A gaivota de olhos azuis

 Araras adormece envolta na renda branca da neblina. Faz muito frio e tudo se encolhe, na quietude dos bichos entocados. Nem mesmo os cães se arriscam a entoar uma serenata para a lua, gelada, brincando de esconde-esconde nas nuvens do inverno. A cada dia que passa, gosto mais desse silêncio verde, coroado pela majestade da rocha secular que enfia a cabeça nos domínios celestes, sabedora de sua força. É bom ficar imóvel no jardim, sem dizer nada, pois qualquer palavra acabaria por se transformar numa fumaça branca e o significado se perderia no meio de tanta grandeza. O silêncio das noites de inverno não admite palavras. Melhor assim.
 Mais tarde, tentando colocar ordem no sítio, descubro, numa velha gaveta, uma relíquia dos anos da juventude, presente de Jonas Eduardo Prochownik, meu querido amigo e irmão de longa data: três antigos exemplares das aventuras de Brigitte Montfort, a filha de Giselle, a espiã nua que abalou Paris. Fico deitado, na cama, folheando aqueles pequenos livros, e tanta lembrança rasga a névoa da noite e vem deitar aqui comigo, tanta saudade de alguém que eu já fui um dia, aquele aperto no peito, que sempre nos traz a memória dos primeiros sonhos.
 Brigitte era a nossa paixão da adolescência, acompanhávamos suas histórias, viajávamos com ela pelo mundo afora, pois ela era a maior espiã do mundo e resolvia casos nos quatro cantos do planeta. Brigitte nos abria a porta do sonho delirante e sem barreiras. O impossível não havia naquele mundo de livro de bolso. Ela desafiava os deuses e transformava-se em outra pessoa, num piscar de olhos. Era a russa Galina Cherkova ou a inglesa Nora Teasdale, uma simpática e aristocrática duquesa de idade avançada, uma negra de corpo escultural (sim, ela aplicava uma injeção que lhe mudava a cor da epiderme) e por aí afora. As lentes de contato ajudavam na transformação, escondendo os olhos mais azuis que alguém já possuiu um dia. Brigitte, numa de suas aventuras, chegou a ser transformada em gaivota, por um adversário terrível. Passou todo o livro sobrevoando praias e colinas, amando o mundo lá do alto, vertendo uma lágrima gelada. No final, é claro, conseguiu recuperar sua forma humana e nós respiramos aliviados.
 Leio o primeiro capítulo de uma das aventuras. Dessa vez, ela está no tombadilho de um pequeno barco, cruzando um mar bravio, na direção das Ilhas Shetland, em algum lugar da costa escocesa. Não consigo ir muito adiante na leitura, os meus sonhos já não são os mesmos, já não consigo mergulhar naquele mar de fantasia com a mesma facilidade de outrora. A fantasia sem rédeas e sem forma, que admitia todo e qualquer delírio. Uma chinesa obesa, um cientista louco, deformado pelas queimaduras de um incêndio, ou uma velha feiticeira das Antilhas eram inimigos corriqueiros e nós, na sofreguidão da idade, com uma vida à espera ali na frente, olhávamos para Copacabana e o mundo, ao cair da tarde, nos acenava com a possibilidade de outras histórias, outras vidas, muito além de nossos cotidianos sem grandes acontecimentos.
 Os anos foram passando e abandonamos nossa amada espiã, sem que nos déssemos conta. Ela simplesmente foi largada em alguma gaveta empoeirada, jogada no lixo, ou esquecida na prateleira. Nossas vidas profissionais, nossos comprometimentos com os anos que corriam, já não admitiam mais tamanho descalabro criativo. E eis que nesta noite gelada, em Araras, a espiã mais linda do mundo abre seu sorriso e me abraça, feliz pelo reencontro. Junto com ela, chegam as mais diversas personagens e uma fatia de minha vida me é servida com requinte. Fico segurando aquele pequeno livro nas mãos, como se ali estivesse alguma resposta, olhando para o fogo da lareira, a mente correndo numa rapidez inacreditável, reconstruindo cenários, diálogos, sorrisos e olhares.
 Houve uma vez, numa determinada aventura, em que Brigitte esteve no Rio (ela falava português perfeitamente, aliás ela falava todas as línguas perfeitamente) e ficou hospedada na rua Sorocaba, em Botafogo. Mais ou menos nessa época, uma noite, voltando para casa, depois de uma noitada em Copacabana, uma mulata bonita, muito maquiada e abraçada a um homem louro, aproximou-se de mim, parado no ponto de ônibus, e me perguntou se eu falava inglês. Eu disse que sim e ela pediu que eu traduzisse o que ela tinha a dizer para o sujeito. Ela ia falando e eu traduzindo: sim, poderia ir dormir com ele, mas tinha que sair antes do raiar do dia, porque precisava levar a filha no colégio, estava cobrando tanto pela noitada, fazia isso, fazia aquilo, queria a grana adiantada, etc e tal. Ela ia falando e eu traduzindo, achando aquela situação completamente insólita. Depois, quando tudo foi acertado, ela abriu a bolsa e me estendeu uma nota de dez, que estava amassada no fundo da carteira. Eu fiquei constrangido, disse que não, que não tinha cabimento, mas ela piscou prá mim e apertou a nota na minha mão, num gesto definitivo.  - Meu irmão, aceita! Nós estamos todos na batalha!  Disse isso e saiu caminhando, arrastando seu gringo para a escuridão da noite. Olhando para a lareira, anos depois, no frio de Araras, eu me dou conta de aquela mulher era Brigitte e eu, idiota, não a reconheci na época. Era ela, sem dúvida alguma, e o suposto cliente certamente era algum espião russo, que ela degolaria num hotel barato, impedindo que ele levasse a cabo sua missão de destruir a paz do planeta. Era ela, sim, agora tenho certeza, disfarçada na noite carioca, a minha gaivota dos olhos azuis que abriu as portas do meu coração, numa tarde perdida no tempo e, com seu sorriso angelical, plantou lá dentro, no meio da massa pulsante, a semente do sonho.


De vez em quando...

 De vez em quando volta uma história, sempre a mesma, porque as nossas histórias estão sempre se repetindo, num ciclo, e o bom é que a gente olha para elas com um olhar arregalado de espanto, cada vez que elas aparecem, como se estivessem chegando pela primeira vez. Pois bem, a história volta mais uma vez e lá estou eu no saguão do cine Itamar, olhando para as fotografias de artistas franceses na parede, Mylène Demongeot envolta em arminho branco e Sacha Distel exibindo o sorriso branco de uma manhã nevada. Eu queria muito entrar no banheiro de porta espelhada, mas não me é permitido – as lendas urbanas contam a história de crianças e mocinhas raptadas por chineses malvados para a escravidão branca em Hong Kong. Não podemos aceitar nenhuma bala ou bombom de estranhos e, jamais, em hipótese alguma, entrar no banheiro que eu adivinho de ladrilhos verdes, cada vez que alguém entra e sai. Minha avó paterna contava a história de uma mocinha raptada por uma digna senhora no banheiro de um cinema na Cinelândia. Ela adorava essa história e também gostava de mostrar a célebre foto da noiva separada dos pais pelo muro de Berlim. A guerra fria fazia suas vítimas pelo mundo afora.
 De vez em quando volta uma história, sempre a mesma, e eu me aproximei e encostei a ponta do meu nariz na tua nuca, assim, como quem esbarra, como quem não sabe direito o próprio rumo, e você se voltou e sorriu e era um sorriso largo de dentes e esperanças. Era verão, eu lembro, fazia um calor horrível, a cidade estava presa na fogueira daqueles dias e, quando eu te beijei, o mundo ficou todo bonito, o céu era de anil imaculado, e eu lembrei daquela exclamação do astronauta russo, olhando para o planeta na imensidão do cosmos, uma das sentenças mais bonitas deste século da ciência – a terra é azul!
 De vez em quando, uma história volta, sempre a mesma, e lembro de meus avós, de meus tios e tias, daquela rede de informações e genes que chamamos família e que vão bordando suas histórias nas almas recém-chegadas, com a precisão do artesão calejado no ofício. Com eles, bebi afeto e intolerância, divididos em porções iguais, na mesma taça, e mais alguma ternura, alguma boa vontade, algum preconceito, algum medo daquilo que desconheciam e muita fé naquilo em que acreditavam.
 De vez em quando uma história volta, sempre a mesma, e eu dirijo pelas ruas da cidade, sem saber direito para onde quero ir, mas vou em frente, olhando para as pessoas que caminham e correm e vivem suas histórias delirantes, escrevendo atrapalhadamente o livro de suas vidas, pulando capítulos, numa ânsia estranha, como se quisessem desafiar a finitude das coisas.
 De vez em quando uma história volta, sempre a mesma, e lá estamos nós, com o amor ocupando o espaço da casa, sem saber o que fazer com ele, depois da partida de alguém que amamos. Aí, ficamos zanzando pelos cômodos, olhando para as paredes e tudo é novo e tudo é uma indagação da alma e o mundo parece que vai saindo pela porta da frente. E lá vamos nós, catando um pedaço de um beijo, o fragmento de um abraço, o estilhaço de amor que desorganizou a existência e que vai repousar na mesma caixa dos guardados, aquela que já continha a sua foto preferida, o mergulho no mar azul, congelado em papel brilhante, com o sol por testemunha de tanta felicidade.
 De vez em quando, uma história volta, sempre a mesma, e um abraço no camarim tem um sabor diferente e o coração se abre e você fica tão feliz por poder ofertar alegria e é tão bom quando as barreiras se rompem, quando o humano fica mais forte e alguém que você não conhece lhe faz uma gentileza. Aí, você colhe aquela flor e retribui com o melhor afago, colhido na hora, ainda orvalhado, como diria meu saudoso Vicente Pereira.
 De vez em quando uma história volta, sempre a mesma, e eu estou estreando nos palcos. Tenho de entrar em cena e dizer uma longa fala, no meio do segundo ato. Estou tão nervoso que as minhas mãos molharam a manga púrpura do manto mágico, que meu personagem usa. O teatro João Caetano é imenso e, na coxia, vou dizendo o texto baixinho, com medo de errar, com medo de ver frustradas as minhas esperanças de vida. Ah, sim! O céu está desabando nesta noite, uma chuva grossa lava a cidade e eu estou infeliz, porque muita gente não vai conseguir chegar para o espetáculo. Depois, passei a acreditar que aquela água toda era um presente dos deuses, como um batismo.
 De vez em quando, uma história volta, sempre a mesma, e Beatriz Segall diz um poema de Emily Dickinson, no pequeno teatro Cândido Mendes, e Guilherme Karam me pisca o olho na penumbra dos bastidores e Arlete Salles ilumina o camarim com seu olhar raro e Natália do Vale me arranca lágrimas na estréia d’A Partilha e José Wilker reprime uma gargalhada no palco do mesmo João Caetano, onde estreei numa noite de trovoada. E tanta gente talentosa e amada volta, trazendo suas histórias, sempre as mesmas, sempre uma corrida de obstáculos na direção da luz.
 De vez em quando uma história volta, sempre a mesma, e é domingo e a cidade afrouxa os laços e eu fico aqui, sem fazer nada, olhando para esse dia que acaba, matando as saudades de tudo aquilo que se foi e que, como todas as histórias que já foram escritas, há de voltar um dia.


Na praça de alguma pequena cidade

 Um atalho de terra batida e, quando menos se espera, lá está ela, uma pequena cidade no meio do nada – a rua principal, com transversais magras, um comércio sonolento e um cemitério na colina, que nada mais é do que uma mancha branca, salpicada de verdes e azuis . É bom descobrir essas cidades, parar o carro e admirar a vida que passa, o sol tímido da manhã, o tempo que pára, como numa fotografia em sépia, por causa dos óculos escuros que filtram a paisagem. É bom olhar para elas e guardar o cheiro que tinham, quando primeiro as conhecemos. As cidades, visitadas ou não, sempre exercem algum fascínio sobre nós – cada uma delas está cheia dos mistérios e costumes daquele aglomerado de gente e gente surpreende sempre. Sempre.
 Do ângulo em que me encontro, eu vejo uma porta de madeira pintada de azul, alguns brinquedos e bonecas pendurados num barbante, uma profusão de camisas e tecidos, roupas de bebê, uma colônia antiga, uma ou duas caixas de sabonete, artigos de armarinho e uma velha senhora, com os cotovelos apoiados no balcão. O vento vai empurrando os pés da boneca de plástico rosa de encontro à porta azul e o barulho se repete monotonamente. Mas é uma linda fotografia e os olhos se enchem da eterna alegria da beleza, como diria Keats.
 Eu estive nessa cidade, uma vez. Estive em muitas cidades, algumas bem famosas, mas hoje a lembrança procura os lugares anônimos, aqueles que o olhar cruzou rapidamente, mas que imprimiu alguma boa imagem na retina. São tantos esses povoados pelo mundo à fora, tanto segredo sussurrado num banco de praça e tanto tesouro esquecido num altar, ou num sótão adormecido no tempo, que a descoberta é sempre um prazer admirado - e vamos descobrindo um fio da trama, e mais outro, inventando uma história para a gente que mora naquele lugar, uma gente que sorri e acena e lá vamos nós, seguindo viagem. Essas pequenas cidades do interior, às vezes, mexem com a gente, desorganizam a corrida frenética dos corações urbanos e estendem sua melhor toalha sobre a mesa da existência. Talvez seja esse o encanto dos lugarejos que fecharam a porta na cara do tempo desenfreado e debruçaram-se sobre si mesmos, com a tranqüilidade de quem descobriu que o mundo é a sua aldeia e vice-versa. Talvez, por causa dessa aparente tranquilidade, a alma repouse na admiração desses mundos imaginados anteriormente e que acabam num mato rasteiro, um trevo e uma estrada aberta em frente. Uma estrada que, diga-se de passagem, ninguém está interessado em trilhar. São esses os mundos para além do espelho, para além dos atalhos.
 Os atalhos. Os pequenos atalhos que precisamos pegar, vez ou outra. Há um poema de Robert Frost, que eu adoro. Fala de um homem que, um dia, parou na bifurcação de duas estradas, num bosque amarelo. Ele sentiu-se triste por não poder seguir ambos os caminhos, mas acabou optando por aquela que parecia menos trilhada e isso, é claro, fez toda a diferença.
 Mas eu estava mesmo era falando das pequenas cidades, perdidas no meio do nada, aquelas distantes, que conseguimos avistar da janela do trem, no meio da noite, com uma luz acesa numa casa isolada. Aí, os olhos se deixam ficar para trás, querendo guardar na memória aquela visão, e a gente vai se perguntando quem mora lá, que espécie de vida terá, na calmaria daqueles dias, na solidão escura das madrugadas.
 Novamente os atalhos, eu fico pensando, sentado na praça da pequena cidade, aquela praça de bancos e campanários e um canteiro de amor perfeito. Passo boa parte da manhã olhando para um menino e seu triciclo. Ele pedala, concentrado na tarefa, indiferente ao tanto de mundo que existe para além do trevo e da estrada de terra batida. Ele faz sempre o mesmo percurso, evitando os mesmos obstáculos e eu fico observando aquela criança que é como um anjo, tamanha a luz que cai sobre ele, como se todo o sol dessa tarde viesse à terra com o único propósito de beijar o menino. Afinal, ele se cansa e desaparece correndo e eu olho a minha volta e tudo é silêncio.
 Eu conheço aquele menino. Já estive com ele, antes. São esses os mistérios das cidades, eu penso, enquanto um cheiro de lavanda chega pelo ar. Um cheiro de infância, de banho tomado e topete edificado com afinco, as mãos de minha avó puxando o cabelo para o alto, o corte a la Príncipe Danilo, feito ali mesmo, no barbeiro da esquina. Minha avó ensaboava o cabelo e, depois, penteava o topete – uma vez o cabelo seco, nada conseguiria destruir a retidão de sua linha, nenhum fio seria capaz de aventurar-se para fora daquela prisão cosmética.
 No fim da manhã, eu deixo aquela cidade e acelero rumo a meu destino. A porta de madeira azul, a praça, o amor perfeito, a cantoria dos sinos da igreja, tudo fica para trás – agora, a estrada de terra batida é mais rápida e, logo à frente, estão o trevo e as placas que anunciam outros destinos. Faço uma curva perfeita e o carro agradece a retidão do asfalto. Antes de me afastar de vez, ainda aceno para um grupo que está sentado no acostamento, um maço de cigarros pousado sobre a cruz do atropelado. Eles me acenam de volta e ainda os vejo, pelo retrovisor, cada vez menores e menores, até que desaparecem na imensidão da estrada, enquanto eu sigo em frente, à espera do inesperado que certamente virá na forma de um novo atalho, a bifurcação do poeta, num bosque amarelo da vida.


Penseur

 Ás vezes um pensamento faz uma meia volta no ar e toma o caminho de casa. Às vezes, ele passa por nós, a sua suposta origem, e vai-se embora, para mais além. Para onde vão, os meus pensamentos, que não chegaram aos seus destinos? Em que espécie de energia se transformam as palavras imaginadas e não pronunciadas, não acolhidas por coração algum? Se alguém lhe oferece um presente e você não o aceita, de quem é o presente?, indaga a parábola – se alguém lhe insulta, magoa e fere e você não aceita o ódio, a mágoa e a dor, de quem é o sentimento? Igualmente, se alguém lhe estende uma braçada de amor, colhido logo ali, nos desvãos da vida - e você diz não - com quem fica o amor? Com quem lhe trouxe toda aquela mercadoria de existência e você, sabiamente, achou por bem declinar. Fica ali parado, numa esquina qualquer, aquele sentimento recusado, como uma criança perdida. Os pensamentos de amor e ódio, as bocas de saudade e as bocas de mordida, os gritos e aquela poesia inesperada, tudo se junta numa só nuvem, que um dia foi parte de você, e ela sai varrendo as cidades, na busca por um peito que aceite tanta emoção. As cidades estão cheias dessas paixões humanas, perdidas por aí, e, às vezes, eu acho que elas só permanecem cidades por causa delas. Não fossem essas desenfreadas paixões, cada um de nós tomava o seu rumo e ia fechar as portas. Talvez abandonasse até mesmo a palavra dita. Ficava com o verso e o pensamento. Que um dia ia fazer meia volta, etc e tal.
 Para onde vão os meus pensamentos? para onde vai toda a energia dos pensamentos que povoam uma cidade – como flores brotadas no ar – tanto amor e tanta esperança e tanto sonho provisório? Tanta raiva, tanto medo, tanta culpa e tanta perversidade? Para algum lugar essa energia vai. Grande parte, eu acredito, acaba se reciclando, mas tem uma parte que faz uma meia volta no ar e toma o caminho de casa e é uma chuva pesada de sentimento perdido que cai sobre nós e a gente vai fechando os vidros e vai deixando de se olhar na hora do sinal fechado e vai falando cada vez menos, como se as palavras também estivessem fazendo uma meia volta no ar e voltando à origem dos sons.
 Em Porto Alegre, no Teatro São Pedro, fazendo o Louro, Alto... -uma platéia entusiasmada e eu vou dizendo o texto e meus olhos vão passeando pelo desenho do teatro e, de repente, é como se cada nova personagem que vem chegando se espantasse com a beleza desse espaço. O imenso lustre de cristal que, mesmo apagado, conserva algum brilho aprisionado, as cabeças debruçadas, desenhadas sobre o relevo na galeria, os camarotes, as frisas, tudo vai se revelando, enquanto as personagens vivem suas histórias engraçadas e patéticas. Muito bom fazer teatro num belo teatro. Muito bom.
 Mas aí, domingo, a platéia estava dura, difícil de ser conquistada. Não caía por qualquer jura de amor, não. Eu comecei a suar muito e a sentir muito calor e a platéia não ajudava, estava na defensiva todo o tempo e eu, obviamente, devia estar cada vez mais sem ritmo, daí que liguei o piloto automático (porque já faço a peça há cinco anos e consigo ligar bem o automático) e soltei um bando de pensamentos no ar do teatro. Soltei lembranças de outros teatros, lembranças da beleza dos teatros que existem pelo Brasil afora. É tanto prédio lindo e tanta história gravada naquelas paredes todas! Mas, enfim, lá estava eu, no palco do Teatro São Pedro lembrando de outras platéias mais alegres, de outros risos e também pensamentos de coisas que preciso e quero fazer, de gente que eu ainda quero conhecer, de mundos que eu gostaria de visitar e, quando me dei conta, eles tinham resolvido entrar na dança e aí foi um belo final de temporada.
 Na saída, nos fundos, um grupo de meninos apareceu. Meninos de rua. Entraram correndo, antes que o porteiro pudesse impedir e me cercaram, todos falando ao mesmo tempo, todos pedindo dinheiro e referindo-se a meu personagem do Sai de Baixo. Riam, brincavam e lembravam de pedir o dinheiro e diziam que estavam com fome. Eu não tinha dinheiro trocado para dar a todos, daí que peguei uma nota maior e um membro da minha equipe me perguntou como é que eu ia saber se eles estavam mesmo com fome. Que pergunta mais doida! Outro dia, também, em São Paulo, uma mulher com um bebê nos braços, chorando que era um coisa triste, pedindo dinheiro prá comprar remédio prá criança (que estava com a boca toda ferida) e uma amiga me perguntou como é que eu sabia que ela ia mesmo comprar remédio. Fiquei com ódio: você acha que ela vai o quê? Aplicar?
 Estamos enlouquecendo lentamente, eu acho. Coletivamente. Mas onde estava eu? Ah, sim, peguei a nota e disse que era para dividirem. Aí, o menor de todos, com uma cara safada e um nariz arrebitado, estendeu a mão, com uma firmeza impressionante e disse, com aquela música característica: aqui na minha mão, Caco Antibes! Eu, é claro, depois da clareza de intenções com que ele deu o texto, obedeci. Ele apertou a nota e saiu correndo numa velocidade surpreendente e todos os outros, depois de um segundo de estupor, saíram atrás dele numa algazarra pela noite de Porto Alegre. Ele corria em linha reta, uma camisa azul, e eu fui caminhando até o portão, e fiquei ali, assistindo à cena que ficou cada vez menor, até que foi um ponto e, depois, um pensamento. Porque às vezes, um pensamento faz uma meia volta no ar, toma o caminho de casa e deixa a imagem de uma camisa azul aberta, esvoaçando no frio da noite, correndo solta pelo meio da minha vida.


Sol e flor da Paraíba

 Faz tempo que não me sento para escrever num dia assim, cheio dessa luminosa transparência que, em alguns novembros, abraça o céu do Rio de Janeiro. Geralmente, escrevo na madrugada, quando a cidade está meio que adormecida, mas com as ânsias dos que vivem à noite, pulsando sob os meus pés. Para mim, as palavras são noctívagas - dormem durante o dia inteiro e acordam cheias de vigor, lá para o fim do dia, depois que anoiteceu. Hoje, entretanto, no meio dessa tarde pintada de azul, eu tenho vontade de homenagear minha amiga Elba Ramalho, porque fui ao show dela e saí de lá com o sol no peito. Elba foi me dando um baião aqui, um xote ali, passou na casa do samba, acarinhou meu coração e eu fui me enchendo de uma alegria gostosa, descobrindo as rimas tantas que há por essa nação afora.
 Elba me provoca isso: a lembrança de uma nação. Quando ela enche o palco com aquela presença tão cheia de luz, há um cheiro de fruta madura que baila no ar e uma força que vem da terra, o canto que faz parte da nossa história, um pedaço do mosaico de nossas existências, porque quer se queira, quer não, olhos azuis e cabelos louros à parte, há um nordeste que mora dentro de nós, seja na poesia de João Cabral, nas bandeiras ao vento tão cheias de cor e sentimento, na paisagem do agreste que é o olho do nada. Quando eu a vejo, eu me sinto feliz por ser brasileiro e isso já é meio caminho andado num país tão envergonhado de sua fisionomia.
 Eu sentei na mesa com o Jerry Adriani e, depois, ele me disse que eu estava todo o tempo sorrindo, de boca aberta, como que encantado. E estava mesmo. Porque eu gosto de Elba há já algum tempo e fico sempre feliz de ver gente que eu amo, dançando e celebrando. Elba sempre celebrou os dias que correm velozes, ainda que, por muito tempo, eles lhe tenham sido difíceis e duros no trato. Mas ela não se queixa. Conceição do Piancó, no sertão da Paraíba, como diria o poeta, é um retrato na parede e, ainda que doa, é de lá que ela extrai o riso rasgado à faca e o melhor de sua alma de artista.
 Eu lembro da primeira vez em que vi Elba em cena. Fomos à estréia de Cancão de Fogo e, no final, ela cantava uma música que deixou o teatro inteiro arrepiado. Ela vinha caminhando pelo palco e abrindo aquele vozeirão, que vinha sabe Deus de onde. Era uma sessão de meia noite e nós nos sentamos no chão, disso eu lembro, no teatro Cacilda Becker, em algum lugar dos anos setenta. Comecei a gostar dela, nesse dia e, depois, ficamos amigos e o amor cresceu e a admiração veio e temos tido uma história feliz, de respeito e carinho mútuo. Mas aquela canção, eu guardei na minha gaveta das lembranças, envolta em papel brilhante. Era quase um repente, que ela cantava, com a voz aberta de pássaro voando sobre o sertão. Já faz muito tempo.
 No Canecão, as músicas vieram vindo e um sol foi brilhando dentro, o sol de Nova Jerusalém, quando Fazenda Nova começa a preparar um novo dia e os lagartos estão em plena atividade no meio do jardim. Elba vinha puxando o cordão e eu, atrás, desatando os laços da memória. As praias enfeitiçadas, o cabaré com cortinas de chita, o sorriso encabulado das gentes, a cadência gostosa dos corpos se encontrando na dança, aquela serpente de alegria que é a quadrilha, dançada numa noite de lua - um dia, no Recife, Karam tomou o lugar do crooner, num lugar desses, e deu um show, acompanhado pela conjunto musical emocionado. Uma prostituta pediu que eu lhe desse um autógrafo no seio e eu assinei, eu lembro. E lembro de outros azuis e outras carícias do mar. Tanta praia de cartão postal, guardada na lembrança! e, cada vez que eu incendeio a memória, vem um rosto no meio daquele ensolarado.
 Depois, ela cantou “O Meu Amor”, aquela beleza do Chico, e toda a gente cantou com ela, porque aquela música é toda linda e aquece qualquer coração, mesmo o mais empedernido, o mais escondido, o mais envergonhado. Elba veio para a platéia, ondulando como sereia e os olhos brilhavam na escuridão, os olhos dos gatos que roubaram o sol do dia para iluminar a noite, que foi passando e, depois, o forró floriu no palco e eu florindo por dentro, desta vez em João Pessoa, ainda viajando com Karam e nós dois sentados na varanda do hotel, olhando para aquele mar sem fim, que termina num traço mais escuro, rindo, inventando histórias e contando filmes, com interpretações inesquecíveis. Era verão e o céu imitava uma fogueira e todos os sentidos estavam acordados, um gosto bom na boca, um perfume que encharcava o ar e invadia as narinas, uma beleza! Disso tudo eu ia lembrando, enquanto ela cantava. Foi uma noite muito feliz, numa semana triste (perdi uma amiga assassinada por aquele rapaz desequilibrado, num cinema em São Paulo, mas não quero falar disso. Não, agora).
 Hoje, só quero felicidade. Antes de apagar a chama do dia, quero escutar o barulho do mar de Trancoso, sentir a terra do quadrado sob meus pés, dormir ao sol e ouvir os acordes do violão no jardim, como naquele verão que passamos juntos, na casa dela. Hoje, quero retribuir o carinho que me foi dedicado ao longo desses anos. Diz aquela canção que, um dia, os anjos vão nos chamar para saber que espécie de lembrança boa trouxemos da terra dos homens. Na minha lista, Elba, pode ter certeza de que vai constar o seu nome, escrito num amarelo quase dourado, com a caligrafia requintada, imitando a flor que é você, banhada pelo sol da Paraíba.


Peixe

 Uma leitora (e já amiga, pois trocamos mensagens sempre) me fez uma pergunta, dia desses. Ela queria saber se, alguma vez na vida, eu já tinha pescado. Não me lembro bem porquê, mas era essa a sua vontade. Saber se eu já tinha me colocado na postura contemplativa, mergulhado na paciência, cheia de horizontes, dos verdadeiros pescadores.
 Curiosa a pergunta. Pesquei durante alguns anos na companhia de meu avô, ele sim um pescador apaixonado. Eu acordava diariamente às quatro e meia, com ele (acho que daí veio o meu gosto pelas madrugadas) e ajudava-o a preparar as iscas, carregar os apetrechos, colocar as forquilhas, o barco na água e, quando nós saímos, era um sol de ouro espelhado no meio da baía, que eu guardo na lembrança como a felicidade eterna de um momento belo. Depois que ele deixou de me levar (isso foi antes da idade escolar), eu ficava no portão, olhando ele se afastar, enquanto minha avó fervia leite na cozinha. A imagem de uma mulher fervendo leite numa cozinha é uma peça que todos nós temos nos quebra-cabeças, não é? A espuma branca subindo de repente, avançando pelo cilindro de aço, tentando alcançar a borda da panela, a fumaça espalhando um cheiro adocicado pelo ar da manhã recém-chegada. Eu lembro de minha avó, era ainda escuro lá fora, e ela já recolhia o pão e colocava a mesa do café, enquanto o dia começava a se insinuar devagar, pincelando o céu e vovô concentrado nas tarefas da pesca.
 Vou puxando o fio solto da memória e vejo que aprendi foi coisa, pescando com ele. Ou, se não cheguei a assimilar tudo, pelo menos observei o exemplo com olhos arregalados. A espera, a paciência, a necessidade da concentração e do silêncio, tudo me foi ensinado por aquele homem, naquelas horas que dividimos juntos no espaço do Pituca, seu barco de sempre. O cuidado de artesão na colocação da isca, a elegância com que ele arremessava o anzol no mar, a paciência na espera do ataque. Vovô respeitava seu oponente. Acho que ele nunca menosprezou peixe nenhum, sempre entendeu a grandeza das coisas, de todas as coisas, mas de uma maneira simples, direta, sem bordados na colcha da vida.
 Pesquei, sim. Bagre, cocoroca, papa-terra, um baiacu raivoso (que meu avô atirou de volta ao mar, com um certo desprezo, eu lembro), uma porção de peixes, cujos nomes já me fugiram da memória. Às vezes, eu ficava inquieto e ele ralhava, com doçura, porque nunca houve um homem mais terno neste mundo. Pescava o que conseguia, naquelas horas dedicadas a isso e, depois, com uma calma que copiava a do mar, empunhava os remos de volta à casa. A vida para meu avô era de uma simplicidade e de uma clareza que me assustam até hoje. Há dias, na calada das noites, que eu me pergunto o porquê de não ter recebido a graça de uma total objetividade. Recebi outras, mas não esta, de modo que a serenidade com que meu avô guiava a sua existência ainda me comove profundamente. E demorei para entender que aquilo que eu acreditava ser um vôo sem grandes expectativas de firmamento era, na verdade, um ganhar de alturas interiores. Nada na vida de meu avô era de uma grandeza aparente. Não teve dinheiro, não foi bem sucedido materialmente, falava devagar e sem espalhafato e, para o observador incauto, não era gente que marcou sua passagem com feitos memoráveis. As almas de vasta extensão não são rapidamente compreendidas, por isso eu vou descobrindo o homem a cada dia com maior profundidade.
 Meu avô tinha uma dignidade no olhar que era uma coisa linda de se ver! Não era esperto, nunca foi, nunca pretendeu ser, mas como era agradável! O chapéu de palha pousado na cabeça, a camisa de manga, o corpo magro debruçado sobre o peixe, cortando suas entranhas, com a faquinha amolada e eu parado na porta da cozinha, olhando para ele e para os gatos que rondavam, acordados pelo cheiro do peixe. As escamas que iam caindo ficavam refletindo o sol, no chão de cimento, eu lembro e mais e mais, até que um lago esbranquiçado e revolto se formava a seus pés. É nesse lago que às vezes mergulho, quando me sinto menino, com medo da noite me engolir. Nessas águas escamadas é que me banho, vez ou outra, quando a coisa toda fica esquisita.
 Curiosa lembrança, a da linha retesada, a vara de bambu curvando-se em direção ao mar, o aprendizado. E aquela baía imitando lagoa, sem um nada que lhe encrespasse as águas, durante grande parte da manhã, era uma paisagem clara e um ar bom por toda a parte, eu lembro, mas tenho a impressão de que não comunguei inteiramente com tudo aquilo, àquela época. Não percebi que o ritmo da respiração era outro, então, de modo que essa paz de pintura eu recrio na memória, hoje, aqui, como um peixe que ondula solitário em seu aquário de plantas verdes e cascalho colorido - os olhos dos visitantes ampliados pelo vidro, observando as guelras de um vermelho intenso.
 Pesquei, sim. E continuo pescando pela vida afora – flores da emoção que nos confere a condição humana, gestos inesperados de corações elevados, um ou outro sorriso e as impressões de um cotidiano feroz. Continuo pescando, separando o lixo emaranhado no náilon, à espera da fisgada, do puxão na linha, do corpo alerta e da tensão que antecede o momento final, quando o inesperado emerge das profundezas. Continuo pescando, sim. Afinal, não estamos todos sentados num barco, aguardando a possibilidade de algum horizonte e de alguma recompensa?


Três dias antes do amor

 Tenho corrido tanto neste início de século, que mal tenho tido tempo de aproveitar a chegada do verão - mas ele chegou, finalmente, e trouxe as mudanças de espírito que estávamos aguardando desde o início de dezembro. Chegou meio inesperado, meio molhado, mas ainda assim merecia ter sido melhor recebido, reconheço. Mas a vida vai empurrando a gente pra lá e pra cá, um passo desajeitado aqui, um pisão no pé ali, e a gente sem se dar conta de que o céu já está se tingindo de outra cor.
 Dia desses, entretanto, nem sei mais porquê, cheguei na varanda e me permiti ficar na contemplação da vida que estava passando ali, embaixo da minha janela, numa tarde de janeiro. E que tarde beijava a lagoa, que grande iluminador, esse! - eu pensei comigo mesmo. Uma luz perfeita, de um amarelo vibrante, uma vontade de ficar debruçado e admirado com aquilo tudo, sem nada que quebrasse o mágico daquele momento. Uma brisa que se podia sentir mergulhando no corpo e até ver no encrespado do espelho d’água. Fiquei lembrando de uma frase de Virginia Woolf, acho que está em Mrs Dalloway e ela se refere à beleza da manhã - como para crianças numa praia! - acho que é isso, e eu pensei que aquela tarde era o cenário ideal para crianças numa praia e todos os seus castelos de areia. E celebrei, ali, em silêncio, o meu festival do estio, acendendo o coração e enchendo as narinas com o cheiro que vinha pelo ar. O meu festival do estio. Cheio de entidades tropicais, eu ia pensando, sereias e índios, sacis e caiporas. Dias antes, com alguns amigos, eu tinha assistido a um vídeo de um balé irlandês e ficamos comentando sobre a antiga religião celta. De repente, Mary começou a contar a história de uma raça de fadas, as pixies, na verdade humanóides alados, que habitavam as florestas da Irlanda. Daí que, ali, pendurado na sacada, lembrei da história e fiquei inventado as minhas entidades, umas fadas brasileiras, cheias de gingado no bater de asas, despudoradas no vôo, que eu fui soltando pelo céu da minha imaginação.
 O verão tira as pessoas de casa e coloca a cidade num movimento gracioso. A volta da Lagoa ia ondulando com o tanto de gente que passeava e corria e pedalava, celebrando a temporada. É bom olhar pra gente. Tem gente que gosta de observar os pássaros. Eu gosto de observar gente. Fico inventando histórias e acontecimentos, partindo de alguém que acabou de cruzar o meu campo de visão. As histórias vão se misturando e trazendo outras e, no final, a cidade é cheia de personagens, porque é isso que elas são, na verdade.
 A brisa ganhou corpo e mexeu com tudo lá embaixo. Era só uma ameaça de vento, mas não ia se concretizar. Ela soprou a calçada e um bando de folhetos fez um vôo rasteiro, para aterrisar mais adiante. Devem ser folhetos de cartomantes e adivinhos, eu pensei, porque eles proliferam nesta época do ano.
 Trago a pessoa amada em três dias.
 Eu adoro isso. Trago a pessoa amada em três dias.
 Cada vez que alguém me entrega um desses panfletos, eu me imagino sentado numa cadeira, na frente da clássica cigana da bola de cristal. Sempre reluto, antes de atirar o papel fora. Sabe Deus quando é que vai se precisar de uma força extra!, eu penso, tentando gravar o número do telefone. E tudo porque me fascina essa única frase: trago a pessoa amada em três dias.
 O que faríamos, se soubéssemos, com certeza, que dali a três dias ia chegar o amor que se foi? Não é tão simples assim, se a gente pensar bem. Se o amor chegasse com hora marcada, na estação, como alguém querido que se ausentou por um tempo, esses três dias antes do amor iam ser inacreditáveis! Afinal, esta volta com hora marcada exige um encontro impecável.
 Sarita chegou sem se anunciar, pousou o queixo no meu ombro, leu o iníco da crônica e disse que estava sem pé nem cabeça. Depois, concluiu que não esperaria os três dias estipulados para a volta da pessoa amada.
 - Não esperaria nem um! Nem um minuto! Se não esbarrasse com o cachorro na porta da cartomante, dava a visita por perdida!
 E concluiu, com uma careta de desprezo:
 - Quer saber do que mais? Estou chegando à conclusão de que amor é coisa pra desocupado!
 Saí do computador e abandonei a crônica. Arrastei Sarita pra varanda, achando que a visão da cidade maravilhosa à noite, acalmaria aquele coração, mas ela não me deu trégua. Praticamente exigiu que eu mudasse o rumo da crônica e eu concordei, tentando não alongar a conversação. De repente, ela parou de falar.
 A noite estava linda. A lua, nos céus, era uma lua árabe. A tarde generosamente tinha ofertado sua perfeição à noite. Havia uns pássaros voando na lagoa. Volta e meia um planava sob a luz e era como se ele brotasse do nada, uma mancha de branco que estendia as asas, uma, duas vezes, até desaparecer de novo na escuridão.
-  O que é aquilo? – Sarita espichou o pescoço, abruptamente.
-  São pixies – eu disse, sem pensar.
 Ela me olhou com um ar de interrogação e desenhou a palavra, puxando o queixo pra baixo: pi – xies?
 Eu não respondi.