que invadia as narinas, esverdeava os cabelos e deixava os olhos em fogo. Um mundo de aromas é o que me apresenta a memória. O perfume do sabonete de pinho, uma forma verde e arredondada, de que meu pai gostava muito. É esse o cheiro das primeiras descobertas de prazer, do corpo sendo assuntado, tocado, acarinhado. O cheiro das essências que a memória guardou com cuidado.
 Os aromas são liberados e vão se encadeando, saindo de alguma nebulosa do cérebro. O cheiro de São Cristóvão, nas manhãs de inverno. Correr em volta da piscina, ginástica no solo e, depois, o bando ruidoso ia para a água. Metros e metros em diferentes estilos, instruções, táboas, borbulhas e silêncio. A perna doendo, o braço doendo e a cabeça muito longe dali. Sempre longe dali. Eu não gostava daquilo, não era o meu melhor. Nunca entendi muito o porquê, se é que há um porquê. Mas aí são questões metafísicas demais para uma crônica de quinta-feira. Antes dos questionamentos, há o trajeto da sede de São Januário até a casa de minha avó, subindo a Rua General Padilha. Os cabelos molhados, a mochila nas costas, as casas do tempo do império. Na minha infância, São Cristóvão ainda se agarrava a seu passado de glória. A imagem do cortiço imenso que ficava no caminho, logo antes da rua de minha avó. Um bando de gente barulhenta olhando o dia desaparecer por entre os dedos, sentados no muro baixo. Uma mulher cansada que estendia roupas no longo varal comunitário. Pão com manteiga na hora do lanche. Um relógio que marcava as horas, com uma seriedade assustadora.
 Os aromas estão voltando aos poucos. Talvez porque eu tenha parado de fumar. Nunca acreditei que eu pudesse me livrar do vício. Estava sempre arrumando uma ou outra desculpa para a minha pouca força de vontade mas, na verdade, talvez eu nunca tenha desejado realmente parar. Até que o jugo do vício começou a me constranger muito. Uma coisa interna, uma luta muito particular, mas eu andava olhando para a carteira de cigarros com raiva. Não havia mais prazer algum. Aquela famosa tragada depois do café multiplicou-se em infindáveis outras. Eu já estava começando a trocar viver por fumar e achei que a coisa já tinha ido longe demais. Portanto, disse não e abandonei o companheiro de tantos e tantos anos e ele não está me fazendo a menor falta. Tenho tido minhas crises de abstinência, como qualquer viciado, mas tenho resistido bravamente e, aos poucos, respiro melhor. É uma vitória. Essa é a minha medalha e, com franqueza d’alma, não vejo mérito algum na conquista.
 Na televisão, outros troféus são distribuídos, bandeiras içadas e o hino americano se faz ouvir, enquanto a moça loura esbugalha os olhos de emoção. Pela manhã, nossa bandeira tremulou, com a medalha de prata no judô e o italiano que ganhou o ouro chorou feito criança ao ver o pavilhão tricolor ser içado à glória olímpica. Mediterrâneos. Lágrimas e sentimento. É disso que somos feitos. Essa é a nossa matéria prima, eu penso.
 Todo o dia se passou dentro da água marinha brilhante, os corpos com roupas futuristas, tubarões e sereias. Fiquei deitado na cama, acompanhando a transmissão, lembrando de outras marolas, do corpo curvado antes do tiro da largada. Acabei cochilando e sonhei com aqueles dias de verão, quando eu terminava o treino e caminhava até a Avenida Brasil, seguindo o muro branco do cemitério do Caju, o uniforme do ginásio, o escudo preso no bolso da camisa.
 Será que eu já sabia?
 Será que tudo aquilo que eu sonhava, dentro da água-marinha onde eu nadava, era apenas uma lembrança do futuro?
 Apenas uma lembrança do futuro. Como um eco.


Sol da meia noite

 Ando pela madrugada, com óculos de lentes alaranjadas, que conferem um calor inusitado ao concreto do centro da cidade, àquela hora avançada. O longo muro da fábrica, de tijolos avermelhados, parece brilhar, coberto pela gelatina ensolarada que filtra o mundo para os meus olhos. Se tento tirá-los, a noite é triste, fria e pálida. Rapidamente, cubro os olhos e o mundo volta a parecer um lugar aconchegante, enquanto o táxi acelera viaduto abaixo e eu penso que são óculos perigosos, esses, que possuo. Óculos de ilusão. Com eles, a noite é uma faixa de luz quente, os rostos saltam de alegria pintada, após a imersão no corante. Eu sei que nada disto é verdade, sei que é ilusória esta visão de luz, mas não estou com vontade de ver o mundo do jeito que é, esta noite, de modo que os mantenho no rosto, como o gato de óculos do filme que eu vi, quando era um menino.
 Uma máquina: sobre o tablado de metal brilhante, dividido em blocos, como um jogo da velha, os adolescentes coreanos saltam, num ritmo perfeito, enquanto vão lendo, através de setas, a coreografia a ser executada, no visor da frente. Eu fico parado, vendo o grupo dançar com precisão de movimentos. Converso com a garotada e eles me informam que este tipo de máquina é uma febre na Coréia, organizam até campeonatos. Tento uma música, mas não tenho a rapidez necessária e a coordenação para executar com os pés o que meus olhos lêem, de modo que fico de espectador, encantado com as meninas de olhos amendoados e cabelos negros - meninas do futuro com presilhas de neon na cabeça. São Paulo tem esse tipo de boa surpresa, na noite. Essa loucura de ficção científica – algo como garotas coreanas saltando numa máquina de luzes brilhantes, na madrugada da Móoca.
 Avanço noite adentro e os adolescentes coreanos ficam para trás. Na pista de dança, mulheres louras surgem de toda a parte. Cabelos tingidos, descolorados, reinventados, roupas muito justas, sexo como marca, sexo nos decotes, sexo nas bocas pintadas de vermelho, sexo no ondular dos corpos. Os meus óculos de noite conferem à massa de cabelos amarelos um tom incendiado e as peles ganham um ar saudável, de fruta madura, eu penso. E danço e sinto o suor molhar a camisa e bebo um uísque e tento falar com alguém, mas desisto. A música está alta demais. O ritmo do bate estacas dentro da pista de danças é o coração da terra, o imenso coração urbano dos nossos cotidianos.
 O bando de mulheres louras também fica para trás, enquanto os ponteiros do relógio correm na direção do dia, como crianças com medo do escuro. Na volta, viaduto, neon, concreto. Finalmente retiro os óculos e a noite parece murchar como a flor da hora. A cidade vai correndo ao lado da janela do carro: Sampa, Caetano, a mais completa tradução de Rita Lee, esquinas, gente que não dorme nunca, mais viadutos, mais neon e mais concreto. Sem os óculos, o mundo se transforma numa realidade dura, suja e solitária. Eu esmago o nariz no vidro gelado do automóvel, deixo meu olhar se perder em busca de outras imagens urbanas, outras madrugadas, outros corações. Como aquela noite em que a estátua promocional de King Kong incendiou-se na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, na frente do Roxy, lançando um rolo de fumaça preta para o alto. O seu sorriso no meio das chamas, o seu estupor pela cena inacreditável. Um gorila em chamas na selva de concreto. Imagens que não se apagam e que o coração teima em resgatar nas horas mais loucas.
 Porteiro sonolento, câmaras de segurança, grades, chaves e trancas. Televisão antes de dormir e um pouco de Olimpíadas e uma certa frustração por não sermos os campeões que desejaríamos, no fundo. Mas somos campeões em sobrevivência e esperança. Nessas modalidades, o ouro é nosso, há já muito tempo. Aciono o dispositivo para que ela adormeça logo depois de mim e finjo que o vozerio é de gente que se foi e que veio me visitar, para matar as saudades. Às vezes, os meus mortos chegam todos de uma vez, fazem fila e se deixam inspecionar com uma generosidade que não é mesmo deste mundo.
 Na segunda noite, já no Rio, assisto à final do vôlei de praia feminino e, junto com o resto do público, vou torcendo baixinho pelas jogadoras. Uma prece comprida vai se desenrolando língua afora, olhando para as adversárias australianas. Depois, quando a derrota se consuma, um silêncio pesado toma conta de tudo e vou dormir sem achar graça de nada, com vontade de ter à mão aquele par de lentes coloridas que aqueceram a outra madrugada e que deixei em São Paulo.
 Lá fora chove sem parar. Amanhã bem cedo já tenho de voltar e não pude sequer fazer um carinho maior nos cachorros, brincar com eles, que não devem estar entendendo o meu desaparecimento. Aliás, os cães não devem entender muita coisa. Eles tentam bravamente mergulhar na ilusão, mas não conseguem esconder a saudade, no fundo dos olhos magoados. O seu ganido baixo e queixoso me acorda sentimentos que eu escondi provisoriamente. Estou com saudades de casa. Estou com saudades de mim, eu penso, com o nariz esmagado no vidro frio da janela do quarto. Janela do táxi. Janela do coração. Todas se abrem para o nascer do sol da meia noite, nas madrugadas insones. Janelas e mais janelas que vão se escancarando numa fileira interminável.
 O futuro vem chegando rápido demais.


Ladrão de crônica

 E por falar em amor…, título original da crônica furtada, caso ocorrido nesta última segunda-feira, no Jardim Botânico, na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. Explica-se o crime: estava na casa de Maria Carmem Barbosa, cheio de idéias, projetos, rodeado de letras e palavras e sentenças e, quando dei por mim, a Lagoa já se coloria de um alaranjado vivo, o trânsito espreguiçava, como um lagarto sonolento e era crepúsculo. Só então, lembrei que era dia de entregar a crônica. Muito provavelmente, ia invadir a madrugada, atirando palavras para o alto, na esperança de pescar uma boa combinação. A vida, a partir da pouca inspiração, começa a ruir como um castelo de cartas. Mal dormido, enfrento a maratona do Sai de Baixo na terça sem brilho e, no fim do dia, quando começamos a gravar, estou exausto. O melhor é adiantar a crônica, sempre, porque senão, o resto da semana fica comprometido, com areia nos olhos e a cabeça pesada.
 Mas, como já disse, chegou o crepúsculo e nós no meio do trabalho e o alerta vermelho do prazo piscando, e eu não gosto quando o prazer começa a se transformar em angústia, mal trato e rancor. Daí que pensei que talvez eu pudesse roubar uma crônica da Maria Carmem (com a aquiescência dela, é claro). Ela escreveu aqui n’O Globo, numa época, crônicas divertidas, bem humoradas e cheias de humanidade. Imediatamente, ela comprou a travessura e disse fique à vontade, com a generosidade de uma mulher de letras. E saímos os dois, arquivos afora, à cata da crônica que se prestaria ao papel. O tempo correndo e nós na revisita aos seus textos de uma década atrás. Afinal, escolhemos a tal, cujo título é
 E POR FALAR EM AMOR…
  (… Amor é uma coisa muito genial para ser normal. Normal tem que ser filho, a casa da gente, o salário no final do mês, a geladeira, a empregada, tudo o que nos cerca e que nos permite enlouquecer em outras áreas. O amor tem que nos tirar do estado natural, tem que nos impulsionar para outros movimentos, de preferência desconhecidos.
 A síntese do genial estado amoroso é: não posso parar que a minha cabeça começa a rodar.
 Amor bom é aquele que você se descobre uma outra pessoa. Vai lá dentro, cutuca, faz olhar a vida com seus outros olhos, quase sempre geniais.)
 Pensando melhor, talvez eu não devesse estar vasculhando o arquivo de crônicas de minha parceira de tantos anos. Talvez eu devesse deletar os parágrafos acima. Mas talvez eu esteja seco por dentro, sem nada para dizer, sem um olho para emocionar. Às vezes, o deserto se muda prá dentro. Todo mundo sabe disso.
 Agora, Inês é morta! Os dedos gostaram do furto, vislumbraram uma noite livre, sem a obrigação, sem o prazo e voltam a copiar furiosamente o texto de Maria Carmem.   (… Basta que o amor esteja ao nosso lado . Só respirando. Respirando, sim, porque o ser amado tem que, antes de tudo, estar vivo.)
 E quando se vão, aves do estio, sem avisar? Quando elegem a ausência como companheira, o que fazem os que ficam em pé na margem?
 Maria Carmem reclama. Estava disposta a ceder uma crônica, para me quebrar um galho, não submeter-se a uma sabatina. Onde é que já se viu! Eu sigo em frente, abusando da tolerância, invertendo a ordem dos parágrafos, editando e invadindo e mesclando. Ela não reclama. Os anos de parceria literária nos ensinaram a dividir.
  ( …quase sempre o amor atrapalha muito o trabalho. Há uma evasão de energia, um certo “amanhã eu penso” e a gente acaba negligenciando um, ou outro. O certo seria, cada vez que você se apaixonasse, tirasse férias e se dedicasse só ao ser amado. O amor requer tempo integral, hora extra e serões intermináveis.)
 tenho mais horas extras, não disponho de tempo hábil para um serão interminável. Mas tenho tempo para um amor tranquilo, um amor de chamego, de compreensão. É esse o amor que procuro. O amor da cumplicidade, do riso compartido, do beijo na boca que de tão fundo chega a fundir a alma. Olha eu divagando, enquanto Maria Carmem termina sua crônica.
  (…Por isso, se algum dia, sentindo-se perdido na estrada escura da solidão, não tenha vergonha de bater nas costas dos vários passantes que desfilam aos seus olhos e perguntar: - Onde fica o amor? Certamente, cada um apontará um caminho diferente. Uns mais longe, outros mais perto, outros nunca chegaram a ver. Ouça a todos, que cada caminho é um caminho e, quem sabe, pode ser seu dia de sorte e o amor está ali mesmo, parado na sua frente, com uma tremenda cara de babaca, olhando pra você.)
 Não, não tenho esse tipo de medo. Sei como é o seu nome, sei como é o seu rosto. Não me assusta o amor, não me apavoram suas ausências. Afinal, dizem os sufis - o povo do deserto, a gente que entendeu o valor da lágrima, riacho, água. Dizem eles, na sabedoria milenar: feliz aquele que conhece o perfume daquilo que perdeu.
 Afinal de contas, por onde anda você?


A vingança de Jacqueline Susann

 Não. Não penso em nada, enquanto o asfalto corre veloz, debaixo de meus olhos. Listras amarelas e brancas sobre o betume. Parente daquele mesmo piche que grudava na nossa pele, quando a baía deixou de ser um paraíso e nós deixamos de ser crianças, na Ilha. Placas negras e oleosas que minha avó tirava com um pano embebido em Faísca. As crianças sujas de óleo, sempre. Como animais na margem após um desastre ecológico. Asfalto, asfalto, asfalto. As manchas de óleo que imitavam as cores do arco-íris sobre a água, quando eu era criança. Depois, mataram a Baía de Guanabara e eu abandonei a casa dos meus pais para sempre.
 Não olho para nada além do asfalto, no carro que me leva para casa. E eu não deveria estar aqui, neste carro, deveria estar no estúdio gravando o segundo Vídeo Show de sábado (gravo dois, de quinze em quinze dias). Mas ando intolerante, sem paciência, no limite do meu cansaço, sem grandes sabores na boca. Fiquei quase uma hora sentado no camarim, todo arrumado e ninguém me disse nada, de modo que tirei a roupa e, quando perceberam, eu já estava no estacionamento, dentro do carro, voltando para casa. São momentos que todos nós temos, acredito: quando toda a nossa vida entra em colapso, quando tudo é uma única e sonora questão sem resposta. O motorista me olha atônito.
 - Não vai gravar? – ele pergunta.
 - Não. Vou para casa.
 Então ele arranca e vou para casa. Olhando o asfalto que corre e escutando um zumbido familiar no ouvido. O zumbido comum de todos nós, habitantes das grandes cidades. O estresse nosso de cada dia, buzinas, filas, trânsito, a gente que se espreme sob as marquises, debaixo do temporal. Um carro que está sempre à espera, os ponteiros que nunca dão uma trégua. Mais rápido, melhor, mais engraçado, mais brilhante, mais qualquer coisa. Sempre mais. E eu que achava que os romances de Jacqueline Susann eram de mentira. Todas aquelas bolinhas e champagne. Aquela coisa toda. De repente, eu abri os olhos e percebi que todo o mundo transformou-se num romance de Jacqueline Susann. Um pesadelo inacreditável, para sempre aprisionado nas páginas de uma trama de mau gosto. Sem nenhum estilo. Apenas massas de cabelo coreano. Jacqueline Susann era uma corista sem talento que um dia, ao descobrir que tinha câncer, entrou numa igreja e pediu para morrer rica. Foi atendida. A papisa da literatura farmaco-ginecológica (como dizia Truman Capote). Mas ela vingou-se. Seus romances ganharam as ruas e suas personagens tomaram forma humana: longos cabelos platinados e bolas de silicones. Galãs esculturais de dentaduras perfeitas sorrindo para a multidão de desdentados e famintos. Miss Susann não previu o cenário brasileiro para suas heroínas e seus coquetéis de pílulas e álcool, é claro, mas estão todos por aí: aquela garota que faz qualquer coisa para chegar onde pretende (e nunca consegue, na verdade), o sexo sendo vendido de todas as formas, uma grande parte da nossa humanidade, da nossa qualidade sendo arrancada de nós, sem luta, sem reclamação, sem um respeito-é-bom-e-eu-gosto.
 O telefone toca e os olhos fogem do asfalto. É a produtora que diz que eu preciso voltar.
 -Você esqueceu que a Elza Soares veio, Falabella?
 Ela me pergunta, como se perguntasse: enlouqueceu? Enlouqueci. Faço a volta imediatamente. Para Elza Soares, a gente faz a volta imediatamente. Um rosto de uma tia aparece no asfalto, de relance, exibindo a foto da pobre família de Garrincha, numa revista do passado. Elza era a grande vilã que tirara o jogador do seio de sua família. Acho que comecei a amá-la nesse instante. Porque sempre amei aqueles que eram cuspidos, não me perguntem o porquê, ou perguntem-me o que quiserem. De modo que fiz a volta e corri para o estúdio, troquei de roupa rapidinho e gravei o programa e ela, é claro, deu um show e eu fiquei feliz. Quando saí, a produção tinha feito uma festa para o meu aniversário e alguns dos meus amigos mais queridos estavam lá. Imagine se eu tivesse ido me embora mesmo, que papel triste! Ainda bem que o suíngue de Elza falou mais alto.
 Mais asfalto, mais listras amarelas e brancas. O carro passa pela assustadora estátua da liberdade que ornamenta a entrada de um shopping, como uma águia romana esmagando a cabeça dos conquistados. Sem luta, sem reclamação. Asfalto, asfalto, asfalto.  Eu sou uma mensagem no meio de tantas, escreveu-me uma leitora. Somos todos mensagens no meio de tantas, não somos? Um bando de corações urbanos em busca dos destinatários. Endereços. CEP. Gente com cep dá menos trabalho, acredita-se. Mais um aniversário. Asfalto. A lembrança das comemorações na Quinta da Boa Vista, na mesa de pedra, sob o galho da árvore torta.
 Você é meio depressivo, escreve-me outro leitor. Talvez. Um pouco. Não o bastante para fazer muita besteira, eu acho. O suficiente para olhar o mundo com algum prazer de descoberta.
 O suficiente para me manter vivo.
 Aqui, junto com vocês.
 À espera da resposta de Jacqueline Susann.