A crônica que não há

 Hoje acordei com vontade de escrever uma crônica, coisa que não faço há algum tempo. É um bom exercício este: agarrar a vida pela crina e tentar traduzir seus espasmos.. Hoje acordei com vontade de jogar as palavras para o alto, para depois arrumá-las, numa sequência de cores e sentimentos. A crônica é, na essência, uma paisagem impressionista. Um por de sol pontilhado ou a visão de uma casa perdida no meio do nada. Uma fatia de vida que se apanha em pleno voo, como se apanham estrelas por aí.
 Durante cinco anos escrevi uma coluna n'O Globo, intitulada "Um Coração Urbano" e passava a semana observando a vida, como um bicho à espreita, tentando capturar aquele momento que me renderia a crônica da semana. E durante todos aqueles anos - já estávamos todos conectados, benza Deus! - estabelecemos eu e os leitores, uma conexão muito forte (tenho amigos daquela época até hoje).Então talvez eu não tenha acordado com vontade de escrever uma crônica no fim das contas. Talvez eu tenha acordado com saudades daquela confraria de amantes da palavra que iam, por sua vez, traduzindo as emoções que aquela fatia de vida lhe provocara, numa progressão sem fim.
 Emily Dickinson (sempre ela em minha vida) escreveu: "Eis minha carta ao mundo/que nunca me escreveu!". Amada Emily! Tivesse ela vivido em tempos midiáticos, certamente o mundo lhe escreveria. Mas voltemos à crônica e à vontade de escrevê-la. No princípio era o verbo. Sempre ele. Quando nos privam dele, roubam-nos a alma. Deixamos de ser. É fundamental, portanto, exercitá-lo. Aparar as arestas desta ímpar capacidade que nos torna humanos. Rolar as palavras na língua, acariciá-las, torná-las parte de você.
 Eu aprendi a amar as pessoas, porque aprendi a amar as palavras, não sei se isso faz algum sentido. Mas quando me dei por gente, sabia traduzi-las. Ontem mesmo, por exemplo, fiquei olhando a plateia sem ser visto. É uma deformação profissional. Gosto de espiar as reações da plateia, coisa que só posso fazer quando não estou no palco. Gosto de ir adivinhando histórias e tento ser aquela pessoa, ainda que por um breve instante. Tenho uma certa obsessão com neurônios-espelho, aqueles neurônios que permitem que nos coloquemos no lugar do outro e que eu secretamente gosto de chamar de neurônios da tolerância.
 São Paulo acordou chorando. Chove. Fico olhando o riacho que se formou lá embaixo, na rua, à espera de um barco de papel que me ofereça alguma viagem. Porque depois do desejo de escrever a crônica, há que se garimpar o assunto. Afinal, qual o sentido de escrever uma carta ao mundo, sem ter o que dizer? Gosto de pensar nessas cápsulas do tempo, onde vão-se guardando lembranças de nossa civilização, para que os sobreviventes de algum possível holocausto nuclear possam ter alguma memória do que foi essa fatia de vida.
 Busco rapidamente alguma palavra que nos traduza o estado de espírito, antes que a cápsula se feche e imediatamente uma palavra salta: estarrecidos. Estamos todos estarrecidos com a absoluta falta de decência que nos governa. Estarrecidos. Espero mandar melhores notícias, numa próxima cápsula. Pronto. Agora voltemos a buscar um assunto para a crônica. Deixe-me ver... Acho que estou sem foco. Acordei cedo e fiquei como um urso à beira de uma corredeira, à espera do salmão. Mas não consegui pegar nada. Estou sem foco. E acabei de descobrir que a vontade de escrever a crônica foi-se sem dizer sequer um breve adeus. Acontece. Amanhã eu recomeço, como diria nosso poeta Drummond. Ainda estarrecido. Mas esperançoso de que juntos dominemos a palavra e troquemos o adjetivo. Bom dia a todos.


Sem perder a viagem

  Nós morávamos num prédio pequeno, encardido, numa travessa da rua da Passagem, em Botafogo, a travessa Pepe. Não éramos muitos, na verdade eram só quatro apartamentos e um santo pintado sobre um losango de azulejos, na fachada. Não era São Jorge, eu acho. Talvez Santo Antônio e todas as suas esperanças de felicidade. Ah, sim! Tinha também uma trepadeira de dama da noite que se esparramava pela entrada e que nos deixava tontos no verão com seu cheiro adocicado. O andar térreo era ocupado por Duse Naccarati, a soberana da comédia, e eu nunca me esqueço dela, ali, naquele quintal de cimento, um xale franjado jogado nos ombros, a boca pintada de vermelho, como um cravo aberto ao sol, conversando comigo, sempre rindo, sempre afastando os galhos da roseira que teimavam em se agarrar nela. Naccarati ria, escancarada, e afastava os galhos com delicadeza, dizendo: ‘tá vendo, Príncipe? Elas não me deixam... . Duse até hoje me chama de príncipe e eu sempre agradeci por essa realeza inesperada. Anos depois, eu ainda escuto o som alegre de sua voz no quintal cimentado da Travessa Pepe.
  O apartamento era pequeno e eu fui morar com Duto, meu amigo, meu irmão, dividindo as despesas, ou a falta delas. Herdei o contrato de Vicente Pereira, que resolveu se mudar para São Conrado, mas que vivia por ali, iluminando as escadas escuras com seu sorriso mágico. E tanta gente passava por ali, e era tanto riso e tanta falta de dinheiro e tanta esperança – eu lembro que eu e Duto sonhávamos em ter um som, um três em um, o mais simples possível, mas não conseguíamos comprovar renda para abrir um crediário, por isso cantávamos. Era muito engraçado! Um acabava uma música e lá vinha outra e mais outra, até que as gargantas estivessem secas e o cheiro do bolo de fubá subisse, avisando que Duse nos ofereceria uma xícara de café, com direito a lanche. Não tínhamos um centavo, Guilherme Karam, às vezes, como quem não quer nada, aparecia com umas compras e umas delicadezas para ajudar na dureza dos tempos, mas olhávamos para o futuro com uma alegria surpreendente. Eram assim aqueles dias.
  Esse mundo não existe mais. Duse mudou-se para Gávea, eu parti para Copacabana, Vicente se foi, Carlos Augusto Strazzer se foi, Cláudio Gaia se foi, Doutor René, do quarto andar, também se foi e aqueles dias, aquelas tardes, aquelas noites perfumadas e risonhas transformaram-se em neblina, assim, num piscar de olhos. Duto foi o único que permaneceu na Pepe, até que um dia, no meio da madrugada (eu nunca saberei ao certo o que foi que aconteceu), caiu daquela varanda, onde conversávamos com Duse e ficou lá, deitado no cimento da área, de cuecas, um sorriso estranho bailando na boca. Eu chorava e pensava que ele estava com saudades das roseiras da soberana. Depois que Duto também se foi, eu nunca mais pisei na Pepe. Até hoje meu coração se encolhe magoado, quando passo pela Rua da Passagem.
  As lembranças da Pepe vieram, porque um leitor me escreveu, dizendo que não suporta minha coluna e que sou irremediavelmente piegas. Diz que sou melancólico e que não tenho o direito de falar de tristezas, porque minha vida é boa demais, que eu tenho dinheiro, sucesso, etc e tal. Em parte, sou obrigado a concordar com ele. Sou piegas, sim, e meu coração, às vezes, é um oceano de melancolia. Qualquer pessoa que tenha uma história para contar, e que tenha sido testemunha do fim dela, sabe do que eu estou falando. O problema é que geralmente empurramos as histórias para baixo do tapete e passamos a vida como alpinistas domésticos, fingindo que nada daquilo repousa ali, no centro da sala. As minhas dores voam livres pelo céu da Lagoa, em busca das minhas saudades. Há noites em que vou para varanda e fico lembrando das vozes e dos risos daqueles que se foram, porque é triste esquecer o som do riso de alguém que amamos um dia. Quando lembro, começo a rir sozinho e desato um nó após o outro, num ritual necessário – essa leitura do meu livro dos mortos particular.
  Sou piegas, sim, caro leitor. E me dou ao luxo de sê-lo, porque convivi com gente maravilhosa, talentosa, criativa e cheia da dádiva do humor – essa bafagem de esperança que cai em cascata pela boca, lavando as amarguras do peito. Eu lembro que no dia em Vicente Pereira morreu, eu chorei sem parar, até que lavei o rosto e liguei para Dona Odete, em Brasília, tentando parecer forte, sem saber o que dizer àquela mulher que tinha enterrado seu filho amado. Odete estava fungando e me disse que a casa estava cheia, amigos de toda a parte estavam chegando. E, de repente, sem o perceber, ela me disse uma coisa linda.
  - É tanta gente, Miguel, que eu ‘tou fazendo uma feijoada. ‘Tou cozinhando, acredita? ‘Tou chorando, mas ‘tou cozinhando!
É exatamente isso que eu tenho feito. ‘Tou chorando, mas ‘tou cozinhando, tentando organizar um banquete. Peço perdão à ilustre clientela, se os pratos não estão a contento. Afinal, estamos tão pouco acostumados com a felicidade, não é mesmo? Mas não vale à pena capitular e, é preciso que se diga, eu não estou sozinho – tem muita gente que já entendeu que a maior besteira do universo é ter a chance de chegar nesse mundo, olhar prá tudo com ar de besta e perder a viagem.


Alguém morreu aqui embaixo

 Acho que era Romy Schneider, num filme dos anos sessenta, que recusava-se a dizer adeus para alguém que ela amava, num bar enfumaçado. Ela apenas apertava os olhos marejados, tentava um meio sorriso, abortado no meio do caminho, e dizia de uma única vez.
 - Eu já disse adeus demais por uma vida.
 E, depois, ia embora, eu acho, já não me lembro mais do filme. Não lembro sequer do título.
 Um homem foi atropelado aqui embaixo, ainda agorinha mesmo. Corro para a varanda e vejo uma massa indefinida, coberta por um lençol branco. Nenhuma vela, eu penso, e os atropelados sempre têm uma vela, oferecida sabe Deus por quem. Fico parado na varanda, olhando para o movimento alguns metros abaixo, incapaz de afugentar uma pergunta que grita na minha cabeça: de onde veio aquele lençol e quem cobriu o corpo?
 Um homem acabou de morrer e a noite da Lagoa assume um ar solene, assim, de repente. Até a brisa que vinha soprando prendeu a respiração. Eu olho e vejo tudo em câmera lenta: os guardas que conversam, enquanto aguardam quem é de direito, o motorista do ônibus que gesticula, explicando o acidente, as luzes da patrulha que rodam no teto, dando à cena um ar de cinema. Vai ver foi por isso que eu lembrei de Romy Schneider recusando-se a dizer adeus. Aquele homem, lá embaixo, foi tão de repente, tão inesperado o seu momento final, que não teve tempo sequer de pensar na despedida. Simplesmente, foi-se.
 Eu desço e me aproximo do grupo que se formou, assuntando o ocorrido. O homem não é daqui do bairro, ninguém nunca o viu, aparentemente vinha da Lagoa, talvez tenha ido sentar-se à beira d’água e aproveitar a noite morna, talvez estivesse precisando de alguém que lhe oferecesse um ombro amigo, sei lá, não sei de mais nada, não consigo tirar os olhos daquele homem que não teve a chance da despedida e então me dá uma coisa tão louca, tão estranha, e eu que sou avesso a aglomerações, pergunto ao policial se posso olhar o rosto do morto. Não me pergunte o porquê, leitor, mas eu precisava vê-lo, só isso. O guarda levanta a ponta do lençol e eu olho e tento dizer uma prece mentalmente, mas não consigo – as palavras se formam e se dissolvem uma após a outra – de modo que eu desisto e volto para casa.
 Um homem morreu aqui embaixo, não tem nem meia hora. Vinha da lagoa, na direção de Ipanema. Já tinha certa idade, era um senhor, tinha uma vida pelas costas e, sem dúvida alguma, várias despedidas no currículo. Morreu observado pelo Redentor, iluminado no céu sem nuvens, e por um ou outro passante. Eu tento me concentrar em alguma outra coisa, mas não vai ser possível. Ligo a televisão, fico mudando os canais sem nenhuma vontade de assistir às imagens que vão passando, uma após a outra. E Romy Schneider volta a rondar a minha lembrança e já está tarde, senão eu ligava prá Flávio Marinho, ou prá Gilberto Braga, e ia descobrir que filme era aquele, porque eu não consigo lembrar nem porque Romy Schneider se despedia, no filme. Imagino que algum amor impossível, é sempre essa a razão, não é? O mundo é feito de amores impossíveis e mortes inesperadas, eu penso.
 Um homem, há coisa de uma hora atrás, vinha cruzando a rua, quando um ônibus interrompeu sua trajetória.
 Romy Schneider estava num bar. Da locação, eu lembro bem. Muita gente sentada nas mesas. Não lembro da música que tocava, não lembro nem se havia música no ar, mas certamente havia. Não se diz adeus, num bar enfumaçado, sem que a vida nos ofereça uma trilha sonora. Essa gentileza patética sempre nos é concedida. Há sempre um fundo musical, na hora do adeus mais sentido.
 Um homem morreu sem música, sem buzina, sem ranger de freios. Nenhum som. Nada. Até mesmo o projeto de vento que soprava pelo Jardim de Allah resolveu desaparecer. Seu réquiem são as vozes metálicas que saem do rádio da patrulha, sua última melodia foi o sussurro do vento que não veio.
 Romy Schneider morreu tão triste! Eu estava em Paris, quando ela se foi, não de modo tão inesperado. Eu lembro que, quando o filho dela morreu, num acidente trágico, um fotógrafo de uma revista invadiu sua propriedade e tirou um instantâneo da atriz, sofrendo nos jardins. A foto publicada saiu com a legenda: a dor de Romy Schneider. Estranha civilização, essa nossa, que busca seus nutrientes na dor alheia. Romy certamente achou que viver não valia à pena. Mas sua morte foi, de certa forma, anunciada. Não trouxe o estupor que essa morte anônima, há coisa de duas horas, não mais, instalou na minha cabeça.
 Às três da manhã, eu desisto do sono e vou para a varanda. Já retiram o corpo, não há mais nada que perturbe a mágica desta noite. Prá além dos morros da floresta, uma luz brilha nos céus, vinda não sei de onde. E então, eu consigo fazer uma prece – mais uma conversa desatinada do que oração, mas de alguma forma isso me tranqüiliza. Volto prá cama e durmo, sonhando com Romy Schneider que recebe o anônimo atropelado num bar enfumaçado, onde os anjos tocam jazz, as pessoas são felizes e ninguém nunca, nunca em toda uma vida, aprendeu a dizer adeus.


Histórias de todos nós

 Meu avô era um contador de histórias extraordinário. Não teve oportunidades na vida, nem muita sorte. Na verdade, segundo as palavras de minha avó, se ele resolvesse abrir uma fábrica de chapéus, os homens começariam a nascer sem cabeça, mas os infortúnios de sua existência, aparentemente, não amarguraram a alma daquele filho de imigrantes, de modo que a lembrança dele está sempre ligada a um sorriso largo e à tranqüilidade de suas mãos que me embalavam à noite. E havia, é claro, as histórias, onde príncipes, duques e marqueses, de nomes fantásticos, lutavam para resgatar alguma princesa. Uma luta inglória, a dos nobres, já que, no final, invariavelmente, era um pobre coitado qualquer quem conseguia a proeza, casando-se com a bela e tornando-se membro da família real. Vovô narrava os detalhes, com olhos brilhantes, a língua estalando no céu da boca, chicoteando as palavras num ou outro momento de maior aventura. Eram muitas histórias e muitas as noites em que dormi com o som doce de sua voz, enquanto vovó ajeitava os lençóis cheirando a anil, após dormirem no quarador do terraço toda uma tarde sob o sol.
 A lembrança de meu avô me chega num novo quarto de hotel, desta vez em Curitiba. Faz muito frio e o mundo lá em baixo, visto pela janela do décimo andar, parece coberto por uma fina tela esbranquiçada, manchando a escuridão de uma luminosidade estranha. Não há ninguém que se aventure pela rua, nesta madrugada gelada. Nenhum coração, por mais solitário, por mais carente de um olhar inesperado, vai se aventurar pelas ruas cobertas dessa névoa de gelo. Esta é a noite das almas esquecidas, eu penso, e volto para os lençóis brancos da cama imensa.
 E eis que a voz de meu avô, vinda do passado, traz de volta o calor de outros tempos e o mar dourado da ilha, o mar da infância, onde tudo era futuro e encantamento. Não sei ao certo o que foi que me trouxe essa lembrança, talvez a sopa do jantar, o pão molhado no azeite, ou uma pincelada de rabanete, coisas que ele adorava, mas de repente é tão nítido o som daquela voz amada, que eu estremeço sob as cobertas, enquanto as palavras saem de minha memória e voam livres pelo quarto.
 - E a pedra está lá! – ele dizia, contando a história de uma princesa raptada por um gênio do mal. Os pretendentes, para salvá-la, tinham que transpor uma pedra imensa, à beira de um precipício. Vovô pontuava a narrativa com esse bordão, lembrando as dificuldades da empreitada.
 - E a pedra está lá! – eu escuto e fecho os olhos tentando lembrar daquele sorriso e da maneira doce com que ele mexia nos meus cabelos, aumentando ou diminuindo a ação, à espera do meu mergulho final no sono.
 Eu queria que ele pudesse ter conhecido as pedras que eu consegui transpor, mas ele não viveu o bastante para conhecer as minhas aventuras. Morreu com a mesma tranqüilidade com que levou toda uma vida e me deixou um presente inestimável: o dom de contar e, principalmente, ouvir histórias. Vovô gostava de qualquer história, a mais comum, a mais corriqueira. O fato mais insignificante tinha, para ele, alguma poesia – todo e qualquer relato pessoal era um esboço de desenho a ser bordado pela imaginação, porque todo passado é ficção, quer a gente queira, quer não. Até mesmo a história oficial, aquela dos livros, acaba sendo fruto da imaginação de alguém que resolveu contá-la.
 A exemplo dele, vou pela vida, escutando histórias e, confesso, aquelas que me deixam mais pleno são as histórias que não ganham manchetes de jornais, mas que tem um sabor único: a mulher, ao meu lado no avião, conta que abandonou o marido, após ter sobrevivido a um incêndio; o motorista do táxi, com os olhos rasos d’água, diz que perdeu um filho na guerra do tráfico; a feirante gorda, desolada, expulsou a filha de casa, porque ela se perdeu; o executivo da ponte aérea vive um problema conjugal, porque a conta de seu cartão de crédito acusava o pagamento de um motel; o pedreiro da obra narra a vida de sua mãe, que migrou com oito filhos e muita coragem; o garçom pede uma chance no mundo artístico e começa a cantar uma música sertaneja com voz abaritonada – histórias de todos nós que, reunidas, vão formando a imensa rede de seres que se agrupam neste planeta. E depois, quando as histórias estão reunidas e devidamente ornadas com os bordados da imaginação, tomo posse de cada uma delas e saio pelo mundo, contando a saga dessas novas personagens, para qualquer um que me ofereça um instante de silêncio. Esta é a minha maneira de manter viva a imagem daquele homem. Vovô amava as palavras e amava gente (além dos rabanetes e das cebolas), e eu descubro hoje, no meio da noite gelada, que de alguma forma ele não morreu. Como um mágico que nos enganou a todos com as mãos, ele espalhou-se pelo universo e transferiu-se de mala e cuia para dentro do meu coração. Neste quarto de hotel, em Curitiba, quando os termômetros despencam vertiginosos, eu me flagro mais uma vez contando uma história comum, mas de paladar inigualável. E imagino meu avô, parado no meio da estrada, observando a pedra imensa que ele precisa transpor para conquistar o coração da princesa e, através da proeza, chegar enfim ao coração da humanidade.


O olhar de São Cristóvão

 São Cristóvão repousa no alto de uma colina, quieta, aparentemente inabitada, neste meio dia de sol quente e um céu azul de doer a vista. Na praça do mosteiro, pisando nas pedras do calçamento antigo, tudo é uma só labareda do passado, um conjunto arquitetônico impressionante, um pouco da nossa história e um orgulho adormecido que, a princípio, boceja sonolento, mas que pula no peito, assim, de repente, e enche os olhos d’água. São Cristóvão, eu não sabia, é a quarta cidade mais antiga do Brasil, distante alguns quilômetros de Aracaju, atual capital do estado. Tudo nela grita os tempos de Sergipe d’el Rey, uma dignidade clara, de janelas azuis e paredes grossas, testemunhas do Brasil colônia, com os campanários do século XVII recortados contra um céu imóvel, como se Deus tivesse emborcado uma xícara de finíssima porcelana azul sobre a terra.
 Mas a história não é essa. Na verdade, confesso minha ignorância, eu não sabia da existência e da importância de São Cristóvão, de seu belíssimo museu de arte sacra, de sua história preservada no coração de Sergipe. Muito provavelmente, eu teria ido me apresentar em Aracaju sem visitá-la, não fosse por Jacira e sua vontade de fazer o caminho de volta, porque esse desejo está no coração de todos os seres do planeta – mais cedo ou mais tarde, temos que percorrer o caminho de volta, seja prá onde for.
 Jacira trabalha comigo há três anos, mais ou menos. Foi trazida por Maria que era colega dela na escola noturna e que, finalmente, cedeu as minhas pressões para que tivesse alguém que a ajudasse. Jacira é pequena, os cabelos na altura dos ombros e uma alegria digna de nota. Quando estamos todos na copa, depois do almoço, tecendo comentários sobre a vida em geral, sexo inclusive, ela está sempre às gargalhadas e ri de não se agüentar nas pernas, desaparecendo de nosso campo de visão, quando se agacha num ataque prolongado de riso, a mão sobre a boca, murmurando o seu bordão: Miguel é triste!
 Pois numa dessas conversas, ela me contou que era de São Cristóvão, Sergipe, que tinha vindo tentar a sorte no Rio, há dezenove anos atrás, ainda menina, apavorada com a perspectiva de uma vida no Rio de Janeiro, parada na estrada, à espera do ônibus, a certidão de nascimento roubada na calada da noite, porque não queriam que ela fosse embora. Jacira veio e nunca mais voltou. A vida difícil a impediu, é claro, mas alguma coisa dentro dela (que ela nem sabia explicar o que era) segurava seus passos e atravancava o caminho de volta. Daí que resolvi levá-la comigo, aproveitando a turnê da peça e, para não criar ciúmes, acabei resolvendo levar todo mundo, porque afinal de contas somos mesmo uma família e Jacira, Maria e Neide ( juntamente com Carlos Alberto e seu Hélio) alicerçam meus dias e meu trabalho. Juntamos as trouxas e seguimos viagem, um grupo ruidoso e, no mínimo, engraçado.
 Chegamos a São Cristóvão no fim da manhã e, como disse antes, a cidade parecia adormecida, presa no encanto dos tempos. Eu me virava no banco da frente, roubando um pouco da emoção do olhar que ela lançava para fora da janela do carro, reconhecendo o seu lugar. Na praça principal, antes de entrar no museu, fomos “descobertos” por um grupo de crianças que saíam da escola e, em questão de minutos, aquilo virou uma loucura, uma algazarra inacreditável que, para meu constrangimento, parecia acordar os mortos que dormiam em paz sob as campas da igreja. Refugiei-me numa sala do museu, porque percebi que ela estava nervosa, que todo aquele tumulto ia acabar quebrando a magia do reencontro, de modo que resolvemos deixá-la logo em casa e, depois, conhecer a cidade.
 E fomos seguindo pelas ruas estreitas, com um bando de crianças pulando atrás do carro, crianças como ela foi um dia, eu podia ver nos seus olhos, a saudade, a constatação de uma realidade sofrida que ela não pediu, que ela nunca entendeu, que a obrigou a partir e ela, num fio de voz, disse, encolhida no banco de trás, com um olhar novo de quem viu o mundo para além do seu quintal.
- Meu Deus! É tudo tão pequeno!
 No alto da ladeira, ela desceu do carro e tiramos as coisas do porta-malas, presentes para a família, a bolsa de viagem arrumada com carinho. Eu perguntei se ela queria que eu entrasse para cumprimentar a família, mas ela disse que não, de modo que ficamos ali, vendo ela descer a ladeira, enquanto os vizinhos corriam para os portões. Ela parou na entrada da casa do irmão e acenou para nós. Depois, apertou os olhos e exclamou, quase um grito de ave reunida ao bando, depois de quilômetros de vôo sem rumo.
 - Meu pai ‘tá tão velhinho!
 E deixamos ela lá, para o final de semana, partindo em silêncio, cada um de nós com saudade das coisas amadas que deixamos para trás. Ninguém disse nada, ninguém queria dizer nada. No convento das monjas beneditinas, refugiados na sombra fresca das paredes da igreja, nós nos olhamos com carinho. Aquele foi um dia feliz, eu pensei. E acho que todos concordaram comigo, no silêncio da prece.


Natal imita o Cairo

 Emoções vividas nunca desaparecem, eu penso, olhando para o horizonte sem fim que é o mar de Natal, na varanda do hotel. Uma faixa de azul intenso que mergulha lá longe num outro azul mais claro, a cor do firmamento, pálida nesta manhã de outono, quase inverno. Uma cor que mergulha na outra, um céu que mergulha no outro, este é o movimento dos dias, uma língua de areia branca que voa rasteira e lambe com despudor uma formação de rochas negras, pousa ali por um instante e desaparece num mundo de espumas. Tudo se movimenta com uma precisão perfeita, tudo é harmonia e a alma fica muda de espanto, atenta ao correr do tempo, incapaz de copiar a serenidade desta paisagem, invejosa da marola que descreve uma curva perfeita, antes de mergulhar na areia. Um mar que mergulha no outro, uma rocha que mergulha na outra, uma emoção que mergulha na outra – enfim! Um coração que é congelado no ar, no exato momento do salto e, depois, mergulha no outro.
 Mas eu falava das emoções, dos sentimentos que vamos armazenando vida afora e que ficam guardados nas gavetas da memória, à espera do descuido. Há minutos atrás, eu olhava para esse mundo de beleza e, sem me dar conta, abri uma das tais gavetas e uma velha tristeza bocejou, espreguiçou-se e acordou, fazendo morada em algum lugar do meu peito. Eu a conheço há muito tempo – ela nasceu no Cairo, numa viagem que fiz há alguns anos atrás, tentando salvar uma relação que tinha seus dias contados. Eu achei que ela tinha partido há já algum tempo, mas eis que ela está de volta, sem aviso prévio, desfazendo com um passe de mágica o mundo que se estende a minha frente. Com uma calma surpreendente, ela começa a se instalar e, embora os meus olhos ainda fitem a vastidão do mar, ele vai se transformando no Nilo de águas escuras e a imensidão de areia fina brinca de imitar a imensidão árida do Cairo.
 Eu estou nos jardins de um hotel que, outrora, foi um palácio construído pelo rei Farouk para uma princesa que ele amava. Um copo longo de chá gelado repousa na mesa branca e estou à espera do sol, que vai se deitar atrás das pirâmides. Há outros turistas por ali, aguardando o espetáculo da natureza. Os garçons usam luvas brancas, são impecáveis no serviço, e há um certo ar de colonialismo inglês na cena que se descortina ante meus olhos. Estou igualmente à espera de alguma resposta que acalme a turbulência do meu coração. A viagem não tem sido um encontro de almas, como eu imaginei. Minha avó já dizia que a gente não foge dos problemas, que eles viajam na mala junto conosco, mas eu esqueci do conselho e achei que um passeio pelo Nilo e suas construções monumentais poderiam salvar esse projeto de amor. Não funcionou, de modo que eu bebo um pouco do chá adocicado, pensando como é que vamos suportar uma viagem até Luxor, trancados num barco, dando tratos à bola, achando um desperdício de vida e de tempo todo esse mal estar planejado com antecedência. Há muitos pássaros no gramado do hotel e eu fico perdido nos meus pensamentos, assistindo à evolução das aves, tentando achar uma saída para a sucessão de caras feias e maus humores e a total ausência de futuro entre nós. Um turista belga puxa conversa comigo e eu respondo laconicamente às perguntas de costume. Estou seriamente tentado a cancelar o resto da viagem. Ou, então, partir sem olhar para trás, como a mulher de Lot, deixando apenas um punhado de palavras rabiscadas num papel. Meu coração está triste e eu estou com raiva de mim mesmo.
 E eis que o sol estende os braços dourados e começa a mergulhar nas dunas de areia, deixando as pirâmides no meio da fogueira – um sol que mergulha num outro sol, uma pirâmide que mergulha numa outra pirâmide, um coração que mergulha aonde? Mas a cena é tão inacreditavelmente bela que tudo perde um pouco a importância e eu acabo resolvendo levar a viagem a cabo, ainda que seja a última vez, o último suspiro. O telefone toca e os pássaros se assustam quando os garçons de luvas brancas começam a desaparecer. Logo, é a vez dessas estranhas aves – elas também se diluem nas esferas do tempo e o gramado do Mena House, o hotel do Cairo, volta a ser a varanda do hotel de Natal e eu pisco os olhos repetidas vezes, como se para me assegurar que estou de volta e que já passou, já passou. Vasculho o meu interior à cata desta tristeza antiga e ela já está de malas prontas, porque sabe que aqui não é a hora nem o lugar. Fico alerta, evitando que ela escorregue e volte a se esconder numa das gavetas da memória – dessa vez, ela vai embora, eu penso, e assisto ao ritual de sua partida com o coração apertado, porque até mesmo para uma tristeza é difícil dizer adeus.
 Depois, é tudo uma calma imensa – o telefone parou de tocar, não se ouve um ruído além da cantiga do mar e, muito ao longe, vozes de crianças que brincam na areia. O Cairo ficou para trás. Os dias no navio descendo o Nilo não foram os mais felizes, mas os palácios e ruínas e túmulos e toda aquela história preservada ajudaram muito e as dinastias acabaram enterrando de vez a discussão do amor. Quando voltamos ao Brasil não tínhamos mais o que dizer – hieróglifos demais, talvez. Sobraram algumas ruínas, não tão belas quanto à egípcias, e aquela tristeza safada que conseguiu se esconder e que, aos depois, voltou a me assombrar. Pois ela também se foi, eu penso. Agora, um dia mergulha num outro dia e eu, cansado das lembranças, mergulho no futuro azul, quente e generoso que é o mar de Natal no mês de junho no ano do Senhor de 1999.


A fogueira desatada

 Zezé Polessa aproveitou as apresentações em Natal e viajou para Fernando de Noronha. Ficou de nos encontrar em Recife. Eu lancei um olhar invejoso, sonhando com enseadas azuis e golfinhos dançando à luz da lua, mas tive que voar para São Paulo. Saí daquele mundo ensolarado e, horas depois, já estava remexendo os armários, à cata de casacos, imaginando Zezé nas águas do atlântico, rodeada de peixes de todas as cores, o corpo abandonado ao sabor da corrente. Gravei o Sai de Baixo e corri para o ensaio de Leonardo, madrugada adentro. Gringo Cardia me lançava olhares de sorriso na penumbra do Olympia, cúmplice, porque o show estava funcionando e aí Leonardo começou a cantar “Não aprendi a dizer adeus” e o fundo do palco se encheu das personagens de Lichtenstein, um pintor que eu gosto muito. Daí que todas aquelas garotas com os olhos marejados e cores vibrantes passavam pela tela iluminada e o telefone tocou e eu atendi meio sem saco, meio mau humorado, achando que era alguém a fim de me alugar àquela hora da noite, mas era Zezé, chamando do meio do oceano, com uma voz triste, pesada de saudade. Ela foi direto ao assunto.
-  A Silvia morreu, você já soube?
 Não, eu não sabia. Sabia que ela estava doente, Maria Padilha tinha ido visitá-la e disse que o quadro não era bom e que ela tinha me mandado um beijo e pedido prá eu rezar por ela. Eu rezei e me prometi secretamente ir visitá-la, assim que tivesse uma brecha na agenda, mas estou sempre arrastando a mala para algum lugar e o tempo não veio e agora estou eu aqui, em São Paulo, às tantas da noite, com o telefone nas mãos, assistindo a uma parte da minha vida desaparecer, como os afrescos que são expostos à luz do sol.
 Leonardo ainda canta “mas tenho que aceitar que amores vem e vão, são aves de verão” e eu saio dali, com um nó na garganta, querendo estar sozinho. Faz muito frio e São Paulo dorme. Eu acendo um cigarro, na porta do Olympia e o segurança me diz que não é bom eu ficar dando mole por ali, mas eu não escuto. A noite transformou-se numa cabeleira vermelha de uma intensidade única e a voz dela me enche os ouvidos e eu estou com tanta raiva de mim mesmo por não ter mais tempo, por não ter ido visitá-la e dizer uma besteiras e talvez ter arrancado dela uma gargalhada, um sorriso que fosse, um brilho nos olhos que eu guardaria envolto em papel de seda, na caixa dos tesouros mais queridos. Agora, é tarde. Agora, ela já se foi e eu estou aqui, numa calçada deserta, remexendo as lembranças como um louco, em busca dos melhores anos, dos melhores dias daquela história que termina aqui. Alguém lá em cima acaba tendo pena de mim e uma luz que vem da janela de um apartamento me traz de volta a luz do quarto dela, escapando por entre as rendas dos xales e as franjas de uma geração.
 Silvia Sangirardi era uma mulher impressionante. Alta, uma cabeleira vermelha, sardas pelo rosto e uma inteligência aguda e mordaz. Ela literalmente me recolheu na rua. Eu estava sem ter para onde ir (isso foi antes da Travessa Pepe), apavorado com a perspectiva de ter que voltar para a casa paterna, na Ilha do Governador, e ela abriu as portas de sua casa, com uma generosidade típica daqueles tempos. Zezé Polessa já estava morando lá e tinha sido acolhida da mesma maneira. Daniel Dantas chegou por essa época, também e, volta e meia, pousava ali, naquele subsolo da rua Barão da Torre, em Ipanema, onde eu escrevi uma página importante da minha vida. Como sempre, não tínhamos um centavo, mas como éramos criativos, meu Deus! Há tantas histórias engraçadas, tantas passagens únicas, que eu poderia escrever um livro sobre aquele período, mas quero gastar esse curto espaço de tempo lembrando dela, de sua voz inconfundível, suas tiradas precisas, ferinas, seu talento em criar fantasias, figurinos, arte, o rosto branco parcamente iluminado, no quarto dos fundos e ela me contando histórias. Não tínhamos telefone e vivíamos pendurados no orelhão da esquina da Aníbal de Mendonça, noite adentro, noite afora, jogando dicionário (ela era imbatível nas falsas definições) e confiando o rosário sem fim dos amores de então.
 Silvia Sangirardi não está mais aqui. Esteve junto comigo, pela última vez, nos palcos, assinando o figurino de “Louro, Alto, Solteiro, Procura...”, mas antes disso, participou de grande parte de minha vida. Dividimos um teto, um sonho e um caminho cheio de mistérios. Silvia adorava um mistério – estrelas, zodíacos e oráculos. Eu fantasio, nesta calçada, que havia cometas voando pelo teto da nossa morada, mas eram reflexos da renda que bordavam o nosso céu, porque tudo nela era rendado, florido, bordado. Silvia era uma figura!
 No fim de janeiro, quase crepúsculo, eu fui dar uma volta na praia e a encontrei, pela última vez, sem o saber. Ficamos ali, parados, conversando, com aquela intimidade de sempre, ela me falou do livro que tinha escrito, eu falei dos meus projetos, uma conversa à toa, um carinho antigo, depois eu fui na direção do Arpoador e ela ficou sentada na areia, de maiô preto, os cabelos vermelhos aprisionados num coque. Mas não vai ser essa a imagem dela que eu vou levar comigo. Eu aperto os olhos e consigo ver com uma nitidez surpreendente a figura ainda magra, recostada no batente da porta, com uma camiseta de malha branca, um xale jogado nos ombros, a boca vermelha, os cabelos soltos como uma fogueira desatada e os olhos faiscando de fúria pela vida. Eu não sei que não há mais tempo, mas sei também que os mistérios nos trazem surpresas, por isso, Silvia, eu só queria te dizer muito obrigado. Muito, muito obrigado por tudo. Até um dia.