A reinvenção do dia

 Começando a desenhar os movimentos finais d’Os Monólogos da Vagina. Zezé Polessa está deitada no palco, interpretando uma mulher que descobre o prazer de seu corpo, como um astrônomo que olha para as estrelas. A música busca seu volume, para que a voz da atriz e a melodia unam forças. Uma pausa, um café. Ando bebendo café demais, ando fumando demais, preciso parar com isso. Preciso uma hora dessas, parar e descobrir o tempo da delicadeza, como diria o Chico.
 Mas, por enquanto, a energia desenfreada do carnaval ainda não se foi por completo, de modo que o corpo se ressente da folia e a mente está muito acelerada. Na pausa para o café, vou para o fundo do teatro e afugento a batucada que ainda soa em algum lugar do meu cérebro, desde o sábado das campeãs. E então, de repente, escuto a voz de uma tia, vinda da memória.
 - Uma moça bonitinha, essa Gigi da Mangueira. Que coisa, não é?- a sobrancelha erguida, desenhada com lápis marrom, a boca torcida, numa careta de incredulidade.
 Na verdade, ninguém dizia abertamente, mas a pergunta era outra: o que é que essa moça branca faz no meio dos crioulos? Porque escola de samba, quando eu era pequeno, era coisa que a classe média até assistia, mas não participava. Não era bem. A coisa só mudou mais tarde. Mas Gigi da Mangueira era uma coisa. De certa forma, ela fez a ponte e convidou todo mundo para a festa. E o sinhô permitiu o batuque do terreiro, transformando tudo. Lembro dela, numa foto colorida de revista, uma bahiana cor de rosa e verde, com colares e miçangas. Talvez a lembrança me tenha sido trazida pelas cores da saia que o figurino me apresentou há pouco, não sei. Mas é estranho o sorriso de Gigi da Mangueira agora, aqui, na penumbra do teatro Clara Nunes, que também amava o samba. Ele está por toda a parte, marca a cadência dos nossos passos no asfalto de cada dia.
 Ensaiei até tarde e, depois, voltei para casa. Sarita telefonou e falamos da Sapucaí, colocamos a vida em dia, matamos a saudade e, depois, quando todos os supérfluos já tinham sido descartados, ela cismou de aprofundar a conversa, ficou filosófica, exagerou na vodka, com certeza, e resolveu me dizer coisas. Eu ouvi com paciência, ou cansaço, e só pensei no que ela tinha dito mais tarde, quando fui para a cama.
 Ela falou de reinventar-se. No quanto era custoso o processo de torcer o destino, de transformar-se em alguém inesperado, sempre. Falou da eterna insatisfação que nos move pela vida afora e, da investigação da alma, pulou para o corpo, sem nenhuma pausa significativa.
 - Você não percebeu que estamos nos afogando em silicone? Você não viu, na avenida?
 Eu lembrei de alguma coisa que eu li, sobre arqueólogos do futuro descobrirem a nossa civilização, pasmos com todas aquelas ossadas encontradas ao lado de milhares de próteses de silicone, intactas através dos tempos. Tentei ver se conseguia fazer graça, mas a vodka já tinha alterado o humor dela, àquela altura.
 - Não seja idiota! – Sarita ficou agressiva, de repente. – No futuro, as pessoas serão feitas de silicone! Inteiramente. Com selo de fábrica e certificado de garantia. É simples. Chips de computador no cérebro. Internet mental!
 Perguntei se ela estava lendo muita ficção científica e ela ficou enfurecida.
 - Quando você quer se fazer de burro, é intolerável! – ela rosnou, finalizando a conversa. Antes de desligar, selou o seu destino.
 - Não coloque isso na crônica, por favor! – ela disse e desligou.
 Vou colocar, Sarita, você me perdoe. Aliás, já coloquei. Não por causa da sua aterradora visão do futuro e de uma humanidade de andróides à la Blade Runner, mas pelo discurso sobre a reinvenção dos nossos dias.
 Na cama, fiquei pensando no tanto de vezes em que já me reinventei, nas pessoas que eu já fui e deixei de ser, na necessidade de reinventar as histórias, para que elas sobrevivam à massacrante ação do tempo. Fui para cama pensando que faz tempo que não me reinvento, faz tempo que não me permito olhar para um dia e tentar muda-lo de alguma maneira.
 Eu não cheguei a dizer, mas para mim, Sarita, o mais aterrador não é o silicone. O que me apavora é pensar que o dia não possa reinventado, se alguém assim o desejar. E olhe que não peço muito. Uma única coisa basta, uma pequena e definitiva mudança nas almas e nos corações ajuda um bocado. Mudanças radicais de foro íntimo são revoluções sangrentas e, muitas vezes, o coração sucumbe, antes de qualquer vitória, mas uma pequena mudança aqui, uma transformação ali, um novo olhar que lançamos acolá, ah! que coisa boa! Você desligou magoada, porque eu me recusei a ir à festa do apocalipse com você, mas eu agradeço pela lembrança da reinvenção do dia, ouviu? Amanhã mesmo, vou começar a tomar providências.
 Amanhã mesmo, eu prometo, vou começar a reinventar o dia.


Às margens da Lagoa que morre

 Uma leitora me escreve, alertando para o fato do excesso de memória e peso, na bagagem de lembranças, retardar o avanço na caminhada. Segundo ela, uma mochila mais leve permite saltos mais altos, horizontes mais distantes e descobertas mais rápidas. Aconselha-me, cheia de carinho, a esvaziar a mala e arrumar tudo de novo, atirando fora aquilo que eu julgar desnecessário.
 Estou pensando na mensagem, sentado aqui, no meio da tarde de sábado, um vento morno soprando sobre a Lagoa moribunda. Estou pensando nas coisas que ela me disse e ponderando sobre o que devo, ou não, atirar no lixo – que espécie de sentimento e saudade deve-se permitir escapar da mente, antes que ela se extinga? Estou aproveitando a mudança que se aproxima (mais duas semanas e toda minha vida será encaixotada rumo ao novo endereço), para limpar as gavetas da memória e selecionar aquilo que vai e aquilo que fica. É muita coisa, eu admito, mas não sei se quero abrir mão delas, na verdade. Não sei que espécie de alegria eu vou ser capaz de abraçar, sem a lembrança das minhas mágoas. Não vou ser capaz de alimentar uma nova ilusão, sem o parâmetro da solidão. Não. Não vou jogar nada fora, por mais pesada que esteja a bagagem. Preciso de toda a memória.
 Todos precisamos de toda a memória possível. Para traçar novos caminhos, lembrando do esboço que primeiro se riscou. A falta de memória, seja individual ou coletiva, acaba destruindo qualquer possibilidade de novo, qualquer possibilidade de acerto. Como se errássemos o mesmo erro, outra e outra vez – uma coisa triste!
 Outro dia mesmo, estávamos no intervalo da gravação do Sai de Baixo e assistimos ao programa sobre os cinquenta anos de televisão. Todos ali eram profissionais da área, há já algum tempo, e Daniel Filho tinha ido dirigir o programa inaugural e acabamos prestando uma homenagem a ele, nos nossos corações, porque ele já fez tanta coisa legal na televisão, mais da metade do que ali foi mostrado tinha o seu selo, de alguma forma. Trabalho e talento merecem ser homenageados, sempre. Eu penso assim. Mas acabei vendo o programa pelos olhos dele, brilhando ao reconhecer cada momento, cada ângulo de câmera, cada colega que partiu, ou que chegou. Era a memória de toda uma vida. Eu vi. Nos olhos dele.
 Quero um dia ter meus olhos cheios de memória, com o cristalino partido em mil pedaços, cada um deles com uma história própria, refletindo mil outras histórias. Sei que isso me leva ao problema inicial da crônica – a advertência da leitora a respeito do excesso. Às vezes, sou mesmo chegado a um exagero, devo confessar. Por isso, agradeço ao conselho, mas vou continuar com tudo, porque eu acho que um pedaço da memória individual de cada um de nós vai juntar-se a outras, para formar o bloco da memória nacional (e, do jeito que as coisas estão, quem puder ceder mais um pouco da sua cota habitual, a nação agradece). São Miguel há de me arranjar forças para carregar a bagagem toda, ladeira acima. Ele é meu chapa, além de xará.
 E, uma vez resolvido a carregar comigo todo o sentimento, passo à tarefa mais simples de selecionar a matéria. É mais fácil. Prefiro cortar o excesso de peso nessas coisas. Não vou abrir mão de uma única lembrança, de um único gesto, de nenhum beijo - nem mesmo aquele que me amargou a boca. Vou levar comigo todos os meus sonhos, os que espoucaram nos céus e os outros que abortei na calada da noite. É a minha história, o meu traçado.
 Escrevo no meio de uma tarde estranha, cinzenta e abafada. A Lagoa, estendida a meus pés, tenta respirar, asfixiada pelo nosso descaso. Pela nossa falta de memória e de respeito. Eu vou olhar para ela e é um espelho escuro, de uma cor triste, nessa tarde. Elba vai dar um show de forró, hoje à noite. Talvez eu vá, para dançar e celebrar o fato de ainda estar aqui, tocando o barco pra frente. Vasculho a minha bagagem e percebo que a minha vida mudou tanto, desde que eu era um jovem da Ilha do Governador, pensando em prestar concurso para o Banco do Brasil, que chega a ser inacreditável. Se eu jogar qualquer das minhas lembranças na lata do lixo, posso acabar perdendo o fio da meada de vez.
 Minha memória é meu alumbramento. Meu aturdimento com a rapidez com que a vida é capaz de dar voltas. Ladeira acima, subindo numa maciez, e de repente lá vem o diabo do carrinho despencando na encosta e você fica com aquele grito entalado na goela. Eu não sei como é que alguém pode gostar de montanha-russa. Nunca vou ser capaz de entender.
 Minha memória é generosa e manda antigos instântaneos para a minha caixa postal, todo o tempo. Agora mesmo, debruçado no parapeito, de olho na Lagoa, já me despedindo da vista, eu tive a lembrança de bem longe, luzes, cheiros, barracas cheias de artigos, a feira da Providência, às margens dela. Como é que eu poderia saber, naquele tempo? Como é que eu saberia, naquele fim de tarde, olhando abismado para as representações de outros mundos, inatingíveis, então, (porque Miami não ficava na Barra, naquela época!) que as coisas iam tomar um rumo muito diferente daquele que eu imaginei, um dia?
 Como é que eu poderia saber que a Lagoa, naquela tarde fagueira, já tinha começado a morrer?


O lobo de Mayerling

 No engarrafamento, em São Conrado, tentando tirar a cabeça daquela fila interminável de luzes vermelhas, que se estende a minha frente. O arrastar da interminável lagarta acaba nos deixando num silêncio perturbador - não há o que fazer, não há para onde fugir, de modo que fico tentando libertar a mente, para que a situação não seja tão estressante. De repente, não sei porque cargas d’água, mas olho para o topo da Rocinha, para o emaranhado de luzes piscando no alto e lembro das estrelas que Ava Gardner tinha nos cabelos, fazendo a imperatriz da Áustria, em Mayerling. Eu comento com Sarita, que torce as mãos ao meu lado. Ela faz uma careta engraçada.
 - O que tem Ava Gardner a ver com a Rocinha? – e mal me olha, irritada com o comentário.
 - Nada. Eu revi o filme na televisão, daí que o brilho me fez lembrar, não tem nada a ver uma coisa com a outra. – eu respondo, mergulhado nos falsos brilhantes do iníco de noite.
 - Não é aquele em que o Omar Shariff se mata no final? Com a Catherine Deneuve? – ela estica as palavras, fazendo um bico grotesco, quando diz o sobrenome da atriz francesa. – Uma porcaria! Um xarope!
 Eu mudo de assunto, porque já entendi que ela está rosnando para o mundo, culpando a humanidade pelo congestionamento. Mudo de prosa, mas sou infeliz na escolha e comento sobre uma corrente que recebi pelo correio eletrônico, uma dessas milhares de mensagens de auto-ajuda e autoconhecimento que nos enviam diariamente. Ela fica imediatamente furiosa.
 - Você perde tempo lendo esse tipo de lixo? Francamente… - Sarita não está passando um bom momento, é preciso entender. Eu não me dou por vencido e ataco, de um só folego:
 - Cada um de nós tem dois lobos caminhando pela incerteza da alma. Um justo, generoso, que vive em harmonia com o bando e luta quando é preciso e outro que rosna e ataca e morde e traz um olhar de sangue e não consegue nem pensar, porque a raiva e o ódio lhe impedem. Ambos brigam pelo domínio do seu entedimento, lutam bravamente pela vitória. Mas ela caberá àquele que você tiver alimentado com mais frequência. Sem nenhuma sombra de dúvida.
 Eu termino o período olhando para a frente, avançando alguns metros, para frear em seguida. Olho para o lado e ela está boquiaberta, os olhos maquiados de rímel negro, arregalados – um olhar de boneca de pano.
 - Você está falando sério, ou está me sacaneando? Que merda é essa de lobo? Que história é essa?
 Repito a história e pergunto se ela não acha que os lobos merecem alguma reflexão, no final das contas. E pergunto, à queima roupa, qual dos lobos ela anda alimentando ultimamente. Sarita pula no banco do carro, aumentando o volume do rádio. Uma música italiana cresce e o cantor quase berra: … tante cose triste in questa vita. Uma multidão de ambulantes se mistura entre os carros, vendendo água, refrigerantes, frutas, biscoitos, cigarros – Sarita compra uma bebida e estala a língua, enquanto a música sai pela janela do carro, chamando a atenção dos vizinhos… tante ilusione, tante, tante…in questa vita. Tante, tante.
 - Não estou alimentando lobo nenhum, prá seu governo. – Ela acaba rindo do próprio mau-humor. – Mal estou me alimentando, tentando me livrar do excesso de coxas!
 Depois, olha para as luzes da favela e me pergunta, absorta, se tinham lobos no filme.
 Ela não entendeu nada. Um homem tenta empurrar uma caixa de fruta do conde janela adentro e eu resisto a seus apelos. Um menino magro e subnutrido pede dinheiro. Ele me reconhece e abre um sorriso machucado, gritando para um companheiro mais à frente.
 - Olha, ele aqui! Aquele que odeia pobre!
 Eu fico constrangido, sem saber o que dizer e a culpa fala mais alto. Entrego uma nota para ele que desaparece no meio do engarrafamento, misturando-se à escuridão. Estamos quase entrando no túnel, quando o trânsito melhora subitamente.
 Vou mergulhando no buraco de pedra, colhendo lembranças. Mayerling passou no Mississipi, o cinema mais elegante da Ilha, na minha pré-adolescência. Eu tinha uns onze ou doze anos, lembro até do cartaz preso no vidro, anunciando as próximas atrações. Eu tinha o anúncio do jornal colado num álbum, que mantive por um tempo. Recortava os anúncios de cinema e colava, num arranjo esmerado. O álbum desapareceu numa das inúmeras mudanças, mas lembro dele e da páginas enrugadas por causa da cola de farinha de trigo.
 E lembro, é claro, das estrelas que pingavam dos cabelos de Ava Gardner, satélites sem rumo na ilusão dos nossos cotidianos. Alimentei meus lobos com alguma fantasia, partes iguais para ambos, sem preferência. O justo e cheio de harmonia lambeu os beiços e regalou-se com o banquete. O lobo do ódio torceu o nariz e deixou o alimento intacto. Não foi um mérito meu, penso. Foi uma escolha de vida – eu pondero, enquanto acelero viaduto abaixo, rosnando em direção ao teatro, o espaço ilusório que, mais cedo ou mais tarde, acaba colocando os lobos em seus devidos lugares.


Onde o diabo não entra

 E, quando dei por mim, era o verde e o silêncio.
 Cheguei de São Paulo e a mudança estava consumada. Ainda subi rapidamente no apartamento antigo e tudo estava encharcado daquela atmosfera estranha que é a alma das casas inabitadas. O piso claro, refletindo a luz lá de fora, correndo livre até a varanda – as paredes solitárias, com saudades dos adornos e um resto de voz, um fim de conversa que ainda ecoa por ali, a minha palavra escondida pelos corredores. Bebi água e fechei a porta, trancando os fantasmas lá dentro. Nessas horas, a gente tem que ser como a mulher de Lot e partir sem olhar para trás (embora ela tenha feito tudo errado, no final). Com a lenda na memória, não dediquei um segundo olhar ao passado, quando fechei a porta. Parti sem um aperto no peito, sem uma saudade me torturando a alma mas, mesmo assim, virei uma estátua de sal.
 Minha primeira noite na nova morada. O silêncio é tão grande que chega a incomodar. Os cães estão agitados e correm de um lado para o outro, marcando seu território. Imensos vultos negros que subitamente colocam a carranca prá fora de uma bromélia, apenas um segundo, para recomeçar a correria – a sua maneira de brincar, o seu esconde-esconde, eu penso.
 Ruídos, chamados e lampejos. A mata é um bloco escuro de relevo complicado, cheia dos mistérios da madrugada. É claro que não vou conseguir dormir. Muita informação para um único dia. Ainda assim, recosto a cabeça na madeira, sinto-lhe o aroma e olho para o céu. Simplesmente, eu me permito ficar parado, absorvendo o mundo ao meu redor. Uma noite toda estrelada mira assombrada a nossa civilização triste. Os cães adivinham-lhe o pensamento e desatam numa lamúria alta, uma nostalgia de olfatos, deixados para trás na curva da estrada, a saudade do seio materno, da ruidosa companhia dos irmãos, talvez. Como é que eu vou saber porque choram os cães? Às vezes não sei sequer a razão das minhas lágrimas, o que dirá as deles!
 Os camaleões aparecem de toda parte. Buscam a música que brota do corpo da casa. Truman Capote tinha razão. São amantes da boa música, esses répteis velozes e até simpáticos na sua imobilidade. Espero estabelecer uma boa relação com essa turma toda, penso. Pretendo ficar aqui algum tempo. Com todo esse verde e silêncio. E a estranha constatação de que, aqui, vou passar a viver muito mais comigo mesmo – aqui não há o coração da cidade batendo sob os pés – é outra sintonia. De modo que adianto o serviço e vou rodando um pouco o filme, tentando localizar outros Miguel, aqueles com quem eu tenho menos contato. Sem contar que alguns deles eu simplesmente não quis conhecer e ponto.
 Os cães ficaram em silêncio. Há uma cantoria de insetos animada. Um punhado de estrelas, brilhando através das ramas, recortadas no céu. Uma beleza! E um perfume de dama da noite que me venta a saudade da Travessa Pepe, porque tinha um pé esparramado na entrada, que era primo-irmão desse que cheira aqui. A memória invade minhas narinas e o batom grená de Duse Naccarati me espreita por detrás das grades, ainda uma vez. Que bom, eu penso! Meus alumbramentos vieram junto com a mudança!
 Aqui, com certeza, vou tentar juntar alguns pedaços do quebra-cabeças. A mata vai ajudar. Afinal o meu Oxóssi não podia estar em melhor lugar, segundo Chica Xavier que esteve por aqui, deixando seu perfume. Tudo parece estar onde deveria estar, quando se olha para a mata intocada – os desenhos se combinam, os tons se sobrepoem e há apenas uma mancha de cor ali, no lugar certo. A imensurável sofisticação da natureza, eu penso, e minha mente vai produzindo imagens - grandes gatos, manadas, planícies e hienas – roubadas da televisão. Sou capaz de ficar horas assistindo a esses documentários sobre o mundo animal.
Fico tentando reconhecer o meu mundo no deles, encontrando cada uma das pessoas que me são próximas no meio da manada. O meu quem-é-quem na cidade selvagem.  - Isso é bobagem! – Sarita disse, quando contei a ela. - O que nos encanta nas tragédias do mundo animal é a serenidade com que os protagonistas aceitam seus destinos.
 Ela acendeu um cigarro, tragou e olhou para as unhas roxas.
 - E, é claro, a rapidez com que tudo se consuma, ou consome, você escolhe.
 Sarita sai de cena. Volta a se esconder lá no fundo. Já é tarde demais, eu deveria estar dormindo, logo amanhece. Antes de ir prá cama, é preciso tocar as lembranças de volta, como um pastor tangendo seu rebanho. E, antes de dormir, faço uma oração pro Acanjo, porque ele é meu chapa e gosto das asas imensas e imaculadas. E lembro que, uma vez, na casa de Denise Bandeira, Miguel Arraes me disse que onde tem dois Miguel, o diabo não entra. A lembrança do ditado me traz uma alegria: somos mais de um por aqui, com certeza. Esse silêncio, ao menos, será santo. Talvez Sarita tenha razão, no fim das contas. Talvez um pouco de serenidade e estrelas me façam bem. E é nisso que durmo pensando.


Terra dos cangurus

 Meu querido amigo,
 Recebi sua mensagem, cheio de alegria. Querendo responder imediatamente, mas com compromissos e datas pesando no outro lado. Sentado na frente do computador, pensando se deveria escrever uma longa carta para você e atrasar o envio da crônica para o jornal, ou vice versa. Resolvi matar dois coelhos com uma só cajadada, de modo que sua carta será dividida com os leitores da coluna, espero que você e os leitores não se incomodem.
 Estou escrevendo depois do ensaio, já de madrugada, um frio de rachar, no meio da mata. Estou escutando aquela velha canção da Fantine, em “Les Misérables”- sabe qual é? – aquela sobre os sonhos que não podem ser. Pois é essa mesma. É uma bela canção. Victor Hugo ia gostar de ouvi-la, eu acho.
 Faz tempo que a gente não passa um longo período juntos, como quando a gente era moleque e a vida um sonho bom. Muito tempo. Não me lembro há quantas luas você se foi para a Austrália, mas são muitas, com certeza. E ainda hoje lembro da gente voltando prá Ilha, com o dia raiando, nas nossas madrugadas de gatos vira-latas. Fico imaginando se você se lembra também. Fico imaginando como é o seu cotidiano aí, nesse Brasil que deu certo, como você mesmo disse, do outro lado do mundo.
 Não temos dado muito certo, é verdade. Eu gostaria muito de poder contar uma história cheia de momentos felizes e alguns números musicais, mas a realidade é outra. Temos navegado num mar, num oceano de lama e indignidade, de desamor e desrespeito, de profunda solidão. Foi-se o tempo em que os vilões das comédias americanas fugiam para cá, com os milhões de dólares roubados. Não teriam a menor chance com os bandidos daqui, os pobres diabos, pintados nas cores fortes do technicolor. Somos nós que estamos exportando bandidos. É cada tipo! Tente encontrar nos jornais alguma foto do Juiz Nicolau (acesse pela internet os jornais daqui). Parece personagem de Dickens, uma coisa inacreditável! Qualquer dia vamos ser multados por alguma organização internacional por jogar lixo humano no planeta, escreva o que estou lhe dizendo.
  (Pausa. Os cachorros estão uivando lá fora. Agora, silêncio).
 Continuando, nem tudo são lágrimas. O inverno chegou com vontade e um ar frio corta a cidade. Ontem choveu muito e eu dormi com aquela música nos ouvidos. O azul do céu anda transparente e sereno e os micos aparecem no fim da manhã, aos gritos, reivindicando as bananas que eu ofereço com prazer. Tenho gostado de estar aqui. Cada vez mais gosto de estar em casa. Volto para cá satisfeito ao fim do dia e mergulho no mais completo silêncio. O silêncio das matas, que é uma sinfonia de ruídos, mas que faz a sua mente se espreguiçar de prazer. Quero muito que você venha conhecer, quando vier ao Brasil novamente.
 Não sei se contei que escrevi uma peça com as quatro personagens de “A Partilha”. Pois retomei as quatro irmãs e na próxima semana vamos começar os ensaios abertos. Vamos abrir o pano no Vanucci, o mesmo teatro onde elas brilharam na primeira vez, há dez anos. Tem sido muito interessante tanto para mim, quanto para as atrizes retomar a trajetória daquelas mulheres. Desta vez, eu batizei o texto de “A Vida Passa”. E nós sabemos o quão veloz ela é capaz de passar, não é mesmo?
 Papai está enxergando mal e, como sempre, fala muito da mamãe e da saudade que não tem jeito. Como vários personagens clássicos, ele começou a enxergar mais além, depois do problema com a visão. Como se o mundo lá fora fosse perdendo a importância e todo o necessário já tivesse sido armazenado durante a vida, mantendo acesa a luz que não se apaga, a velha chama dos nossos corações. Mas está bem, guloso e divertido, como sempre. É um homem de bem. Como o seu pai. Essa sorte nós tivemos.
 Quero muito ir visitar você, assim que eu puder respirar um pouco e tirar umas férias. Uma hora eu vou ter que dar uma parada, porque vou adiando, adiando e, quando vejo, já não posso mais contemplar o dia que se arrasta a minha frente e que é um dos meus passatempos prediletos. Se é realmente parecida com o Brasil (em climas, bem entendido) deve ser linda a Austrália.
  (Acabei de checar a grafia correta de canguru, para escrever o título e descobri que significa “não sei”, num dialeto aborígene qualquer).
 Escreva para me contar sobre os preparativos das Olimpíadas e sobre sua vida em geral. Tenho muitas saudades e lembro sempre das nossas aventuras. Lembro sempre que você é o meu melhor amigo, embora a distância seja imensa. Porque você dividiu os primeiros sonhos e as primeiras esperanças. Lembro de cada um daqueles dias e me indago secretamente por onde andará você.
 Como diz a Selma, minha personagem, no fim da peça: ou a gente recolhe amor, ou dá a viagem por perdida. É isso que tenho tentado fazer. É com isso que tenho contado.
 No mais, tudo como antes, o corre-corre dos dias, mais uma produção, mais um ensaio, observando a delicada vida das gentes, enquanto tento organizar a minha. Espero receber uma palavra sua, em breve.
Receba (m) um beijo do amigo Miguel


Gralha azul

 Posso me sentar aqui? Só um instante? Não estou invadindo, estou? Tudo bem, eu sei que você é famoso e coisa e tal, mas é gente. Igual a mim. Igual a todo mundo. Não faz essa cara, não. ‘Tou te alugando? Você está esperando alguém, né? Se eu estiver incomodando, dá um toque, falou? Vou pegar um cigarro. Você devia parar de fumar, cara. Quem sou prá dar conselhos, né? Não estou enchendo o teu saco, estou? O cara era o maior babaca, me jurou que eu ia estar entre as selecionadas, mas aí hoje me disse que eu estava fora da parada. Eu trabalho de escorte, nível universitário. Sou modelo. Formada, cara. Melhor do que mofar naquela merda de loja, em Curitiba.
  (Um carro freia com violência na rua e começa a buzinar com irritação. Todas as cabeças do bar se viram para lá. A mulher a minha frente é loura, usa uma malha negra, tem os olhos maquiados e dentes muito brancos. Poderia ser uma mulher bonita, não fosse a obviedade de tudo. Ela continua a falar compulsivamente, enquanto eu viro a cabeça em câmera lenta e olho o mundo ali fora. Dois rapazes começam a discutir, um na calçada, o outro na rua. A mulher continua a falar e tudo soa muito alto)
 Será que você levou um bolo? Ou então chegou cedo? Desculpe, não tenho nada a ver com isso. Mas é que você é gente, cara. Eu sinto. O maior babaca, o cara. Disse que eu tinha mais era que vir, porque ele me arranjava um bico no programa de um amigo, cachê pequeno, mas a gente entra no meio, né? Porque o importante é entrar no meio, o importante é estar onde as coisas acontecem. Eu já saí com amigo teu, vou logo avisando. Babaca o cara.
 Só porque é artista de novela acha que pode tudo. Fiquei três dias no apartamento dele, mas aí ele disse que eu precisava sair, que coisa e tal e eu fui logo pegando as minhas coisas, porque eu não sou cachorro prá ser enxotada. Meu filho, eu tenho classe, eu não cheguei ao ponto de precisar de homem prá pagar as minhas contas.
  (a coisa esquenta na calçada e os dois agora estão prestes a sair na porrada, para deleite dos garagistas e porteiros. Um segurança tenta apaziguar os ânimos, sem muito sucesso. Quem é essa mulher? O que está fazendo na minha mesa?)
 Morei uns meses na Espanha, porque o meu marido era espanhol, eu tenho uma filha lá. Não me deixaram trazer a menina. Eu não ‘tou com grana para pagar um advogado agora e essas coisas, você sabe como é, né? O cara tem grana, a família é cheia dos conhecimentos, mas eu disse na cara deles, disse na cara de todo mundo: sou muito mulher prá criar minha filha sozinha, muito mulher! Porque o teu filho quer é uma empregada de luxo e eu não vim prá um país estrangeiro, prá cozinhar e lavar prá homem. Eu disse assim mesmo, na cara dos pais dele. Arrumei a grana da passagem com um amigo meu, coreógrafo, e voltei. Mas um dia vou buscar minha filha, escreve o que eu estou te dizendo. (ela deve ter trinta, trinta e cinco anos, não mais. Já perdeu o viço da primeira juventude, os cabelos estão maltratados pela descoloração sucessiva, mas de repente percebo o medo que se estampa no fundo daqueles olhos verdes. E não quero mais ouvir aquele blábláblá que parece brotar como a água da rocha, não quero mais estar sentado ali)
 Daí que o babaca me deixou na mão e agora eu estou maquiada, toda arrumada e com vontade de ir lá e enfiar a mão na cara dele, porque deixei minhas coisas na casa de um amigo, mas nem tá dando prá ficar lá, daí que eu vou ver o que é que eu faço. Você me paga uma bebida? Obrigada. Vou tomar um uísque, cara. Tou precisando. Mas gosto de você, vi uma peça sua no Metropolitan, fui com um italiano maluco que não entendia nada, mas morria de rir. A gente se conheceu na churrascaria. No meio do rodízio. Ele disse que de repente me mandava uma passagem. Daí eu vou prá Milão. Vai ser bom, porque aqui ninguém dá chance, cara. Aqui é lei da selva, é por isso que eu admiro quem vence e continua humilde. Vou pedir mais um uísque, você se incomoda?
  (Ela bebe outra dose e eu percebo que meu celular está desligado. Peço licença e escuto as mensagens da caixa postal. Houve um problema. Ninguém vai chegar. Os dois rapazes desistem da briga e partem cantando pneus. A noite está fria.)
 Talvez eu volte pro Paraná. Talvez. Mas se eu voltar, vou pro interior, prá casa da minha mãe. Aí, fico por lá mesmo, mas ia ser uma derrota, você entende? Porque eu saí de lá prá ser alguém, cara. Você sabe o que é isso, você sabe... um cara famoso, porque eu te vejo na televisão faz tempo. Você deu uma subida nos últimos tempos, mas porque merece, cara. (E, de repente, ela começa a chorar. E é tão sincero aquele pranto, tão silencioso e inesperado, que eu desejo ter uma câmara para enquadrar o close e registrar o momento.
 Peço um uísque prá mim e pergunto se ela quer jantar. Ela diz que não, para minha surpresa. Diz não, obrigada, entre lágrimas e uma tentativa de sorriso. A noite está muito fria. Ela se levanta rapidamente)
 Vou nessa. Valeu pelo uísque. ‘Tava precisando desabafar. Um dia, talvez, eu volte prá casa. Um dia. Talvez no fim das contas, cara, minha felicidade esteja mesmo é por lá. Sabe Deus! Valeu.
  (E sai ajeitando a saia negra, ondulando os quadris, num mar de solidão)
 Cai o pano.


A noite da princesa solidão

 Há um retrato a óleo da Princesa Leopoldina, imperatriz do Brasil, no palácio de Schönbrun, na Áustria. Eu lembro da grande parede de rostos da família real. Naquela manhã – gelada - um inverno de gralhas e casacos pesados, durante a visita, junto ao bando de turistas, o meu olhar encontrou o dela e, mais abaixo, a placa com a identificação da arquiduquesa: imperatriz do Brasil. Um certo orgulho besta encheu meu coração e eu fiquei olhando para ver se alguém reparava nela, aquela jovem loura que cruzou o oceano para viver um amor sem grandes encantos. Acabei ficando sozinho, na frente do quadro, porque o grupo já se dispersava em busca de outros esplendores do império austro-húngaro, de modo que fiquei na mirada por algum tempo.
 Sempre gostei de Leopoldina. Por inúmeras razões. Segundo consta ela gostava muito da Ilha do Governador, de onde eu saí. Mas ali, naquela manhã, cruzando os corredores do palácio, testemunha da glória dos Habsburg, eu fiquei olhando para ela e tentando adivinhar os seus passos e os seus sonhos, talvez esmagados sob o próprio futuro.
  (Nas refeições, na minha casa, em volta da grande mesa da copa, a família conversava. Trocava idéias. Falava-se de tudo e lembro de uma noite em que se falou dela, depois do café.)
 - O Imperador não falava nem francês! Imagine só! – alguém indignava-se na mesa da cozinha, enquanto a empregada catava o feijão, sentada lá adiante, ao pé do borralho. - Aprendeu o beabá da língua para poder se comunicar com ela.
 - Uma moça tão fina, coitada! Dizem que ele deu um chute nela! Que ela estava grávida levou o tal chute e morreu de uma infecção decorrente da violência! – outra voz crescia.
 E Leopoldina transformava-se numa vizinha que pendurava a roupa no varal, enquanto se queixava das traições do marido. A Princesa era a mulher rejeitada, a mocinha da telenovela que arrancava uma furtiva lágrima dos olhos das tias - olhos acostumados a ver coisas! E, é claro, era européia, austríaca, o que fazia uma diferença muito grande. Uma heroína loura, de olhos azuis vivendo o drama de todas elas, com o ar da nobreza dignificando tudo. Um grande êxito de bilheteria, sem dúvida. O Imperador era ferozmente destruído pela língua das mulheres solidárias e, na minha fantasia de criança, ele era um homem de dentes de ouro, camisa aberta no peito e cabelo gomalinado. Era essa a imagem que eu tinha de um cafajeste, não conhecia outra.
 Às vezes, lembro dela e de seu amor fracassado. Fico imaginando aquela mulher vagando pelos quartos do palácio, no auge do verão carioca, com saudades de casa, uma penca de filhos e um marido ausente.
  (No palácio de Schönbrun eu reparei que ela tinha olhos tristes, olhos de quem adivinha um futuro de solidão, do outro lado do oceano.)
 Hoje estou assim. Passei todo o dia abestado, contemplando a vida através dos olhos da Princesa, que vieram pousar no lugar dos meus. Não sei o que me trouxe a lembrança, talvez um CD-ROM que recebi da Prefeitura de Petrópolis, sobre o sonho do imperador. Um delicado trabalho de pesquisa e memória. Talvez tenha sido isso. Fiquei até tarde vendo imagens do nosso passado e acordei com esses olhos. Mas desconfio que seja outra coisa, porque não foi só o olhar dela que roubou o meu. Junto veio um aperto no coração e uma ânsia de não sei o quê, de modo que fiquei bebendo uísque, no ar gelado da noite – solitária – pois nem os cachorros estavam buscando aventuras fora do canil. Fiquei tentando entender coisas de todos nós, amarras que não somos capazes de desatar nas nossas almas. Fiquei pensando na Princesa olhando pelas altas janelas do Paço, enquanto a noite tropical brilhava suas estrelas.
  (A Noite da Princesa Solidão. Parece título de um dos livros da coleção que tinha na casa de meus avôs paternos, todos com vistosa encadernação vermelha. De madrugada o relógio tocava e era de se arrepiar todo, quando a madeira antiga rangia no casarão de São Cristóvão.)
 Acho que ainda vai demorar um tempo para que possamos entender e viver o amor de forma menos selvagem. Acho que vai demorar. Mas esperança a gente ainda consegue encontrar por aí, nas delicadas almas das pessoas, como Sueli Costa, por exemplo. Fui assistir a seu show no Mistura Fina e fiquei tão feliz por ter ido, porque ela obviamente nos ia dizendo as canções com tanto prazer e arte que a minha alma comungou com a dela. Ela tem razão: feliz essa alma que vive comigo, que vai onde eu sigo o meu coração.
 Depois do show dei um beijo nela e ela comentou sobre a leitora a quem agradeci as palavras de amor e que também se chamava Sueli. A redundância se faz necessária e eu digo: obrigado, Sueli. Uma segunda vez.
 Quando fui deitar, aconteceu uma coisa engraçada. Eu deixei a lâmpada de fora acesa e, através das frestas, a luz foi desenhando o perfil de uma mulher na parede. Um desenho perfeito, a testa, o nariz, o queixo, o cabelo que caía pelos ombros. As maripôsas chegaram atraídas pelo brilho e seu bater de asas, fazia a luz dançar, mexendo o cabelo da mulher. Uma coisa de se ver, aquele desenho animado que a vida me ofereceu! O uísque acabou fazendo efeito, apaguei a luz de fora e encerrei a noite da princesa solidão.