Kilimanjaro

 Chove, chove, chove – eu volto para casa, no meio da tarde e secretamente agradeço por todo esse pranto que traz de volta um verde que andava escondido, como se a chuva arrastasse uma velha camada de vida e revelasse o esplendor das entranhas – assim afundo na mata, com a esperança da água que nos garante mais um período de existência no planeta, olhos abertos à espreita daquilo que a vida possa me oferecer. Um único animal, uma pincelada de cor nas penas de um pássaro, ou o grito agoniado de um filhote perdido, qualquer sinal me bastaria.
 Há, entretanto, um silêncio pesado por toda a parte e uma imobilidade de aranhas. O carro avança ladeira acima e eu tenho a breve ilusão de que o mundo parou e que nada se mexe, até a água que se choca de encontro às ramas cai com uma suavidade inesperada, por um instante. Acelerar o automóvel e rugir o motor, no esforço, é quase uma violação deste espaço. O silêncio daqui, por vezes, é assustador. A mata pode ser o recanto mais solitário do mundo, eu penso, já quase no meio da estrada.
 Vou subindo ao encontro da rocha que se ergue, molhada, brilhante, como uma interferência no caminho, aquela mesma pedra de que Drummond falou. A montanha imita o dorso de um imenso peixe que, por um capricho das marés e das luas, acabasse aprisionado na floresta – sempre encontro nas montanhas o mesmo fascínio e a mesma solidão ancestral das cidades esquecidas – sempre as olho com reverência, desde que subi aos Andes e arrisquei uma mirada até o fim do mundo, corcovas e corcovas a perder de vista e as neves eternas testemunhando a tristeza dos homens na terra.
 Ainda batem nossos corações urbanos, nas grandes cidades. Ainda caminhamos em direção ao desconhecido, agarrados a sentimentos pouco nobres, apavorados com a imensidão das próprias almas. Ainda. Ainda agora, no sinal, um menino tentava atirar bolas para o alto, mas elas teimavam em cair no asfalto molhado e ele desistiu, correndo para a janela – a metade do rosto pintado de branco, um saltimbanco trágico no trânsito da Barra. Ele subiu no estribo da caminhonete e eu percebi que ele tinha uma ferida na base do pescoço. Perguntei se ele já tinha passado alguma coisa ali, ele disse que já estava bem melhor, os braços magros e as eternas mãos estendidas – isso é tudo o que conseguimos ver – e alguma nova ferida nos corpos machucados. Eu lhe estendi uma nota e ele abriu um sorriso magoado.
 - Fica com Deus. – eu disse, quando o sinal brilhou verde, ao alto.
 - Fico? – ele me perguntou, sinceramente surpreso com o meu desejo.  Acelerei para me livrar do constrangimento com que a miséria nos invade, rapidamente avancei, respirando fundo, mas os olhos daquele menino, uma imagem de guerra, uma criança africana, magra, faminta, atirando bolas para o alto, negando toda e qualquer evolução da espécie, os olhos daquele menino estão teimando em brincar na frente dos meus.
 - Fico? – ele repete e repete, ainda agora mesmo, chegado ao meu portão, depois de subida a ladeira, debaixo de chuva, mergulhado no silêncio.
 O rosto daquele menino me sopra uma mensagem estranha, agora, sentado na frente do computador, a tela brilhante à espera dos caracteres: é preciso entender que o sagrado nos habita, ele sussurra. É preciso perceber que o sagrado pode não ser eterno, mas ainda assim sagrado, ainda assim imenso, ele me diz, abrindo aqueles olhos negros. Olhos que nadam nas águas da chuva que vem caindo do céu, lavando as histórias de tantas infâncias perdidas.
 Abro mais os olhos e vejo um galho mais desaforado refletido na tela, avançando sobre as letras. Os olhos do menino finalmente se foram e sua voz emudeceu, transformada no sussurro do vento que sopra por toda a parte, trazendo a lembrança fria de domingos nublados à beira mar.
 Terminada a crônica, o dia vai prosseguir como tantos outros, como este mesmo que já termina e que foi assim: acordei, trabalhei, escrevi, meu coração sofreu um pouco por mais um menino esquecido, mais uma história mal contada, mais uma vítima das nossas savanas de concreto, assombrado com a montanha acima de mim, aquele seio de rocha apontado para o infinito, a massa escura que pode ser o gigante do meu quixote, na falta de moinhos.
 Porque no dia em que subi ao início dos Andes chilenos – um dia claro como aquele para crianças numa praia! - eu compreendi que o sagrado pode ter a grandeza das montanhas ancestrais e também a qualidade do efêmero. Como um de nossos corações, batendo no azul do dia.
 Mas ainda assim sagrados. Ainda assim, imensos.


Um riacho azul em Shangrilá

 Riacho é o que corre pelas nossas cabeças, uma palavra depois da outra, ligeiras, ligeiras, brotando da fumaça, na base dos cérebros, que adivinhamos uma região nebulosa, uma noite azulada cheia de mistérios. As imagens nascem nesse canto da massa cinzenta, eu penso, como se viessem do fundo, fazendo uma curva no alto do crânio, um carrinho de montanha russa prestes a desabar atrás dos olhos.
 Na coxia de South American Way, tomando uma cerveja no gargalo, assistindo ao espetáculo dos bastidores, uma coisa que gosto de fazer desde que me entendo por gente – uma imagem desliza pela fronte e chega rápido ao coração: minhas tias escondidas atrás da caixa do teatro de fantoches, contando histórias para as crianças, com princesas de cabelos de lã amarela e chapéus medievais. Eu teimava em espiar a mecânica da coisa, ainda que me mandassem voltar para a frente – estava sempre me arrastando de volta para a coxia, admirando o braço esticado, afundando no tecido rosa que era o vestido da heroína. Nunca conseguiram fazer com que eu assistisse a uma peça de fantoches até o final, sentado ao lado das outras crianças. A beleza para alguns de nós reside nas entranhas. O encanto mora na solidão, eu penso, encostado na parede do bastidor, admirando a pele clara de Stella Miranda, que evolui à luz dos refletores, sua voz clara enchendo os olhos e corações da gente da platéia. Stella, esta noite, é a minha princesa de tempos idos, com o turbante imitando alguma exótica ave do paraíso.
 Não sei ao certo se é o efeito da cerveja (não sei precisar quantas tomei), não sei se é porque meu pai está assistindo ao espetáculo, mas esta noite o riacho me parece mais caudaloso. Nesses momentos, tenho observado, geralmente facilitamos o curso, limpamos o leito, para redesenhar o mapa: desde a nascente da saudade até os limites daquilo que entendemos como nossos corpos, nossa carne, a morada dos desejos mais secretos – é preciso aproveitar a correnteza, pegar uma carona nas águas mais generosas daquele momento e seguir rio abaixo, colhendo lembranças, saudades e novas paisagens.
 Por isso, abro os olhos: a minha frente os tecidos balançam ao som da música, brilhos e bordados, aviamentos, jóias, botões, chapéus e fivelas – cada um deles um traço nascidos do talento de um artista, que conhece bem o palco, porque já andou em toda a sua extensão.
 Há tempos venho querendo falar de Cláudio Tovar e louvar seu talento. Ele é grande, porque vai além, porque reinventa, reconstrói e redesenha o corpo dos atores e atrizes e nos toma pela mão e nos conduz a lugares nunca dantes visitados, com aquela harmonia que faz bem à alma – sua criação brilha também em outro espetáculo musical a que fui assistir dia desses e que se chama Um dia de Sol em Shangrilá - uma deliciosa caixa de música, em cartaz no Leblon. Lucinha Lins, Cláudia Netto e Selma Reis são aquelas garotas de que gostamos tanto, a releitura das garotas ao lado, desta vez dobrada a assustadora curva dos quarenta, descasadas, correndo atrás do prejuízo, atrizes e cantoras de talento. Uma festa, onde mais uma vez Tovar mostra a que veio, de modo que me enchi daquele sentimento bom que é a generosidade de aplaudir (e que é um aprendizado longo, todos nós sabemos disso.)
 Saí do teatro feliz e voltei caminhando até o Scala, para ver o final do meu espetáculo e novamente a coxia e outra vez me encosto na parede do bastidor, a mesma do outro dia, quando papai assistia ao espetáculo. No dia em que o riacho correu caudaloso, no dia em que revisitei meu desejo. Hoje como ontem, talvez como amanhã – como as três personagens da peça, busco um dia de sol naquele vale encantado perdido nas neves do Tibete.
 então, já quase no fim, quando Ryta de Cássia encheu o teatro com sua voz de veludo cantando Coração, a mágica se deu: ali, encostado no bastidor, eu sentei mais uma vez na poltrona clara e macia do cinema Mississipi, a luz azulada enchendo a sala, o alarido da garotada na matinê de domingo – hoje como ontem, talvez como amanhã – mas ali estou eu, naquela tarde dos anos setenta, saindo do cinema, após o musical. Posso ver a luminosa tarde da Ilha, saindo com os amigos, à espera do ônibus, no ponto logo antes do cemitério – pagava-se a passagem de acordo com o trajeto e recebia-se uma ficha redonda, de plástico colorido. Vermelhas, verdes e amarelas. Prendíamos as fichas entre o encosto e a armação de fórmica do banco, abaixo do cano de metal.
 Muito antes da vida ser consumida nas páginas das revistas especializadas, onde a intimidade é vendida como uma espécie de arte, muito antes da decadência dos costumes, quando ainda era lícito sonhar. Naquele tempo, o riacho brotava sem parar uma água clara e decidida, a água do sonho, enevoada e profunda, que os meus braços de homem já não conseguem alcançar.


Homo Sapiens

 Stella Miranda me deu um jabuti de presente, na estréia da peça, de modo que ele recebeu o nome de Carmen, ainda que eu não lhe adivinhe o sexo. Mora no meu jardim, escolheu um gravatá forte como morada e passa os dias arrastando-se pela terra, observado por este cronista, que tenta aprender alguma coisa com a paciência de seus gestos e a solidez de seus passos. Não sei de que modo, não sei que trâmites legais devem ser trilhados, mas vou tentar arranjar um cônjuge para Carmen, assim que eu descubra quais suas preferências sexuais. Algum outro jabuti que a deseje do jeito que ela é – vacilante, lenta e voraz! – mas ainda assim capaz de encantar alguém de sua espécie, algum jabuti faceiro que porventura venha a cruzar seu caminho, um dia. A paisagem apreciada aqui do alto é muito mais bonita com olhos duplicados, de qualquer forma.
 E, já que iniciei com os animais e a lembrança de seus olhos doces, mando notícias da turma aqui de casa – Arnaldo teve a pata amputada, no final das contas. É um cão de caráter e tem lutado com coragem e resignação. Estou feliz por ter tentado, por não permitir que ele se fosse sem luta. Se o destino assim quiser, que nos leve de supetão e nos arranque a vida de um só golpe, caso contrário que nos permita o direito de sair no braço, eu penso, e Arnaldo parece concordar, atirando-se sobre mim, na eterna alegria dos reencontros. E aproveito o parágrafo para agradecer aos leitores que enviaram afeto, terapias alternativas, carinho, força e palavras de coragem. Aceitem, por gentileza, esse muito obrigado emocionado.
 Ziporah, aquela gata branca e esnobe, que assistiu a inúmeros crepúsculos a meu lado, no apartamento da Lagoa, envelhece com uma deliciosa indignidade, nos matos daqui. Volta e meia desaparece e Maria fica doida à cata dela, lanterna em punho e coração sobressaltado, pois que a gata é o xodó dela. Mas Ziporah já não atende aos seus chamados. Aquela dama de nariz empinado e mau humor notório descobriu um mundo de prazer por estas bandas e arranjou vários amantes. Um escândalo. Despiu-se de tanta nobreza, anda pelos cantos, esgueirando-se a malandra, o pelo sujo e emaranhado, mas o rosto está sempre brilhando com uma juventude reinventada.
 - Tem um que é negão, Miguel! Um negão safado! Imenso! – Maria abre um sorriso, recuperando o sotaque baiano que ela deixou para trás, na curva da estrada. E arremata: - Essa gata está triste!
 Depois vem os micos, ansiosos por sua entrada em cena. Andaram desaparecidos, nesses dias de chuva, certamente abrigados mais ao alto, na ilha de verde suspensa, logo antes do céu. Mas dia desses, durante uma estiagem, um deles veio me chamar na varanda, sentado no gradil de madeira. Coçava a barriga e gritava alguma coisa sobre urgência, foi o que entendi. São dois bandos que vivem nas cercanias. O bando do alto e o bando de baixo, menos numeroso. Corto as bananas em rodelas e eles fazem a festa. Depois, partem sem um muito obrigado, sem um aceno que seja, mas deixam no ar uma alegria buliçosa.
 No mais, gambás e tucanos, agarrando-se ao que resta de árvore, de folha e rama. E eu, parado, observando o jabuti chamado Carmen, em sua caminhada, até que a noite esboce um sorriso e ele desapareça sob o gravatá. Dias chuvosos esses últimos, dias de água escorrendo pela pedra, dias de alguma contemplação.
 À noite, no quarto, janelas abertas, televisão ligada - a mulher com um penteado estranho, um coque escuro no alto da cabeça e brincos de pastilhas verdes, fala pausadamente sobre a experiência da morte clínica, descreve com serenidade o túnel de luz e a sensação de extremo bem-estar, a paz que almejamos toda uma vida, enfim, ali na frente!, mal se avança no corredor brilhante, libertos da carne, à espera dos mestres ascencionados e de toda a abstração a que nos agarramos na vida terrena. Ela vai falando e seus olhos se ausentam, como se buscasse o lugar já visitado e o aroma daquele sítio onde um dia provou desta paz, onde numa tarde qualquer da existência conheceu a plenitude da alma.
 Depois dela, outros depoimentos, paredes brancas, ausência de cor, corredores iluminados com uma frieza de gelo e médicos que afirmam que tudo não passa de um grande caos no sistema, em pleno colapso, quando os arquivos são apagados, num frenesi químico, curto-circuito, explosão. E silêncio. Apenas silêncio. Eu mudo o canal perturbado com a idéia e presto atenção na harpa que toca lá fora, aquela com que a natureza nos brinda, aquela de que Truman Capote falava.
 Saio para a varanda, assuntando o céu escuro e percebo o todo que me envolve. Mil olhos, mil patas, mil vozes, cada um deles uma criação rara. Cada um deles, nesta noite, uma parte de mim, mergulhado em silêncio, comungando com a vida lá fora


Cá com meus botões

 Em tempos idos, na minha infância, volta e meia um menino era mandado ao armarinho da esquina, para buscar alguma miudeza de que se estivesse precisando. Uma tia sentada na máquina de costura, os pés apertando o pedal de ferro rendado, com o nome do fabricante, era o que bastava – estavam sempre na urgência de um retrós, de uma agulha ou qualquer outro acabamento. Um chamado e lá íamos nós, pela rua, os cabelos em desalinho, sem camisa, em busca da encomenda.
 Na mesma calçada, bem ali, à sombra do flamboaiã e da amendoeira, ao lado do sobrado onde morávamos, ficava a loja que atendia tão seleta freguesia – nada de extraordinário, três ou quatro portas que me pareciam altas demais, placas de ferro ondulado, que vinham abaixo com estrondo a cada fim de dia. Ficava logo depois da loja de modas femininas, cujo letreiro lia A Rosa Rubra e em frente à loja de umbanda que, entre incensos e imagens, vendia também borrachas e lápis para a meninada a caminho da escola.
 Cestas, estantes e poeira – esse era o universo daquele empório que parecia conter um pouco de tudo e cada uma das poucas necessidades daquela gente. Ali, na penumbra do armarinho, descobria-se aos poucos um mundo de coisas e de formas – novelos, brinquedos ordinários, aviamentos, uma ou outra peça de tecido, bisnagas de cores vibrantes, aguardando os festejos do próximo carnaval, roupas baratas, caixas e mais caixas de botões e rolos de plástico colorido. Seu Eduardo, o dono do negócio, a cabeça branca, imaculada, atendia atrás do balcão de tampo de vidro, onde dormiam medalhas e anéis de fantasia. O braço coberto por uma penugem branca, ele media o tecido no metro pregado ao balcão e escuto, ainda hoje, com muito prazer o ruído da tesoura rasgando o pano. Fazia um pique, numa margem da fazenda e a tesoura avançava até o meio – dali para a frente, o pano era rasgado com as mãos, dobrado e embrulhado no papel cor de rosa que ficava à mão, na grande bobina de ferro, perto do rolo de barbante.
 Tudo isso, é claro, transformou-se numa fotografia em sépia, jogada num álbum amarelado, que ninguém tem muito interesse em olhar. Mas hoje, entretanto, acordei com a lembrança dos armarinhos, pleno das fitas e bobinas de outrora. Hoje, resolvi desenrolar o carretel e recuperar algum fio da meada, eu penso, mergulhando novamente na penumbra da memória, sem olhar o dia que explode ensolarado lá fora.
 Hoje é um dia de armarinho. Hoje é dia de recuperar o fascínio pela descoberta e ter de volta o sentimento que sempre me arrastou para aquela loja, o que ainda hoje me atrái nos armarinhos das cidades do interior que, porventura, atravessem meu caminho. Hoje é dia de louvar a excelência do garimpo - a caixa empoeirada que guarda, adormecido sob os maços de decalques, o broche de lagartixa de esmalte vermelho com olho de rubi.
 De modo que continuo adentrando as portas desses comércios com a reverência de um arqueólogo, o explorador sujo de poeira que chora ao descobrir a tumba de algum faraó, eu penso - a boneca de plástico com a pálpebra pintada de azul, um risco negro delineando os olhos, era a princesa egípcia que descia o rio em sua barca dourada, reclinada no elegante canapé, sob o baldaquino de lápis lazúli.
  “Cuidado com a nostalgia! Cuidado com a nostalgia!”-as advertências vêm de toda a parte - leitores, amigos, pessoas próximas, todos apavorados com a saudade, todos me olhando como se indagassem o porquê da tristeza visitar minha palavra, de quando em vez. Eu não respondo. Mesmo porquê não conheço outro caminho para avançar, senão o retorno. Mas penso cá com meus botões que algo está errado, nesse medo de olhar para trás que temos vez ou outra. Porque se resolvemos gostar de armarinhos e de garimpo e de busca, não há como fugir de uma ou outra melancolia que se esconda ali, sob os maços de decalques, ao lado do broche encarnado. Não há. Não há como caminhar nas ruas e voltar para casa com os corações urbanos protegidos na redoma. Não há. Mas ainda há o garimpo, ainda a caixa com a lagartixa brilhante, ainda o desejo de buscar e ainda o olhar que se debruça sobre o futuro. E é por isso que continuamos, é por isso que vamos em frente.
 Eu penso ques, ao contrário, deveríamos instituir nossos dias de armarinho. Celebrar a saudade e revirar as prateleiras, à cata de tudo aquilo que se foi - tampas de papelão voando pelos ares e segredos e carinhos e amores impossíveis outra vez visitados, as bocas novamente molhadas, os corações descompassados, outra vez crianças, outra vez o menino-corre-ali-e-me-traz-um-novelo-dessa-cor, outra vez o mundo de possibilidades. Assim criam-se as datas importantes.
 E, como sempre acontecia, depois de feito o negócio, puxavam as portas e apagavam as luzes, logo após a Ave Maria.
 Já que está feito o nosso negócio, assim faço eu, fechando este dia.


Quarto de costura

 Não sei se por causa dos armarinhos da semana passada – e, por falar nisso, saibam que foi muito bom receber todas as mensagens, com as lembranças de tantos armarinhos ainda frescas na caixa de entrada – mas talvez por causa deles e das subseqüentes palavras que vieram chegando durante esses dias, a crônica de hoje demorou para encontrar a liga. Ficou dançando na minha cabeça, eu achei que tinha colhido alguma inspiração no ar, como quem colhe um suspiro, mas foi miragem e dissolveu-se assim que sentei na frente do computador e abri o arquivo.
 Daí que joguei damas, reversi, wordzap, paciência, olhei pela janela, assuntei o verde, fiz o diabo e nada – aquela releitura da página branca, a angústia da tela vazia, lançando uma luz irreal no ambiente, era tudo o que havia e não era o bastante. Um problema, acreditem. Há sempre o fantasma daquela nota da redação informando que o colunista não entregou seu texto, de modo que quando o mote não chega, o coração acelera e a boca fica ressecada, como um peixe salgado.
 Resolvi, então, que ia escrever aos pedaços, aos arrancos, colando estampado com listra, flor com geometria, numa colcha de retalhos - como aquelas de fuxico, as mulheres em volta da sala, costurando e falando da vida do alheio. Volta e meia, durante um relato, uma delas se emocionava com a própria história e alguém tinha que correr para buscar água fresca, tamanha a aflição da coitada! Falavam de sonhos, de seus homens e de seus lares. Exibiam suas crias, apregoavam seus talentos e tentavam desesperadamente encontrar um motivo para continuar naquele dia após dia.
 E foi numa dessas tardes de alinhavo que escutei a expressão sussurrada pelo canto da boca, numa advertência zangada, porque havia uma criança por ali e menino não devia escutar certas coisas.
 - Eu estou lhe dizendo. Ela se perdeu! Todo mundo sabe disso! Ela se perdeu, batata!
 Falavam da filha de uma conhecida. A tal que tinha se perdido, a frase bailando na minha cabeça, imaginando como deveria ser a tal experiência: perder-se, cortar as amarras e sair navegando à deriva no mar das próprias emoções.
  (Anos depois, numa feira livre, em Botafogo, a mulher que sempre me vendia laranjas, confessou com o rosto transtornado que a filha tinha se perdido - ela quase gritava - e a moça sentada num caixote tinha um ar de nem-te-ligo, uma felicidade aprisionada dentro. Ali, no meio do colorido das frutas, consegui enfim ilustrar a abstração de outrora, enfim uma imagem para o perder-se sussurrado no quarto de costura. Aquela moça tinha se perdido e eu achei a coisa mais linda do mundo, embora não tenha dito nada a sua irada mãe. Covardemente recolhi minhas laranjas e me afastei, pensando por onde andaria a mente daquela moça, tão descaradamente apaixonada.)
 Olha eu divagando e visitando outras paragens. Voltemos ao retalho, ao fuxico, às mulheres que cobriam suas camas com cores e esperança. Que criavam seus filhos e resolviam a existência nas cartas de alguma cigana, um sinal da cruz e a benzida de um preto velho. Os filhos aprendendo sortilégios, incensos e magias, levados por elas às sessões, como quem divide um segredo.
 Cada uma delas tinha se perdido, de alguma forma – cada uma delas tinha ambições secretas e desejos silenciosos, para além dos empadões de crosta dourada e da prole de orelhas e pescoços limpos. Acho que não tenho feito outra coisa na vida a não ser me encantar com os olhos dessas moças a quem prometeram tudo, os olhos das que não tiveram nenhuma chance e os olhos daquelas que enfrentam a vida com uma determinação emocionada. O mistério de quem nasceu voltada para dentro e conhece os segredos da multiplicação.
 Pois lembro de todas elas, conheço seus nomes e guardo fresca a memória das que já partiram. Preciso encontrar um tempo para escrever cada uma de suas histórias, assim elas poderão ter um sono sereno, sob a terra inquieta. Lembro da serenidade, das ânsias e dos calores que afogueavam os colos rosados - lembro de suas vozes, de suas histórias e de seus lamentos. Lembro delas, de seus universos e chego a ficar de boca aberta, porque mulher, às vezes, parece que não tem fim.
 Pois não é que de fuxico em fuxico, já é hora da despedida? Mais uma vez obrigado pela troca, pelo envio de opiniões, afetos e palavras inspiradas. Para terminar a tarefa, gostaria de dividir uma delicadeza que me enviou Patricia Bueno. Uns versos do grande Neruda, aquele homem de belas palavras, que parecem traduzir o compasso dos nossos corações urbanos:
  Se cada dia cai, dentro de cada noite
 há um poço onde a claridade está presa
 Há que sentar-se na beira do poço,
 à sombra e pescar a luz caída com paciência.


Sem título

 Mamãe tinha um desejo secreto que se manifestava todo final de ano, com as proximidades do Natal. Já falei sobre isso inúmeras vezes, mas como estamos sempre contando a mesma história, mudando apenas o ponto de vista, arrisco-me a fazê-lo ainda uma vez: a vontade dela era mudar toda a festa, fazer uma celebração mais condizente com os ventos do estio e com a nossa cultura. Queria que os presentes da meninada fossem trazidos por um avô Índio, numa cesta de palha, colocados aos pés da bananeira decorada. Não lembro de detalhes, mas a idéia era essa. Claro que seu desejo nunca encontrou eco e sempre esbarrou no paredão que era minha avó, agarrada às tradições, sem nenhuma vontade de mudar o que quer que fosse. E mamãe, pensando bem, talvez não quisesse mesmo mudar nada, no final das contas. Talvez alimentasse um desejo secreto e ponto final. A idéia da trangressão já era suficiente. Uma forma de resistência, talvez.
 Eu temia que as mudanças pudessem estragar a festa, sentado na forquilha do tronco, no alto da goiabeira. Pensava que essa história de Vovô Índio era muito esquisita e tentava alcançar um ângulo de visão que me permitisse espiar a atividade no quarto dos fundos, onde minha avó e minha tia embrulhavam presentes, no calor daquele dezembro.
 Talvez, com algum esforço, eu consiga me lembrar do peito nu, um risco de chicabom cortando a pele, como uma faixa de miss. Talvez, com algum esforço, eu possa até sentir outra vez o aroma de café torrado que brincava no ar, nos dias mais quentes – ah, sim! ali naquele canto, uma mancha de cor no vermelho das pitangas, por favor. No ar, um grito de mulher irritada com alguma arte do menino, chamava o apelido que perseguia minha infância.
 - Ô, bicho de goiaba!
 Tenho cá, entre meus guardados, a esperança de que os avanços da espécie tornem possível, afinal, visitar as dimensões do tempo a gosto do freguês, acho que a realidade virtual vai cuidar disso logo, logo – e que festa para todos nós, poder enfim bater à porta da própria morada! Literalmente mergulhar na tela que acabamos de pintar na mente e voltar e voltar e voltar, para depois avançar e nadar nas lembranças do futuro. Que alegria poder saltar de dezembro em dezembro, não apenas contemplando a colcha de retalhos da própria vida, mas retocando a existência. A felicidade seria recuperar um ou outro Natal, uma ou outra fotografia de família e dizer enfim aquilo que nunca se disse, por culpa, por medo, por covardia, sabe lá Deus o porquê de tanto silêncio.
 Essas épocas festivas, ano após ano, vão despertando emoções baratas e borrifando colônias antigas no ambiente gelado da caminhonete, eu penso, acelerando em direção à árvore que flutua serena no meio da Lagoa. Parado no sinal, eu me flagro no retrovisor e finjo que sou um daqueles personagens do programa Martha Stewart, a quem ela pergunta, numa dublagem deliciosa, enquanto lá fora a neve cai em grandes flocos: como foi sua colheita de nozes este ano? Ou, ainda: tortas de bagas vermelhas devem ser comidas na manhâ seguinte à ceia de Natal, com uma porção generosa de creme fresco. Eu sorrio e acordo do devaneio com a pancada seca da bola do saltimbanco improvisado que arrisca um show de malabarismo. A bola cai sobre o capô e fica quicando, enquanto o menino faz uma careta engraçada, pedindo desculpas pelo fracasso do número circense.
 O que diabo são tortas de bagas vermelhas?
 Há uma facção de fãs do reggae que defende a teoria de que, num futuro distante, quando os povos oprimidos tiverem finalmente a sua chance, Bob Marley será cultuado como uma espécie de santo. Gosto de pensar nesse futuro cheio de chineses, frituras japonesas e neo-jamaicanos adoradores de Bob. Talvez nessa era, que não chegaremos a ver, o nosso Natal tenha enfim encontrado o seu estilo e venha a ser aquela celebração tropical com que mamãe sonhava. A festa de uma noite de verão, com o velho índio trazendo os mimos. É uma possibilidade.
 Agora, antes de fechar a crônica, lembrei de um fato curioso. Pouco antes dela ser internada, estávamos conversando, na casa da Ilha, e ela me confessou que tinha visto um índio parado, no quarto. Uma visão. Não dei muita importância, achei que ela estava muito assustada, mas com o passar do tempo, comecei a achar que aquele índio tinha vindo vê-la, como alguém que visita uma filha dileta.


Duas canções

 Andamos pelo mundo como Adriana Calcanhoto, eu penso, olhando as cores que explodem no vidro da janela, borrões de roxo e lilás, que são as orquídeas margeando a estrada. Mais além, na encosta, os meninos passam depressa. Eu vejo doer a fome dos meninos que têm fome, eu canto - vistos através das flores, num relance - por toda a parte os meninos que têm fome, eu penso, parados nas soleiras dos casebres, correndo na direção do nada, a vida que não vai além do trevo.
 Mais adiante, um grupo, sentado no acostamento, pedra caiada, ali, bem ao lado do altar com uma cruz pintada de azul e a imagem de um santo, assinalando o local onde um deles perdeu a vida para a velocidade de um carro. Cruzes pelo percurso, como a pedir: olhai por nós, olhai por nós! Mas os meninos logo desaparecem, com rapidez, cobertos pelas pétalas das flores enlutadas que crescem por todo o lado. É nesse momento que a viagem começa a ficar cansativa, o corpo desejoso de liberdade, no banco do automóvel.
 Depois, quando o olhar se perde na imensidão da natureza, Raul Seixas começa a cantar que deveria estar agradecido por ter feito sucesso e comprado um corcel setenta e três, mas não está. Acha tudo meio idiota, tudo sem sentido, esperando a morte com a boca cheia de dentes. Um solavanco e eu estremeço por dentro, um daqueles nossos terremotos interiores que, por vezes, são devastadores. Engulo o ar depressa demais, assustado com a perspectiva de uma tristeza mais forte, mas o alarme parece ser falso. A vida fica em suspenso, enquanto o asfalto corre sob meus pés depressa demais, até que o tremor desapareça.
 Aparentemente, foi um abalo controlável e de pouca intensidade, não chegou realmente a assustar. Não gostaria de ter o peito revirado no meio das festas de fim de ano, quando geralmente ocorrem os piores cataclismas desta ordem, por isso, com um gesto brusco, eu apago a voz de Raulzito, desligando o som, e tento redescobrir as cores do mundo, cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores. Fico cantarolando baixinho a canção de Adriana, mas já não consigo cortar as amarras do balão que teimou em pousar na boca do estômago. Porque em seguida voltam os meninos que têm fome na canção dela e nas encostas, parados nas soleiras, adivinhando a estrada. Consequências dos tremores, penso. Os deslizamentos que arrastam para a luz aquilo que andava escondido. A gente acaba imitando por dentro a violência da chuva que cai lá fora.
 Os leitores só terão acesso a esta crônica no início de janeiro, quando já for passado todo o sentimento e todo o comércio e todas as lembranças de tudo aquilo que não se tem, as faltas matérias, as ausências da alma, de modo que tudo pode cheirar a guardado, mas que sirva como alerta para a temporada dos tremores do ano vindouro. Porque precisamos todos começar a colocar a mão na massa, para que a vida tenha um sentido comum, para que não nos contentemos com os corcéis setenta e três. Para que possamos realmente prestar atenção naquilo que o irmão ouve. E a tarefa é um dos trabalhos de Hércules, sem dúvida alguma. O voluntariado talvez seja uma saída, penso.
 E nossos amigos, cadê? Nossa alegria, nosso cansaço.
 Estou indo para Lisboa. Ando precisado de olhar as origens, quero voltar a fronte para o começo e admirar o quadro do Tejo, ainda uma vez. Talvez de tanto admirar, talvez a persistência na mirada traga algum esclarecimento. Parte de mim veio dali, nos genes de Frederico Pinto Costa, lisboeta e amante do teatro. Quero, pois, sonhar com as caravelas e rolar na língua os sabores e a poesia de luíses, fernandos e florbelas: amor, anda o luar todo bondade, beijando a terra a desfazer-se em luz. Amor, são os pés brancos de Jesus que anda pisando as ruas da cidade. As palavras dos augustos e anteros, entre tantos outros que deram consistência ao nosso pensar e que bordaram as imagens que andam gravadas cá por dentro. Quero respirar o ar das ruelas e ladeiras e mergulhar o rosto na maciez de um xale negro franjado, onde se desenham as rosas rubras que são os nossos corações. Escrevo de lá, prometo, como quem manda notícias, ou como quem rabisca um cartão postal, às portas de um monumento.
 Por enquanto, ó tremores. Por enquanto, tudo ainda é vida. Até a volta, portanto, quando enfim o verão tiver chegado e, com ele, todos os pecados da estação, os fins de tarde abrasados e a mancha alaranjada no horizonte. Até o reencontro da paisagem gravada nas retinas – nossas cidades mergulhadas no fogo, recuperando os desejos e os movimentos que aplacam a fúria dos nossos terremotos da alma e enchem de ilusões os nossos corações atordoados.
 Eu acordei. Não tem ninguém ao lado.